Já que segunda é dia de começar dieta, voilá:
Li há pouco uma matéria da Vogue britânica de abril sobre a febre dos
sucos, notadamente os verdes, que assola o mundo inteiro. Divertida,
auto depreciativa e escrita por um homem, naquele estilo brit de apontar
que o bom senso está longe de ser o senso comum - e que por isso mesmo
leva o leitor a rir dos absurdos da contemporaneidade, ainda que tenha
em mãos a bíblia mundial de moda, estilo e comportamento. A revista
sabe debochar das tolices inerentes ao universo que ela mesma rege, como
quem percebe as próprias contradições e entende que a autoironia é o
que nos permite viver em paz com o ridículo de existir nesse mundo
maluco. Tão diferente da Vogue Brasil, que parece sempre querer revestir
todos os que retrata de um verniz de realeza e/ou old money, a from UK
vai no caminho inverso, e mostra a humanidade latente - glamour à parte -
em seus personagens, até aqueles que são mesmo royals e ricaços
históricos.
Mas não era sobre as diferenças entre as redações da
Vogue mundo afora que eu queria escrever. Era sobre o tal suco verde e
tantos outros alimentos com status de divindade que vêm surgindo por aí.
Basta surgir um superfood pra eu ficar azeda.
Um suco que elimina o
trabalho de cozinhar, mastigar e digerir quilos de vegetais, com a
promessa de aproximar o suquista da iluminação (porque sim, eles já
formam uma seita numerosa, organizada e doutrinadora) é um engodo
perigoso. Chocolates com colágeno, brigadeiros com whey, shakes que
substituem refeições, queijos veganos, feijoadas com glúten no lugar do
porco (!), refrigerante diet, cerveja sem álcool, adoçante no café. Tudo
isso me dá urticária e azia. Qualquer produto que se autointitule
gourmet - de varandas a pipocas -, sem deixar clara a razão disso, tá
fora do meu carrinho.
Porque é tudo mentira, percebem? São
adulterações grosseiras de comidas simples, justificadas - e vendida$ a
preço de caviar - pelos benefícios que supostamente trazem à saúde,
sempre aliado ao prazer "i-gual-zi-nho" ou "superior" ao de comer a
iguaria de verdade.
Pelamor, essas invenções não são uma coisa, nem a
outra. Não fazem essa maravilha toda pela silhueta, menos ainda pela
saúde, e não se comparam - nem a pau - à experiência de brigadeiros só
com cacau e leite condensado, refeições sólidas, coloridas e
compartilhadas, queijos feitos de leite fermentado e cheios de
bacteriazinhas camaradas, feijoadas completas (daquelas que levam
costela, paio, torresmo e uma ambulância esperando na porta), refri
normal (refri é péssimo de qualquer jeito, mas se a ressaca pede de
quando em vez, toma logo uma coca normal em garrafa de vidro, tchê),
cerveja com álcool E sabor, café com gosto de café (não de cevada e mil
outros grãos bichados torrados a ponto de esturricar, e nunca de
zerocal).
Sou uma glutona orgulhosa, e o que me separa da obesidade é
a dieta da verdade. Se eu preciso ingerir mais vitaminas, taco-lhe
fruta e verdura em todas as refeições, e não troco meus pratos
coloridos, mastigados e fruídos em boa companhia por uma garrafinha de
350ml a R$18, solitária e instagramizada. Feijoada? Só como a completa, e
se eu puder passar as 5 horas subsequentes sem mover um só dedo, ou
seja: nem pensar naquela vegana do quilo natureba no meio do expediente.
Veganos: não chamem de queijo o que não é queijo. Uma vez treinei em
casa um prato que envolvia o esquartejamento de uma galinha d'angola,
porque cairia na prova prática da semana seguinte. Um conhecido vegano
apareceu lá em casa bem no mesmo dia, e só de raiva e choque diante da
brutalidade do preparo, me apresentou um parmesão feito sem leite.
Inútil, a única comoção que me causou foi voltada ao próprio sujeito,
por comer um troço que sabe a papelão molhado e achar que é quase igual
ao rei dos queijos.
Doce, só como se levar açúcar e manteiga -
dúzias de ovos são um plus. Não, não dá pra comer isso todo dia, então
se não dá, não como sobremesa. Fico arrasada só de pensar em comer um
pudim diet da royal, fazendo o exercício mental de me convencer de que é
como se estivesse me deliciando com qualquer doce calórico e açucarado.
Me ofendo quando no bar o garçom pergunta se quero minha caipirinha com
adoçante. E viro a cara se me oferecerem nuggets, em qualquer
circunstância.
A dieta da verdade é supersimples de seguir, e traz
resultados positivos e duradouros, não só na balança, como na saúde
social e psíquica de quem a pratica. Só não é mais popular porque, como
falei lá no começo, o bom senso anda cada vez mais distante do senso
comum. E além disso, não ajuda a vender as tranqueiras inócuas e
insípidas que surgem no mercado a todo momento.
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