quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Aquele sobre quando eu comecei a decidir - ainda inconscientemente - ligar o foda-se

Escapismo

Faça o que ama (X) Ame o que faz. - O importante é ter estabilidade. - Trabalhe com o que lhe dá prazer e você nunca ansiará pelo fim de semana. - Das 9h às 18h, a gente ganha dinheiro. Depois, a gente se diverte. - Sucesso é ser feliz. - Transforme seu hobby em atividade lucrativa.

Fiz de mim um hamster de laboratório e apliquei à minha vida boa parte dos conselhos que hoje abundam nos livros de auto ajuda. Não por ler livros de auto ajuda, e sim por ter vivido coisas que me fizeram ávida por ter o máximo possível de experiências.

Com 17 anos tive pânico. Síndrome, crises, faniquitos, o nome que quiser dar. Me apavorava, ficava sem ar, jurava que ia morrer, por medo do futuro. Medo de não passar no vestibular. Medo de passar e ficar presa para o resto da minha vida à carreira do curso em que eu fosse aprovada. Direito, no caso. Com 18, na faculdade, tive colegas de menos de 22 que sabiam claramente o que queriam da vida: um cargo público estável e bem remunerado. Com 19, tive um namorado advogado que tinha a convicção de que casaríamos e seríamos felizes para sempre. Com 20 fugi correndo pra Australia e tive uma trombose cerebral que por pouco não me mata de verdade.

O mais legal de quase morrer com 20 anos (escapando com saúde e nada além de uma leve assimetria física e psicológica como seqüela) é que a gente percebe muitas daquelas coisas que pessoas mais velhas percebem quando têm um enfarto lá pelos 50, depois de já terem a vida toda feita, com filhos, responsabilidades, casa própria. No mais das vezes, também com conseqüências para a saúde que tornam a vida um tédio dali pra frente (aka sem álcool ou gordura saturada). Eu não: saí zerada, nova em folha, os médicos só me mandaram não lutar boxe (pra evitar pancadas na cabeça) e jamais virar fumante (cigarro de nicotina nunca foi a minha praia mesmo). Eu tive a chance de aprender, ainda muito novinha, e sem sombra de dúvida, que se morre num piscar de olhos, então o melhor que se pode fazer é viver bem. Mas não é da minha saúde neurológica que este texto quer falar. Ainda bem. Quero dizer dos caminhos que eu decidi trilhar desde aquele momento.

Primeiro: de posse de meu diploma em direito, concedido por uma das melhores faculdades do Brasil, fui a Londres estudar na Le Cordon Bleu. Até hoje, escrevo isso e me lembro do professor de filosofia do direito Claudio Michelon, que em aula se referiu com desdém e certa indignação a uma antiga aluna, que havia engavetado seu diploma conquistado pela nossa mesma universidade federal, em curso pago com dinheiro público, para ser, vejam só: chef. Lembro também como eu partilhei do sentimento expressado por ele nessa aula, para pouco depois agir exatamente como a tal aluna.
Eu queria ser cozinheira, ué. Entrei numas de acreditar que de nada adiantaria fazer o que a sociedade (ou o professor Michelon, equivalem-se) esperava de mim. Se eu não estivesse feliz, jamais faria um bom trabalho. E lá me fui, viver na cidade mais extraordinária do mundo, queimar todos os meus dedos e antebraços, pedalar na chuva de madrugada e tomar esporro de chef sádico. Sim, pessoal, porque quem decide "seguir o seu coração e viver da gastronomia" não é automaticamente transportado para um charmoso bistrô francês, cercado por pessoas sorridentes e remexendo panelas perfumadas, ao som de Charles Aznavour. Ou se é, esteja certo de que a comida vai ser uma merda. Os anos de sacrifício e abnegação são indispensáveis a um bom profissional de cozinha. E os bons de verdade são loucos o suficiente pra jamais quererem largar esse universo frenético, hostil e superaquecido que é a cozinha profissional. Eu vi logo que não era pra mim.


Tive sorte em cavar, cavar, e encontrar um caminho alternativo, um trabalho que envolvesse alimentação e outras potencialidades minhas que corriam o risco de se perder entre facas e panelas. Muita sorte. O que não me impediu de achar que às vezes não valia tanto a pena assim morar longe de todo mundo que eu amava, mesmo se fosse pra trabalhar com uma coisa que me fascinava.
Ao longo de toda a vida, escrevi muito e li mais ainda. Quando entrei no curso de direito, todo mundo falava que era perfeito pra mim justamente por isso. Mas como, se com as leituras e trabalhos que a faculdade impunha, não sobrava tempo pra ler e escrever o que eu tivesse vontade?


Quando comecei a postar textos aqui e ali, algumas pessoas falaram em transformar isso em ofício. Olhando pra trás e constatando que eu sempre gostei de escrever, que fui alfabetizada precocemente, que escrevia acrósticos pra me divertir aos 8 anos de idade, que foi essa a única atividade que eu exerci com constância e entusiasmo ao longo de toda a minha existência, e considerando que no início da vida adulta eu fiz esse movimento de mudança, de ligar o foda-se e apostar no desconhecido, até eu me pergunto: por que não fui ser escritora? Por que nunca cogitei fazer o curso de letras, manter um blog, lançar um romance? Eu mesma me respondo, no ato: não fiz por proteção e cuidado. Pra não transformar um hábito que me serve como escape e exercício de liberdade em uma fonte de renda, com todas as pressões e inconveniências que vez por outra cercam a palavra trabalho, inevitavelmente. Nunca quis impor método e disciplina a essa área da minha vida. Quis poder ler Balzac e Kerouac ao mesmo tempo, e escrever qualquer besteira no facebook mesmo, sem requisitos formais e estilísticos.


Trabalho é trabalho. Por mais que se faça o que se gosta, haverá sempre chatices, stress, angústias. Hobby e prazer são sagrados, e transformá-los em labuta é tão perigoso quanto atraente. Felicidade é estado de espírito sem garantia, porque a vida muda o tempo todo e a gente também

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