Lógico que eu quis conferir a virada cultural,
alguma dúvida? Não faltou quem desencorajasse. É perigoso, é
desorganizado, é no centro (aquele lugar sujo e feio, que deve ser
evitado sempre que possível), é povão, as atrações são fracas, e por aí vai. É aquela velha história: quando Fulano me fala em São Paulo, eu aprendo mais sobre Fulano do que sobre São Paulo.
Não cheguei a virar, por solidariedade ao padeiro que me acompanhava,
já que ele começaria a trabalhar às 5 da madrugada. Mas ficamos no
centro até às 3, e pra lá voltei sozinha hoje de manhã.
Estacionamos na rua pertinho da Praça da República, comemos coxinha com
cerveja num boteco simpático e fomos curtir Stanley Jordan. Praça cheia
de gente aproveitando o show numa boa, muitos abrindo o guia repleto de
atrações pra decidir aonde ir em seguida, nenhuma confusão. Fomos
caminhando dali pro Anhangabaú, eu queria ver a Ana Botafogo. Muita
gente pelas ruas, o centro vivo. Banheiros químicos de sobra, e aqueles
cercadinhos individuais pra homem fazer xixi em pé, ao ar livre e sem
emporcalhar a rua (esses com sucesso absoluto de público: os mijões
todos faceiros, e os passantes tirando fotos por acharem a cena
hilária).
Passamos pelo Municipal, majestoso, iluminado, com função
acontecendo lá dentro e um mapping muito louco sendo projetado no
prédio da frente. Na Praça Ramos de Azevedo, um grupo de heavy metal e
uma gurizada em volta.
Chegamos ao palco Dança, plateia lotada,
todos esperando Ana Botafogo, imaginei. Quando se abriram as cortinas,
anunciou-se o Ballet da Cidade de São Paulo. Descobri depois que Ana se
adiantou bastante e fez uma apresentação rápida. Pena, mas tudo bem
também: a performance Abrupto foi linda, os bailarinos foram muito
aplaudidos e o público ficou emocionado.
Voltamos pra República e
fomos comer no Bar da Dona Onça, ali no térreo do Copan. Casa cheia,
onça Janaina Rueda no comando do salão, marido Jefferson Rueda dando uma
força na cozinha. Sou fã dos dois. Primeiro porque não vêem opostos
irreconciliáveis entre centrão e Vila Nova Conceição, muito pelo
contrário: eles simbolizam a complementaridade entre a São Paulo
refinada, urbana, exclusiva e a São Paulo marginal, caipira, diversa. É
tão raro quem perceba que é tudo uma coisa só, e que são as diferenças
que fazem dessa cidade um mosaico fascinante. Segundo por serem um casal
trabalhador, que se ajuda mutuamente e que tem uma história muito
bacana na cena gastronômica paulistana. Terceiro porque a rabada com
polenta que eu comi lá ontem tava algo do outro mundo e conquistou meu
amor eterno.
Comemos, bebemos, encontramos amigos e fomos embora em paz. Nosso carro intocado, polícia nas ruas, nenhuma cena de violência.
Hoje de manhã acordei e fui até a Sala São Paulo pra ver e ouvir a
OSESP. À luz do dia, vi sim sujeira nas ruas, pessoas sob efeito de
drogas, cracolândia daquele jeito. Cenas tristes? Sem dúvida.
Ameaçadoras? Não que eu tenha sentido, e olha que eu dirigia sozinha um
carro sem película nos vidros, no meio da muvuca. De novo vi muito
policiamento pelas ruas, e vi as pessoas vivendo a cidade. Ouvindo
música, andando por tudo, se divertindo.
Entrei na Sala São Paulo
de graça, como qualquer um poderia entrar. Não conhecia ainda, fiquei
maravilhada com a beleza do lugar. A Orquestra tocou Brahms, começando
por Abertura de um Festival Acadêmico. O apresentador explicou que a
obra fora uma retribuição bem humorada do artista pelo título honoris
causa que recebera de uma universidade. Bem humorada porque o que ele
fez foi reunir diversas operetas irreverentes, canções que os estudantes
entoavam quando saíam para beber e farrear, dando ao pot pourri a
estrutura formal de uma sinfonia. Nas palavras do próprio apresentador, é
como se hoje um artista erudito trabalhasse sobre canções de Valesca
Popozuda, Ivete Sangalo e MC Guimê.
O concerto seguiu, e enquanto
eu assistia, pensava no privilégio de viver em uma cidade onde há uma
Sala São Paulo, uma OSESP, uma virada cultural tão rica e variada em
programação, e públicos que prestigiem tudo isso. Pensava também na
analogia feita pelo apresentador, tão simbólica da cidade e da própria
virada.
Na saída, do lado de fora, um palco tocava funk pra uma
plateia animadíssima. O sol brilhava e coexistiam ali os funkeiros, os
apreciadores de música clássica, os viciados em crack, as famílias, as
prostitutas, os velhinhos, eu e todo mundo. E se mostrava mais claro do
que nunca que fronteiras rígidas são delírio de quem tem medo de entrar
em contato com as próprias contradições.
Logo mais vou comer nas barraquinhas dos chefs de rua, no Minhocão. E em 2015 certamente virarei a madrugada.
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