De segunda a sexta, no horário comercial, visto variações de short, camiseta, meias e havaianas. Não varia muito, na verdade.
Hoje, um domingo, de manhã cedo - chovia -, saí da cama para ir à
feira. Agora que tenho tempo, resolvi virar rata de feira orgânica e
cozinhar todos os dias pratos saudáveis, coloridos e perfumados. Virei
habitué do Parque da Água Branca e da feirinha do Ibira. Descobri o
significado das palavras catalônia e escarola. Sinto-me ótima.
Mas
voltando a hoje: vesti uma gabardine, tirei os copos de leite de dentro
das minhas belíssimas galochas, calcei-as e saí flanando pelas ruas
sobre a minha Berlinetta, imperturbável apesar dos pingos que insistiam
em atingir meus olhos e deixar meus cabelos iguais aos da Monica naquele
episódio de Barbados.
Na certa, todo motorista que passou por mim,
retornando da balada para um dia de dolorosa ressaca em casa, vendo
faustão, deve ter ficado admirado pela minha elegância sartorial
matutina.
Vi alguns corredores com números grudados nas camisetas
vindos da direção do parque. Supus que uma prova estivesse se encerrando
e fui em frente. Meu itinerário envolvia atravessar o Ibirapuera para
sair na rua da feira. Uma vez lá dentro, vi ainda mais competidores.
Muitos mesmo dessa vez. Evitei o portão onde a concentração parecia ser
maior, fiz um desvio para sair no seguinte. Desci da bici pra evitar um
atropelamento e segui. Logo constatei que TODAS AS PESSOAS que estavam
no parque naquele horário eram competidoras, e pareceram achar
estranhíssima aquela criatura de gabardine e bicicleta retrô zanzando
ali no meio com cara de parva. De natureba estilosa pra peixe fora
d'água em tempo recorde.
Logo percebi que meu desvio não fora boa
ideia. A multidão só aumentava, e na verdade eu estava andando
precisamente em direção à pista de corrida. Subestimei a competição,
acreditando que do portão para fora eu estaria livre e a salvo, mas o
locutor do evento logo fez o favor de informar que estávamos na MAIOR
MARATONA DE REVEZAMENTO DA AMÉRICA LATINA. A avenida estava toda
bloqueada para os atletas, com aquelas grades separadoras se estendendo
até onde meus olhos podiam enxergar. A única forma de atravessar seria
por uma passarela cujo acesso era uma longa escadaria, evidentemente
tomada por um povo colorido e numerado que exalava endorfina e
carboidrato em gel.
Que jeito? Botei a Berlinetta no ombro e subi,
arfando a partir do 5º degrau, sujando de lama minhas coxas e minha capa
de Inspetor Bugiganga, trombando nos transeuntes com meus pedais e
recusando educadamente toda a ajuda oferecida por gente solidária (ou só
mortificada com a minha inadequação e o meu sacrifício, mesmo).
Cheguei ao outro lado, no canteiro central da Pedro Álvares Cabral, e
DE-SES-PE-RO: as tais grades estavam literalmente por tudo, eu não via
saída. Estava, mais uma vez, ENCURRALADA. Pensei nos meus momentos de
angústia trancada no banheiro dias atrás e lá busquei forças pra me
desvencilhar de mais essa armadilha do destino. Hesitei, mas não teve
jeito: arredei uma grade e atravessei a pista principal, correndo e
empurrando a magrela, tomando todo o cuidado pra não atrapalhar os
corredores (a essas alturas, eu já devia ser a suspeita nº 1 pra suceder
aquele padre irlandês maluco que esmagou o sonho do Vanderlei Cordeiro
na Olimpíada de Atenas. Minha indumentária parecia no mínimo tão
ameaçadora quanto a dele).
Consegui, enfim. Liberdade, ainda que
tardia. Finalmente, eu faria minha feira. Pedalei tranquila enquanto
meus batimentos cardíacos voltavam ao ritmo normal, fiz uma lista mental
de beterraba, agrião, couve-flor, ovos felizes, tralalá, quase lá e... A
FEIRA - EXCEPCIONALMENTE - NÃO ESTARIA ACONTECENDO NO DIA DE HOJE. Quis
sentar no meio fio e chorar um pouco, sabe?
Mas engoli o choro e fui até a B.LEM comer um pastel de feijão.
Senti-me ótima, enfim.
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