quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Aquele sobre o coxinha new age

Fala-se muito na crise do macho. Com as mulheres galgando posições (profissionais, intelectuais, sociais, sexuais) em ritmo cada vez mais veloz, os homens estariam em conflito, sem saber direito como se conduzir neste mundo em mutação.
Um produto dessa crise é o coxinha new age, espécie que se multiplica nas grandes cidades. O coxinha new age, à primeira vista, parece um coxinha convencional, desses que abundam desde sempre em cidades como Nova York, São Paulo e Porto Alegre (pra citar só algumas): veste-se com as melhores labels (o que não implica dizer que se vista bem, atenção!); só escolhe lugares badalados (e faz a mais absoluta questão de pagar a conta); no mais das vezes é empreendedor e dono do próprio negócio (já leu tudo o que foi publicado sobre a família Rockfeller e declama trechos de "Sonho Grande") e tem uma necessaire maior do que a de muita miss.
Intimamente, porém, o coxinha new age sabe que se destaca de seu grupo de amigos, já que atingiu a iluminação, aprendendo que é possível ser coxinha e buscar o nirvana concomitantemente, sem que uma coisa exclua a outra. Ele encontrou a chave que dá acesso ao melhor dos dois mundos: ter todas as roupas e gadgets da última edição da GQ sem ser um boçal completo, e meditar por três meses em um ashram na Índia sem precisar andar de sandálias de couro, ecobag e barba de 3 semanas. Ele ouviu a voz que dizia: "Você pode ser o monge E o executivo!" E respondeu: "Yes, I can!"
Com toda essa bagagem, o coxinha sabe-se um partido ainda melhor do que ele já era nos tempos de just-coxinha. Tem a certeza de que qualquer mulher que cruze seu caminho será uma mulher de sorte, mesmo que passe com ele apenas uns breves instantes. Acredita que as it girls dos Jardins (ou do Moinhos de Vento, tanto faz) não perdem por esperar para conhecer esse combo em forma de golden boy espiritualizado.
Acontece que nem todas as mulheres estão preparadas para tamanha revolução. Tomemos como exemplo esta que vos escreve: sou uma mulher muito estranha ao universo do coxinha new age, faço esse mea culpa. Não vou à manicure há nem sei quanto tempo, nunca adquiri um secador de cabelo, tô pouco ligando pra grifes, como gordura animal sem parcimônia e detesto bebida doce. Por outro lado, não disponho de muito conteúdo metafísico, e tendo a embasar meus valores (e vícios) no fato de ser humana mesmo, sem muito mistério.
Agora o desajuste realmente perturbador: sou casada e assim pretendo continuar, mas saio com caras que não sejam o meu marido por acreditar, de verdade, que homens e mulheres podem ser amigos e se divertir juntos, sem que isso leve a sexo. Muito louco, né? Eu sei, mas sou assim e tenho bons amigos que insistem em me provar que eu devo sustentar esse delírio, além de um marido zero machista que não me enche o saco com ciúme besta.
Quando saio com meus amigos, rio, falo besteira, como, bebo, como gente normal. Como eles fazem com os outros amigos deles, e eu faço com minhas outras amigas. Mas devo confessar que entre as minhas amizades, o coxinha new age é um tipo exótico (como um pavão, só pra dar um exemplo), que merece cuidados especiais e toda uma cerimônia diferente.
Aprendi isso esses dias. Convidei um conhecido que se encaixa em toda a ficha técnica descrita acima pra gente se ver. Estou em São Paulo a trabalho, como estava quando conheci este senhor em NY. Soube pelo instagram que ele estava na cidade, e quis a companhia dele pra sair, rir, comer, beber e falar besteira. Co-mo gen-te nor-mal.
Ele sugeriu um restaurante desses que alguns paulistanos adoram pelo simples fato de ser franquia de uma casa nova-iorquina. Eu quis um lugar que tivesse porco no cardápio. Minha escolha venceu, yay.
Ele pediu um prato minimalista com agriões e mandioquinha. Eu pedi pé de... bem, porco. Eu ri um pouquinho dessa disparidade, me processem. Ele ficou puto com o garçom mal humorado que nos atendeu, mas em retrospecto, acho que não gostou foi da minha brincadeira. Ele pagou a conta toda quando eu fui ao banheiro. Eu fiquei constrangida com isso, porque sempre me vem à mente nessas horas o ditado ancestral que diz: Não existe almoço grátis. Jantar, muito menos.
