Anger management
Me digam se eu sou muito amarga por revirar os olhos (e o estômago) toda vez que alguém:
A) usa a expressão "muito amor" pra descrever qualquer coisa/situação/pessoa/comida;
B) comenta fotografias de mulheres, bebês e cachorros com "linda(o)"
(ou "lindaaaaa(oooo)", ou "liiiinda(o)", ou "liiiiindaaaaa(oooo)!!!!!")
depois de 7369 pessoas terem escrito exatamente a mesma coisa nos comentários anteriores;
C) se comunica com amigos usando exclusivamente palavras gentis,
carinhosas e por vezes místicas, sem nenhuma sacanagenzinha no meio,
mandando beijos de luz e fazendo coraçãozinho com a mão na despedida.
Sinto uma banalização de termos que me são caros, como amor e beleza
(resultado da preguiça de se pensar em coisa mais interessante pra se
dizer combinada à incapacidade absoluta de simplesmente não dizer nada),
e como efeito colateral, uma aparente resolução coletiva de abafar o
que há de não tão meigo, belo e cheio de frufrus dentro de nós mesmos.
Na condição de pavio historicamente curto, me sinto pessoalmente
discriminada pela marginalização da raiva nesse contexto. Gente, raiva
pode ser uma coisa boa, desde que compreendida e sabiamente empregada. É
como o vento: uma ventorreia constante em dia de sol e praia torra a
paciência de qualquer um, assim como um tufão violento gera caos e
devastação que ninguém em sã consciência desejaria. Mas um pé de vento
ocasional, que levante as folhas secas do chão, ou um minuano moderado
que faça baterem as portas e janelas, isso só faz bem e é parte da
natureza.
A raiva também é inerentemente humana, não deve ser
ignorada, silenciada, e muito menos descartada como emoção de segunda
classe. Claro que uma carranca constante é um pé no saco de qualquer um
que conviva com o carrancudo em questão, mas não confunda raiva com mau
humor. Uma criatura que ande com um taco de beisebol no carro e quebre
os vidros de todo carro que lhe feche no trânsito tampouco é o tipo de
amigo que todos queremos ter, mas hey, raiva e ataque histérico são
coisas bem diferentes.
Falo da raiva que leva a cidadã de bem a
mandar a puta que pariu o vizinho que ouve arrocha no último volume no
sábado de manhã. Aquela raivinha que justifica um xingamento audível às
pessoas que jogam lixo no chão e mijam nos muros das calçadas,
infestando a cidade com fedor e imundície. A ira por trás de uma
colocação direta e levemente agressiva no meio de uma conversa em que o
interlocutor está claramente a fim de te enrolar. Esse tipo de coisa,
sabe?
Só vejo vantagens. Falta clareza e honestidade nas
comunicações. Todo mundo se esforça ao máximo pra ser fofo e querido
sempre, e é impossível que todo mundo se sinta assim sempre. Além de não
ser real e fazer todas as situações da vida parecerem o enredo de um
episódio de ursinhos carinhosos, é chato pra caralho. Nesse mundo,
sempre que eu falo um palavrão ou demonstro que não curti o que quer que
seja, sou vista como uma leprosa, ou alguém que está a anos-luz de
atingir a iluminação. Eu não quero atingir a porra da iluminação. Não
foi isso que o Buda atingiu sentado debaixo da árvore e se alimentando
de um grão de arroz por dia? Deus me livre! Eu amo a vida terrena, os
prazeres mundanos, os vícios e virtudes da humanidade. Eu amo MUITO
bacon (e cachaça), não peço desculpas por isso, e se não viro
vegetariana/macrobiótica, não é por fraqueza, mas porque não vejo
sentido algum em me privar do que me dá prazer. Pela mesma razão, me
encanta tudo o que é humano, cru e verdadeiro, incluindo a raiva e seu
poder de destruir para recriar, abalar o status quo, provocar mudança e
rebuliço.
Sério mesmo, me digam se eu sou muito amarga por pensar assim. Não que isso vá fazer alguma diferença, claro.
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