Fala-se
muito na crise do macho. Com as mulheres galgando posições
(profissionais, intelectuais, sociais, sexuais) em ritmo cada vez mais
veloz, os homens estariam em conflito, sem saber direito como se
conduzir neste mundo em mutação.
Um produto dessa crise é o coxinha
new age, espécie que se multiplica nas grandes cidades. O coxinha new
age, à primeira vista, parece um coxinha
convencional, desses que abundam desde sempre em cidades como Nova
York, São Paulo e Porto Alegre (pra citar só algumas): veste-se com as
melhores labels (o que não implica dizer que se vista bem, atenção!); só
escolhe lugares badalados (e faz a mais absoluta questão de pagar a
conta); no mais das vezes é empreendedor e dono do próprio negócio (já
leu tudo o que foi publicado sobre a família Rockfeller e declama
trechos de "Sonho Grande") e tem uma necessaire maior do que a de muita
miss.
Intimamente, porém, o coxinha new age sabe que se destaca de
seu grupo de amigos, já que atingiu a iluminação, aprendendo que é
possível ser coxinha e buscar o nirvana concomitantemente, sem que uma
coisa exclua a outra. Ele encontrou a chave que dá acesso ao melhor dos
dois mundos: ter todas as roupas e gadgets da última edição da GQ sem
ser um boçal completo, e meditar por três meses em um ashram na Índia
sem precisar andar de sandálias de couro, ecobag e barba de 3 semanas.
Ele ouviu a voz que dizia: "Você pode ser o monge E o executivo!" E
respondeu: "Yes, I can!"
Com toda essa bagagem, o coxinha sabe-se um
partido ainda melhor do que ele já era nos tempos de just-coxinha. Tem a
certeza de que qualquer mulher que cruze seu caminho será uma mulher de
sorte, mesmo que passe com ele apenas uns breves instantes. Acredita
que as it girls dos Jardins (ou do Moinhos de Vento, tanto faz) não
perdem por esperar para conhecer esse combo em forma de golden boy
espiritualizado.
Acontece que nem todas as mulheres estão
preparadas para tamanha revolução. Tomemos como exemplo esta que vos
escreve: sou uma mulher muito estranha ao universo do coxinha new age,
faço esse mea culpa. Não vou à manicure há nem sei quanto tempo, nunca
adquiri um secador de cabelo, tô pouco ligando pra grifes, como gordura
animal sem parcimônia e detesto bebida doce. Por outro lado, não
disponho de muito conteúdo metafísico, e tendo a embasar meus valores (e
vícios) no fato de ser humana mesmo, sem muito mistério.
Agora o
desajuste realmente perturbador: sou casada e assim pretendo continuar,
mas saio com caras que não sejam o meu marido por acreditar, de verdade,
que homens e mulheres podem ser amigos e se divertir juntos, sem que
isso leve a sexo. Muito louco, né? Eu sei, mas sou assim e tenho bons
amigos que insistem em me provar que eu devo sustentar esse delírio,
além de um marido zero machista que não me enche o saco com ciúme besta.
Quando saio com meus amigos, rio, falo besteira, como, bebo, como
gente normal. Como eles fazem com os outros amigos deles, e eu faço com
minhas outras amigas. Mas devo confessar que entre as minhas amizades, o
coxinha new age é um tipo exótico (como um pavão, só pra dar um
exemplo), que merece cuidados especiais e toda uma cerimônia diferente.
Aprendi isso esses dias. Convidei um conhecido que se encaixa em toda a
ficha técnica descrita acima pra gente se ver. Estou em São Paulo a
trabalho, como estava quando conheci este senhor em NY. Soube pelo
instagram que ele estava na cidade, e quis a companhia dele pra sair,
rir, comer, beber e falar besteira. Co-mo gen-te nor-mal.
Ele
sugeriu um restaurante desses que alguns paulistanos adoram pelo simples
fato de ser franquia de uma casa nova-iorquina. Eu quis um lugar que
tivesse porco no cardápio. Minha escolha venceu, yay.
Ele pediu um
prato minimalista com agriões e mandioquinha. Eu pedi pé de... bem,
porco. Eu ri um pouquinho dessa disparidade, me processem. Ele ficou
puto com o garçom mal humorado que nos atendeu, mas em retrospecto, acho
que não gostou foi da minha brincadeira. Ele pagou a conta toda quando
eu fui ao banheiro. Eu fiquei constrangida com isso, porque sempre me
vem à mente nessas horas o ditado ancestral que diz: Não existe almoço
grátis. Jantar, muito menos.
