quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Aquele sobre racismo e dia da consciência negra

20 de novembro, dia da consciência negra, e minha quarta-feira foi uma parábola da ironia brasileira.

Fui de Salvador a São Paulo em um bate-e-volta. O motivo: um evento agitado por uma marca baiana de moda, onde a marca – também baiana – de chocolates com a qual eu trabalho fez uma participação. A função rolou na Oscar Freire, começando à tardinha e se esticando noite adentro.

Quando atinei que o feriado em São Paulo era devido a essa data específica, fiquei contrariada, com um misto de desconforto e culpa que me é familiar desde que a Bahia passou a ser minha casa. Em Salvador, uma das cidades mais negras do Brasil (se não a mais, não tenho esse dado), não foi feriado, enquanto que boa parte do sudeste parou por conta da memória de Zumbi dos Palmares.

Queria poder dizer que isso se deve ao fato de na minha atual cidade, a consciência negra ser tão desenvolvida e atuante, que a existência de uma data específica para celebrá-la seja uma redundância desnecessária, mas não posso forçar essa barra.

Logo que vim morar aqui, fui à Lavagem do Bonfim e me emocionei com o sincretismo entre os ritos católicos e africanos. Vi gente de todas as cores e classes caminhando lado a lado, dando as mãos, vestindo branco. Conheci brancos adeptos fervorosos do Candomblé, e acreditei que em todo o resto, para além da religião, a sociedade daqui fosse inclusiva, misturada, aberta. Não como duas culturas comunicantes, mas como uma cultura una, fruto de uma convivência histórica entre brancos e negros, já livres dos descalabros da escravidão e da pós-escravidão, que marcaram a infância do Brasil.

Não demorei muito a perceber o engano. Salvador segrega de forma explícita, cotidiana e socialmente aceita. No dia-a-dia, os passageiros espremidos dentro dos ônibus lotados são negros, assim como o motorista e o cobrador. Dentro dos carros, confortavelmente instalados, com ar-condicionado, vidros fechados, e no mais das vezes, sozinhos, uma esmagadora minoria branca. Na Bahia Marina, reduto soteropolitano para a elite que busca ver e ser vista, maîtres, garçons, cozinheiros, manobristas, faxineiros e babás uniformizadas (ugh!) são negros, com raríssimas exceções. