domingo, 21 de setembro de 2014

A difícil arte de botar alimento dentro de casa (com estilo)

De segunda a sexta, no horário comercial, visto variações de short, camiseta, meias e havaianas. Não varia muito, na verdade.
Hoje, um domingo, de manhã cedo - chovia -, saí da cama para ir à feira. Agora que tenho tempo, resolvi virar rata de feira orgânica e cozinhar todos os dias pratos saudáveis, coloridos e perfumados. Virei habitué do Parque da Água Branca e da feirinha do Ibira. Descobri o significado das palavras catalônia e escarola. Sinto-me ótima.
Mas voltando a hoje: vesti uma gabardine, tirei os copos de leite de dentro das minhas belíssimas galochas, calcei-as e saí flanando pelas ruas sobre a minha Berlinetta, imperturbável apesar dos pingos que insistiam em atingir meus olhos e deixar meus cabelos iguais aos da Monica naquele episódio de Barbados.
Na certa, todo motorista que passou por mim, retornando da balada para um dia de dolorosa ressaca em casa, vendo faustão, deve ter ficado admirado pela minha elegância sartorial matutina.
Vi alguns corredores com números grudados nas camisetas vindos da direção do parque. Supus que uma prova estivesse se encerrando e fui em frente. Meu itinerário envolvia atravessar o Ibirapuera para sair na rua da feira. Uma vez lá dentro, vi ainda mais competidores. Muitos mesmo dessa vez. Evitei o portão onde a concentração parecia ser maior, fiz um desvio para sair no seguinte. Desci da bici pra evitar um atropelamento e segui. Logo constatei que TODAS AS PESSOAS que estavam no parque naquele horário eram competidoras, e pareceram achar estranhíssima aquela criatura de gabardine e bicicleta retrô zanzando ali no meio com cara de parva. De natureba estilosa pra peixe fora d'água em tempo recorde.
Logo percebi que meu desvio não fora boa ideia. A multidão só aumentava, e na verdade eu estava andando precisamente em direção à pista de corrida. Subestimei a competição, acreditando que do portão para fora eu estaria livre e a salvo, mas o locutor do evento logo fez o favor de informar que estávamos na MAIOR MARATONA DE REVEZAMENTO DA AMÉRICA LATINA. A avenida estava toda bloqueada para os atletas, com aquelas grades separadoras se estendendo até onde meus olhos podiam enxergar. A única forma de atravessar seria por uma passarela cujo acesso era uma longa escadaria, evidentemente tomada por um povo colorido e numerado que exalava endorfina e carboidrato em gel.
Que jeito? Botei a Berlinetta no ombro e subi, arfando a partir do 5º degrau, sujando de lama minhas coxas e minha capa de Inspetor Bugiganga, trombando nos transeuntes com meus pedais e recusando educadamente toda a ajuda oferecida por gente solidária (ou só mortificada com a minha inadequação e o meu sacrifício, mesmo).
Cheguei ao outro lado, no canteiro central da Pedro Álvares Cabral, e DE-SES-PE-RO: as tais grades estavam literalmente por tudo, eu não via saída. Estava, mais uma vez, ENCURRALADA. Pensei nos meus momentos de angústia trancada no banheiro dias atrás e lá busquei forças pra me desvencilhar de mais essa armadilha do destino. Hesitei, mas não teve jeito: arredei uma grade e atravessei a pista principal, correndo e empurrando a magrela, tomando todo o cuidado pra não atrapalhar os corredores (a essas alturas, eu já devia ser a suspeita nº 1 pra suceder aquele padre irlandês maluco que esmagou o sonho do Vanderlei Cordeiro na Olimpíada de Atenas. Minha indumentária parecia no mínimo tão ameaçadora quanto a dele).
Consegui, enfim. Liberdade, ainda que tardia. Finalmente, eu faria minha feira. Pedalei tranquila enquanto meus batimentos cardíacos voltavam ao ritmo normal, fiz uma lista mental de beterraba, agrião, couve-flor, ovos felizes, tralalá, quase lá e... A FEIRA - EXCEPCIONALMENTE - NÃO ESTARIA ACONTECENDO NO DIA DE HOJE. Quis sentar no meio fio e chorar um pouco, sabe?
Mas engoli o choro e fui até a B.LEM comer um pastel de feijão.
Senti-me ótima, enfim.

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