Escapismo
Faça o que ama (X) Ame o que faz. - O importante é ter estabilidade. -
Trabalhe com o que lhe dá prazer e você nunca ansiará pelo fim de
semana. - Das 9h às 18h, a gente ganha dinheiro. Depois, a gente se
diverte. - Sucesso é ser feliz. - Transforme seu hobby em atividade
lucrativa.
Fiz de mim um hamster de laboratório e apliquei à minha vida boa parte dos conselhos que hoje abundam nos
livros de auto ajuda. Não por ler livros de auto ajuda, e sim por ter
vivido coisas que me fizeram ávida por ter o máximo possível de
experiências.
Com 17 anos tive pânico. Síndrome, crises,
faniquitos, o nome que quiser dar. Me apavorava, ficava sem ar, jurava
que ia morrer, por medo do futuro. Medo de não passar no vestibular.
Medo de passar e ficar presa para o resto da minha vida à carreira do
curso em que eu fosse aprovada. Direito, no caso. Com 18, na faculdade,
tive colegas de menos de 22 que sabiam claramente o que queriam da vida:
um cargo público estável e bem remunerado. Com 19, tive um namorado
advogado que tinha a convicção de que casaríamos e seríamos felizes para
sempre. Com 20 fugi correndo pra Australia e tive uma trombose cerebral
que por pouco não me mata de verdade.
O mais legal de quase
morrer com 20 anos (escapando com saúde e nada além de uma leve
assimetria física e psicológica como seqüela) é que a gente percebe
muitas daquelas coisas que pessoas mais velhas percebem quando têm um
enfarto lá pelos 50, depois de já terem a vida toda feita, com filhos,
responsabilidades, casa própria. No mais das vezes, também com
conseqüências para a saúde que tornam a vida um tédio dali pra frente
(aka sem álcool ou gordura saturada). Eu não: saí zerada, nova em folha,
os médicos só me mandaram não lutar boxe (pra evitar pancadas na
cabeça) e jamais virar fumante (cigarro de nicotina nunca foi a minha
praia mesmo). Eu tive a chance de aprender, ainda muito novinha, e sem
sombra de dúvida, que se morre num piscar de olhos, então o melhor que
se pode fazer é viver bem. Mas não é da minha saúde neurológica que este
texto quer falar. Ainda bem. Quero dizer dos caminhos que eu decidi
trilhar desde aquele momento.
Primeiro: de posse de meu diploma
em direito, concedido por uma das melhores faculdades do Brasil, fui a
Londres estudar na Le Cordon Bleu. Até hoje, escrevo isso e me lembro do
professor de filosofia do direito Claudio Michelon, que em aula se
referiu com desdém e certa indignação a uma antiga aluna, que havia
engavetado seu diploma conquistado pela nossa mesma universidade
federal, em curso pago com dinheiro público, para ser, vejam só: chef.
Lembro também como eu partilhei do sentimento expressado por ele nessa
aula, para pouco depois agir exatamente como a tal aluna.
Eu queria
ser cozinheira, ué. Entrei numas de acreditar que de nada adiantaria
fazer o que a sociedade (ou o professor Michelon, equivalem-se) esperava
de mim. Se eu não estivesse feliz, jamais faria um bom trabalho. E lá
me fui, viver na cidade mais extraordinária do mundo, queimar todos os
meus dedos e antebraços, pedalar na chuva de madrugada e tomar esporro
de chef sádico. Sim, pessoal, porque quem decide "seguir o seu coração e
viver da gastronomia" não é automaticamente transportado para um
charmoso bistrô francês, cercado por pessoas sorridentes e remexendo
panelas perfumadas, ao som de Charles Aznavour. Ou se é, esteja certo de
que a comida vai ser uma merda. Os anos de sacrifício e abnegação são
indispensáveis a um bom profissional de cozinha. E os bons de verdade
são loucos o suficiente pra jamais quererem largar esse universo
frenético, hostil e superaquecido que é a cozinha profissional. Eu vi
logo que não era pra mim.
Tive sorte em cavar, cavar, e encontrar um
caminho alternativo, um trabalho que envolvesse alimentação e outras
potencialidades minhas que corriam o risco de se perder entre facas e
panelas. Muita sorte. O que não me impediu de achar que às vezes não
valia tanto a pena assim morar longe de todo mundo que eu amava, mesmo
se fosse pra trabalhar com uma coisa que me fascinava.
Ao longo de
toda a vida, escrevi muito e li mais ainda. Quando entrei no curso de
direito, todo mundo falava que era perfeito pra mim justamente por isso.
Mas como, se com as leituras e trabalhos que a faculdade impunha, não
sobrava tempo pra ler e escrever o que eu tivesse vontade?
Quando
comecei a postar textos aqui e ali, algumas pessoas falaram em
transformar isso em ofício. Olhando pra trás e constatando que eu sempre
gostei de escrever, que fui alfabetizada precocemente, que escrevia
acrósticos pra me divertir aos 8 anos de idade, que foi essa a única
atividade que eu exerci com constância e entusiasmo ao longo de toda a
minha existência, e considerando que no início da vida adulta eu fiz
esse movimento de mudança, de ligar o foda-se e apostar no desconhecido,
até eu me pergunto: por que não fui ser escritora? Por que nunca
cogitei fazer o curso de letras, manter um blog, lançar um romance? Eu
mesma me respondo, no ato: não fiz por proteção e cuidado. Pra não
transformar um hábito que me serve como escape e exercício de liberdade
em uma fonte de renda, com todas as pressões e inconveniências que vez
por outra cercam a palavra trabalho, inevitavelmente. Nunca quis impor
método e disciplina a essa área da minha vida. Quis poder ler Balzac e
Kerouac ao mesmo tempo, e escrever qualquer besteira no facebook mesmo,
sem requisitos formais e estilísticos.
Trabalho é trabalho. Por mais
que se faça o que se gosta, haverá sempre chatices, stress, angústias.
Hobby e prazer são sagrados, e transformá-los em labuta é tão perigoso
quanto atraente. Felicidade é estado de espírito sem garantia, porque a
vida muda o tempo todo e a gente também
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