BAH, preciso compartilhar a experiência de quase morte que eu acabo de viver.
Agora sou do lar, né. Fico sozinha em casa o dia todo, estudo, lavo,
passo, cozinho e resolvo as treta tudo. Tipo hoje: veio o encanador aqui
consertar meu banheiro porque aparentemente, sempre que se toma banho
no meu lar, uma torrente desaba sobre o apartamento do meu vizinho de
baixo. Beleza, seu Milton arrumou e mandou
eu não tomar banho ali por algumas horas. Fui tomar banho no micro
banheiro da área de serviço, porque eu tinha acabado de correr às 10h da
manhã (coisa que nós, vidas mansas, fazemos amiúde). O banheirinho só
tem trinco do lado de fora. Entrei, comecei a pendurar minha toalha bem
tranquila - cantarolava, até - quando BUM!: um vendaval repentino bateu a
porta e fez cair o trinco. Fiquei ali, trancada numa peça de um metro
quadrado, sem ter ninguém pra quem eu pudesse gritar e pedir socorro.
Pânico, terror e desespero, dada minha claustrofobia e dado o skype que
eu tinha marcado pra dali a 20 minutos. Skype de trabalho, uma coisa que
agora aparece de forma esparsa e secundária nessa minha vida de
estudos.
Tentei enfiar o dedo no buraco do trinco, mas isso só
serviu pra me avacalhar o esmalte do minguinho. Olhei em volta, pros
lados, pra cima, pra baixo, à procura de um milagre ou de uma bazooka
pra arrombar a maldita porta.
Ali comigo havia uma toalha, um par
de havaianas, um xampu, um sabonete e uma vassoura. Pensei: o que
McGyver faria no meu lugar? Veio a luz: desatarrachei o cabo da
vassoura; usei a saia plástica das cerdas pra quebrar a vidraça que fica
na parte de cima da porta (uma pequena vidraça, pela qual eu não
passaria do quadril pra baixo nem se estivesse toda besuntada de
azeite); arranquei um fiapo da minha toalha, amarrei na ponta do cabo da
vassoura; subi na privada e, com a minha nova e improvisada vara de
pescar, pesquei o trinco lá de fora, o que exigiu equilíbrio e olho bom,
ou seja, precisei controlar a tremedeira do medo, como um karatê kid
resoluto.
Saí pra liberdade e pra uma nova vida fora do cativeiro!
Me abri pro meu engenhoso instinto de sobrevivência! Agora ninguém me
segura!
Pronto, era isso, agora vou tratar do almoço.
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