quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Aquele sobre raiva ser uma coisa boa

Anger management

Me digam se eu sou muito amarga por revirar os olhos (e o estômago) toda vez que alguém:
A) usa a expressão "muito amor" pra descrever qualquer coisa/situação/pessoa/comida;
B) comenta fotografias de mulheres, bebês e cachorros com "linda(o)" (ou "lindaaaaa(oooo)", ou "liiiinda(o)", ou "liiiiindaaaaa(oooo)!!!!!") depois de 7369 pessoas terem escrito exatamente a mesma coisa nos comentários anteriores;
C) se comunica com amigos usando exclusivamente palavras gentis, carinhosas e por vezes místicas, sem nenhuma sacanagenzinha no meio, mandando beijos de luz e fazendo coraçãozinho com a mão na despedida.
Sinto uma banalização de termos que me são caros, como amor e beleza (resultado da preguiça de se pensar em coisa mais interessante pra se dizer combinada à incapacidade absoluta de simplesmente não dizer nada), e como efeito colateral, uma aparente resolução coletiva de abafar o que há de não tão meigo, belo e cheio de frufrus dentro de nós mesmos.
Na condição de pavio historicamente curto, me sinto pessoalmente discriminada pela marginalização da raiva nesse contexto. Gente, raiva pode ser uma coisa boa, desde que compreendida e sabiamente empregada. É como o vento: uma ventorreia constante em dia de sol e praia torra a paciência de qualquer um, assim como um tufão violento gera caos e devastação que ninguém em sã consciência desejaria. Mas um pé de vento ocasional, que levante as folhas secas do chão, ou um minuano moderado que faça baterem as portas e janelas, isso só faz bem e é parte da natureza.
A raiva também é inerentemente humana, não deve ser ignorada, silenciada, e muito menos descartada como emoção de segunda classe. Claro que uma carranca constante é um pé no saco de qualquer um que conviva com o carrancudo em questão, mas não confunda raiva com mau humor. Uma criatura que ande com um taco de beisebol no carro e quebre os vidros de todo carro que lhe feche no trânsito tampouco é o tipo de amigo que todos queremos ter, mas hey, raiva e ataque histérico são coisas bem diferentes.
Falo da raiva que leva a cidadã de bem a mandar a puta que pariu o vizinho que ouve arrocha no último volume no sábado de manhã. Aquela raivinha que justifica um xingamento audível às pessoas que jogam lixo no chão e mijam nos muros das calçadas, infestando a cidade com fedor e imundície. A ira por trás de uma colocação direta e levemente agressiva no meio de uma conversa em que o interlocutor está claramente a fim de te enrolar. Esse tipo de coisa, sabe?
Só vejo vantagens. Falta clareza e honestidade nas comunicações. Todo mundo se esforça ao máximo pra ser fofo e querido sempre, e é impossível que todo mundo se sinta assim sempre. Além de não ser real e fazer todas as situações da vida parecerem o enredo de um episódio de ursinhos carinhosos, é chato pra caralho. Nesse mundo, sempre que eu falo um palavrão ou demonstro que não curti o que quer que seja, sou vista como uma leprosa, ou alguém que está a anos-luz de atingir a iluminação. Eu não quero atingir a porra da iluminação. Não foi isso que o Buda atingiu sentado debaixo da árvore e se alimentando de um grão de arroz por dia? Deus me livre! Eu amo a vida terrena, os prazeres mundanos, os vícios e virtudes da humanidade. Eu amo MUITO bacon (e cachaça), não peço desculpas por isso, e se não viro vegetariana/macrobiótica, não é por fraqueza, mas porque não vejo sentido algum em me privar do que me dá prazer. Pela mesma razão, me encanta tudo o que é humano, cru e verdadeiro, incluindo a raiva e seu poder de destruir para recriar, abalar o status quo, provocar mudança e rebuliço.
Sério mesmo, me digam se eu sou muito amarga por pensar assim. Não que isso vá fazer alguma diferença, claro.

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