Anteontem
nós estávamos em um bar, mesa na calçada, bebendo vinho e falando sobre
tudo. Ele foi ao banheiro e eu prestei atenção nas mesas vizinhas por
alguns momentos, porque é isso o que eu faço quando fico sozinha. Escuto
a conversa alheia. Na minha frente, um talvez-quase-casal - digo pela
falta de papo e fartura de saliva trocada. Ela totalmente entregue:
olhinhos semi-cerrados, jogando a cabeça
pra trás, rindo de tudo e de nada. Ele buscando o justo equilíbrio
entre o nível ideal de caipiroska de frutas vermelhas no sangue dela e o
momento certo de pedir a conta e bater em retirada pr'alcova.
Ao
lado, dois caras barbudos e de óculos, pinta de intelectuais
atormentados, cerveja 600 e maços de cigarro sobre a mesa. Um fazia uma
crítica ao livro do outro, medindo cada palavra, entre sádico e
didático, ainda que pisando em ovos. Editor e autor, essa foi fácil.
Ambos visivelmente desconfortáveis naquela situação.
Ele voltou pra
nossa mesa. Comentei sobre a dupla literária, e a resposta foi: those
who cannot do, teach. Seguiu-se uma discussão ferrenha sobre papéis de
professores, editores, críticos e teóricos X empreendedores, artistas,
cozinheiros, práticos. Não chegamos a nos divorciar, mas foi uma peleia
braba. Ficou tudo bem no final, mas receio que tenhamos
involuntariamente expulsado os dois das letras do local.
Ontem fui
jantar só. Um restaurante charmoso, rústico, agradável. Só casais à
minha volta. Casais em férias, bronzeados, vestidos com elegância
despojada, aparentemente juntos há tempos. Pensei estar com sorte:
pescaria conversas interessantes, engraçadas, ou não entenderia lhufas
ditas na linguagem cifrada dos amantes constantes, o que também é lindo.
Errei feio. Dois casais que jantavam juntos e falavam alto teceram as
seguintes opiniões enfáticas: 1. Europeu não sabe fazer filme bom
(exceto A Vida é Bela!); 2. Algumas pessoas não gostam de cachorros,
como é possível, de que forma vivem e do que se alimentam?; 3. Um homem
que fez filho em seis mulheres diferentes é um macho de respeito.
Em outra mesa, depois de lerem o cardápio inteiro de trás pra frente,
ele perguntou se tinha bruschetta e ela pediu uma coca zero. Seguiu-se o
papo mais enfadonho que se possa imaginar sobre gestão, planilhas e
auditorias, como se o cenário fosse um almoço de negócios na Av.
Paulista, e não um jantar a dois no vilarejo mais charmoso da costa
brasileira.
Silêncios, amenidades, diálogos monossilábicos. Desilusão.
Por mais reais comédias (e dramas) da vida privada que se desenrolem nas mesas vizinhas a mim.
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