Ele quis ir a um bar depois. Um
daqueles lugares onde a hostess scaneia as pessoas na fila com o olhar,
onde a carta de bebidas começa em R$30 e onde o Kanye West toparia
gravar um clipe misógino e ostentador. (Pausa: gostei do bar. Lugar
bonito, música boa, coquetelaria decente. Apenas digo que era um lugar
posh-coxinha, nada de errado nisso. Pronto, podemos retomar.) Pedi um
negroni, ele pediu green elyx, uma bebida com gosto de xampu infantil de
maçã verde. Ri mais um pouquinho do paladar do cavalheiro.
É,
talvez ele realmente não tenha gostado do meu senso de humor nessa
noite. Foi ficando esquisito, um pouco agressivo nas palavras, o clima
pesou. Falei que não estava gostando do rumo da prosa e que achava
melhor a gente ir embora. Peguei os cartões de consumação para dessa
vez, eu pagar a conta, mas ele arrancou os dois da minha mão e saiu
enfurecido. Olhei em volta, só vi garçons e barmen, nenhum cliente
restava. Esperei um pouquinho, mas o moço não voltava. Comecei a
acreditar que ele pudesse ter ido embora e me deixado ali. De brabo, de
bebum, de sei lá o quê. Nem me importei muito, pensei: amanhã ele liga
sem lembrar direito o que se passou, a gente ri e fica tudo certo, sem
stress, melhor assim, vou andando. E saí a pé pela rua escura, sozinha.
Era perto de onde eu estou hospedada.
Chegando na porta, recebo uma
ligação raivosa, de um homem com seu orgulho ferido por ter sido deixado
pra trás diante de vários garçons e seguranças, que riram da cara dele,
judiação! Me xingou das maiores baixarias que eu já ouvi nessa vida.
Espumando de ira. E cobrando a $ que gastou pagando as duas contas,
claro, porque eu mostrei ser um péssimo investimento. Pergunta se levou
em consideração minha explicação (sim, me prestei a explicar pra esse
ogro disfarçado!) de que eu julguei ter sido deixada sozinha naquele bar
cheio de homens, e que por conta disso tinha caminhado - sozinha! - por
uma rua deserta, e que nem por isso estava dando faniquito histérico. O
chiliquento não quis saber, a honra dele fora abalada e "eu não merecia
mais o respeito" que ele nutria por mim. Poxa, que grande perda, eu
tinha conquistado o respeito dessa alma superior, e agora perdia, jogava
no lixo essa alta honraria merecida por tão poucos.
Fiquei entre
pasma, magoada e compadecida. Apesar do meu notório pavio curto, tentei
apaziguar de todas as formas, e não revidei nenhuma ofensa. Já tive
brigas homéricas nessa vida, mas sempre com gente que eu conhecia bem.
Ou no trânsito. Nunca uma pessoa com quem eu havia estado duas vezes
apenas. Nesses casos, sentindo qualquer dissonância, sempre achei que o
justo era cada um tomar seu rumo e romper-se o contato. Me assustei
quado o discípulo de Richard Branson/Gandhi se comportou como um homem
das cavernas tomado pelo ódio.
Logo senti pena, no minuto em que
entendi a crise do macho tão devastadora e tristemente corriqueira em
nossos dias: eu escolhi o restaurante. Eu pedi o prato e a bebida de
adulto. Eu não dou a mínima pro fato de ele ter grana. Eu não criei caso
por conta do desentendimento no bar. Eu saí de cena discretamente. Eu
não estava atrás de romance, nem de alguém que pagasse minha conta, só
queria me divertir. Que tipo de protagonismo restou pra ele? Só passar o
cartão. Se eu tivesse percebido antes que era tudo um jogo de poder,
teria ficado em casa vendo Amor à Vida e comendo um sanduba.
No dia
seguinte, apaguei as mensagens grotescas, e com isso apaguei também os
dados bancários do rapaz. Coxinha new age, se você estiver lendo, mande
de novo o número da conta, por favor. Faço questão de lhe ressarcir.
Isso se minha fama de sirigaita caloteira já não estiver na boca do
povo, claro, porque se for esse o caso, não pagarei nem um centavo.
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