Ele quis ir a um bar depois. Um daqueles lugares onde a hostess scaneia as pessoas na fila com o olhar, onde a carta de bebidas começa em R$30 e onde o Kanye West toparia gravar um clipe misógino e ostentador. (Pausa: gostei do bar. Lugar bonito, música boa, coquetelaria decente. Apenas digo que era um lugar posh-coxinha, nada de errado nisso. Pronto, podemos retomar.) Pedi um negroni, ele pediu green elyx, uma bebida com gosto de xampu infantil de maçã verde. Ri mais um pouquinho do paladar do cavalheiro.
É, talvez ele realmente não tenha gostado do meu senso de humor nessa noite. Foi ficando esquisito, um pouco agressivo nas palavras, o clima pesou. Falei que não estava gostando do rumo da prosa e que achava melhor a gente ir embora. Peguei os cartões de consumação para dessa vez, eu pagar a conta, mas ele arrancou os dois da minha mão e saiu enfurecido. Olhei em volta, só vi garçons e barmen, nenhum cliente restava. Esperei um pouquinho, mas o moço não voltava. Comecei a acreditar que ele pudesse ter ido embora e me deixado ali. De brabo, de bebum, de sei lá o quê. Nem me importei muito, pensei: amanhã ele liga sem lembrar direito o que se passou, a gente ri e fica tudo certo, sem stress, melhor assim, vou andando. E saí a pé pela rua escura, sozinha. Era perto de onde eu estou hospedada.
Chegando na porta, recebo uma ligação raivosa, de um homem com seu orgulho ferido por ter sido deixado pra trás diante de vários garçons e seguranças, que riram da cara dele, judiação! Me xingou das maiores baixarias que eu já ouvi nessa vida. Espumando de ira. E cobrando a $ que gastou pagando as duas contas, claro, porque eu mostrei ser um péssimo investimento. Pergunta se levou em consideração minha explicação (sim, me prestei a explicar pra esse ogro disfarçado!) de que eu julguei ter sido deixada sozinha naquele bar cheio de homens, e que por conta disso tinha caminhado - sozinha! - por uma rua deserta, e que nem por isso estava dando faniquito histérico. O chiliquento não quis saber, a honra dele fora abalada e "eu não merecia mais o respeito" que ele nutria por mim. Poxa, que grande perda, eu tinha conquistado o respeito dessa alma superior, e agora perdia, jogava no lixo essa alta honraria merecida por tão poucos.
Fiquei entre pasma, magoada e compadecida. Apesar do meu notório pavio curto, tentei apaziguar de todas as formas, e não revidei nenhuma ofensa. Já tive brigas homéricas nessa vida, mas sempre com gente que eu conhecia bem. Ou no trânsito. Nunca uma pessoa com quem eu havia estado duas vezes apenas. Nesses casos, sentindo qualquer dissonância, sempre achei que o justo era cada um tomar seu rumo e romper-se o contato. Me assustei quado o discípulo de Richard Branson/Gandhi se comportou como um homem das cavernas tomado pelo ódio.
Logo senti pena, no minuto em que entendi a crise do macho tão devastadora e tristemente corriqueira em nossos dias: eu escolhi o restaurante. Eu pedi o prato e a bebida de adulto. Eu não dou a mínima pro fato de ele ter grana. Eu não criei caso por conta do desentendimento no bar. Eu saí de cena discretamente. Eu não estava atrás de romance, nem de alguém que pagasse minha conta, só queria me divertir. Que tipo de protagonismo restou pra ele? Só passar o cartão. Se eu tivesse percebido antes que era tudo um jogo de poder, teria ficado em casa vendo Amor à Vida e comendo um sanduba.
No dia seguinte, apaguei as mensagens grotescas, e com isso apaguei também os dados bancários do rapaz. Coxinha new age, se você estiver lendo, mande de novo o número da conta, por favor. Faço questão de lhe ressarcir. Isso se minha fama de sirigaita caloteira já não estiver na boca do povo, claro, porque se for esse o caso, não pagarei nem um centavo.

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