quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Aquele sobre dieta

Já que segunda é dia de começar dieta, voilá:

Li há pouco uma matéria da Vogue britânica de abril sobre a febre dos sucos, notadamente os verdes, que assola o mundo inteiro. Divertida, auto depreciativa e escrita por um homem, naquele estilo brit de apontar que o bom senso está longe de ser o senso comum - e que por isso mesmo leva o leitor a rir dos absurdos da contemporaneidade, ainda que tenha em mãos a bíblia mundial de moda, estilo e comportamento. A revista sabe debochar das tolices inerentes ao universo que ela mesma rege, como quem percebe as próprias contradições e entende que a autoironia é o que nos permite viver em paz com o ridículo de existir nesse mundo maluco. Tão diferente da Vogue Brasil, que parece sempre querer revestir todos os que retrata de um verniz de realeza e/ou old money, a from UK vai no caminho inverso, e mostra a humanidade latente - glamour à parte - em seus personagens, até aqueles que são mesmo royals e ricaços históricos.
Mas não era sobre as diferenças entre as redações da Vogue mundo afora que eu queria escrever. Era sobre o tal suco verde e tantos outros alimentos com status de divindade que vêm surgindo por aí. Basta surgir um superfood pra eu ficar azeda.
Um suco que elimina o trabalho de cozinhar, mastigar e digerir quilos de vegetais, com a promessa de aproximar o suquista da iluminação (porque sim, eles já formam uma seita numerosa, organizada e doutrinadora) é um engodo perigoso. Chocolates com colágeno, brigadeiros com whey, shakes que substituem refeições, queijos veganos, feijoadas com glúten no lugar do porco (!), refrigerante diet, cerveja sem álcool, adoçante no café. Tudo isso me dá urticária e azia. Qualquer produto que se autointitule gourmet - de varandas a pipocas -, sem deixar clara a razão disso, tá fora do meu carrinho.
Porque é tudo mentira, percebem? São adulterações grosseiras de comidas simples, justificadas - e vendida$ a preço de caviar - pelos benefícios que supostamente trazem à saúde, sempre aliado ao prazer "i-gual-zi-nho" ou "superior" ao de comer a iguaria de verdade.
Pelamor, essas invenções não são uma coisa, nem a outra. Não fazem essa maravilha toda pela silhueta, menos ainda pela saúde, e não se comparam - nem a pau - à experiência de brigadeiros só com cacau e leite condensado, refeições sólidas, coloridas e compartilhadas, queijos feitos de leite fermentado e cheios de bacteriazinhas camaradas, feijoadas completas (daquelas que levam costela, paio, torresmo e uma ambulância esperando na porta), refri normal (refri é péssimo de qualquer jeito, mas se a ressaca pede de quando em vez, toma logo uma coca normal em garrafa de vidro, tchê), cerveja com álcool E sabor, café com gosto de café (não de cevada e mil outros grãos bichados torrados a ponto de esturricar, e nunca de zerocal).
Sou uma glutona orgulhosa, e o que me separa da obesidade é a dieta da verdade. Se eu preciso ingerir mais vitaminas, taco-lhe fruta e verdura em todas as refeições, e não troco meus pratos coloridos, mastigados e fruídos em boa companhia por uma garrafinha de 350ml a R$18, solitária e instagramizada. Feijoada? Só como a completa, e se eu puder passar as 5 horas subsequentes sem mover um só dedo, ou seja: nem pensar naquela vegana do quilo natureba no meio do expediente.
Veganos: não chamem de queijo o que não é queijo. Uma vez treinei em casa um prato que envolvia o esquartejamento de uma galinha d'angola, porque cairia na prova prática da semana seguinte. Um conhecido vegano apareceu lá em casa bem no mesmo dia, e só de raiva e choque diante da brutalidade do preparo, me apresentou um parmesão feito sem leite. Inútil, a única comoção que me causou foi voltada ao próprio sujeito, por comer um troço que sabe a papelão molhado e achar que é quase igual ao rei dos queijos.
Doce, só como se levar açúcar e manteiga - dúzias de ovos são um plus. Não, não dá pra comer isso todo dia, então se não dá, não como sobremesa. Fico arrasada só de pensar em comer um pudim diet da royal, fazendo o exercício mental de me convencer de que é como se estivesse me deliciando com qualquer doce calórico e açucarado. Me ofendo quando no bar o garçom pergunta se quero minha caipirinha com adoçante. E viro a cara se me oferecerem nuggets, em qualquer circunstância.
A dieta da verdade é supersimples de seguir, e traz resultados positivos e duradouros, não só na balança, como na saúde social e psíquica de quem a pratica. Só não é mais popular porque, como falei lá no começo, o bom senso anda cada vez mais distante do senso comum. E além disso, não ajuda a vender as tranqueiras inócuas e insípidas que surgem no mercado a todo momento.

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