quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Aquele sobre a virada cultural

Lógico que eu quis conferir a virada cultural, alguma dúvida? Não faltou quem desencorajasse. É perigoso, é desorganizado, é no centro (aquele lugar sujo e feio, que deve ser evitado sempre que possível), é povão, as atrações são fracas, e por aí vai. É aquela velha história: quando Fulano me fala em São Paulo, eu aprendo mais sobre Fulano do que sobre São Paulo.
Não cheguei a virar, por solidariedade ao padeiro que me acompanhava, já que ele começaria a trabalhar às 5 da madrugada. Mas ficamos no centro até às 3, e pra lá voltei sozinha hoje de manhã.
Estacionamos na rua pertinho da Praça da República, comemos coxinha com cerveja num boteco simpático e fomos curtir Stanley Jordan. Praça cheia de gente aproveitando o show numa boa, muitos abrindo o guia repleto de atrações pra decidir aonde ir em seguida, nenhuma confusão. Fomos caminhando dali pro Anhangabaú, eu queria ver a Ana Botafogo. Muita gente pelas ruas, o centro vivo. Banheiros químicos de sobra, e aqueles cercadinhos individuais pra homem fazer xixi em pé, ao ar livre e sem emporcalhar a rua (esses com sucesso absoluto de público: os mijões todos faceiros, e os passantes tirando fotos por acharem a cena hilária).
Passamos pelo Municipal, majestoso, iluminado, com função acontecendo lá dentro e um mapping muito louco sendo projetado no prédio da frente. Na Praça Ramos de Azevedo, um grupo de heavy metal e uma gurizada em volta.
Chegamos ao palco Dança, plateia lotada, todos esperando Ana Botafogo, imaginei. Quando se abriram as cortinas, anunciou-se o Ballet da Cidade de São Paulo. Descobri depois que Ana se adiantou bastante e fez uma apresentação rápida. Pena, mas tudo bem também: a performance Abrupto foi linda, os bailarinos foram muito aplaudidos e o público ficou emocionado.
Voltamos pra República e fomos comer no Bar da Dona Onça, ali no térreo do Copan. Casa cheia, onça Janaina Rueda no comando do salão, marido Jefferson Rueda dando uma força na cozinha. Sou fã dos dois. Primeiro porque não vêem opostos irreconciliáveis entre centrão e Vila Nova Conceição, muito pelo contrário: eles simbolizam a complementaridade entre a São Paulo refinada, urbana, exclusiva e a São Paulo marginal, caipira, diversa. É tão raro quem perceba que é tudo uma coisa só, e que são as diferenças que fazem dessa cidade um mosaico fascinante. Segundo por serem um casal trabalhador, que se ajuda mutuamente e que tem uma história muito bacana na cena gastronômica paulistana. Terceiro porque a rabada com polenta que eu comi lá ontem tava algo do outro mundo e conquistou meu amor eterno.
Comemos, bebemos, encontramos amigos e fomos embora em paz. Nosso carro intocado, polícia nas ruas, nenhuma cena de violência.
Hoje de manhã acordei e fui até a Sala São Paulo pra ver e ouvir a OSESP. À luz do dia, vi sim sujeira nas ruas, pessoas sob efeito de drogas, cracolândia daquele jeito. Cenas tristes? Sem dúvida. Ameaçadoras? Não que eu tenha sentido, e olha que eu dirigia sozinha um carro sem película nos vidros, no meio da muvuca. De novo vi muito policiamento pelas ruas, e vi as pessoas vivendo a cidade. Ouvindo música, andando por tudo, se divertindo.
Entrei na Sala São Paulo de graça, como qualquer um poderia entrar. Não conhecia ainda, fiquei maravilhada com a beleza do lugar. A Orquestra tocou Brahms, começando por Abertura de um Festival Acadêmico. O apresentador explicou que a obra fora uma retribuição bem humorada do artista pelo título honoris causa que recebera de uma universidade. Bem humorada porque o que ele fez foi reunir diversas operetas irreverentes, canções que os estudantes entoavam quando saíam para beber e farrear, dando ao pot pourri a estrutura formal de uma sinfonia. Nas palavras do próprio apresentador, é como se hoje um artista erudito trabalhasse sobre canções de Valesca Popozuda, Ivete Sangalo e MC Guimê.
O concerto seguiu, e enquanto eu assistia, pensava no privilégio de viver em uma cidade onde há uma Sala São Paulo, uma OSESP, uma virada cultural tão rica e variada em programação, e públicos que prestigiem tudo isso. Pensava também na analogia feita pelo apresentador, tão simbólica da cidade e da própria virada.
Na saída, do lado de fora, um palco tocava funk pra uma plateia animadíssima. O sol brilhava e coexistiam ali os funkeiros, os apreciadores de música clássica, os viciados em crack, as famílias, as prostitutas, os velhinhos, eu e todo mundo. E se mostrava mais claro do que nunca que fronteiras rígidas são delírio de quem tem medo de entrar em contato com as próprias contradições.

Logo mais vou comer nas barraquinhas dos chefs de rua, no Minhocão. E em 2015 certamente virarei a madrugada.

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