quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Aquele sobre consumidores de papel higiênico lixa

Não se iluda. As pessoas não se dividem em esquerda x direita, vegetarianos x onívoros, Pelé x Maradona, fumantes x não fumantes. O traço fundamental que opõe a humanidade em duas categorias diametralmente opostas é: quem compra o papel higiênico mais barato no supermercado x quem se permite o rolo de folha dupla, suave e perfumada.
O sujeito que usa papel lixa em nome da economia de uns poucos vinténs é, antes de tudo, um mártir. Alguém que não veio ao mundo a passeio, e portanto está disposto a suportar qualquer sofrimento, dando preferência ao auto infligido. Porque o mundo é duro e áspero, e ir ao banheiro deve ser um treinamento para os atritos do dia a dia. Porque suavidade é sinônimo de fraqueza, e quem busca conforto e aconchego na intimidade do lar (e da privada) não merece mais do que desprezo e condescendência. Para os adeptos dos rolos que custam menos e rendem mais, o discurso da busca pelo prazer e pela felicidade é um embuste forjado pelo mercado para fazer as pessoas gastarem dinheiro e desviarem-se do caminho virtuoso de trabalho e auto flagelo. O Neve Neutra Care na gôndola é como o caco de espelho ofertado ao índio pelos invasores portugueses, 500 anos atrás. Puro engodo. Porta de entrada para a desgraça. Só ilude os fracos de espírito, os hedonistas inconsequentes, os devassos incorrigíveis. Ah, onde estaríamos se essa turba de depravados entendesse que papel higiênico serve apenas para limpar, cama foi feita para dormir, comida é mero combustível, vinho é frivolidade e dinheiro é pra se guardar. Atrasam o curso da evolução aqueles que dedicam tempo e energia à poesia, ao amor, à embriaguez, à boa mesa, e sobretudo ao papel macio e texturizado.
Comece a reparar à sua volta. No trabalho, o colega que faz hora extra com o objetivo de no dia seguinte, jogar seu par de olheiras escuras e profundas na cara do grupo que saiu às 18h prum happy hour. No restaurante, aquele que escrutina a conta e só paga o que de fato consumiu, mesmo que o total dividido por todos fique só R$3,87 mais caro. No trânsito, a criatura que não dá passagem, mesmo que você peça com uma buzinada simpática e um joinha sorridente (e mesmo que ela só avance meio metro ao trancar a sua vida). Na vida, os seres que jamais relaxam, que raramente sorriem, que dificilmente amam, que nem sob decreto debocham de si próprios, e que ficam sem saber como agir ao receber qualquer gesto de gentileza.
Aposto uma cachaça de Salinas como todos esses tipos só consomem papel higiênico chinfrim.

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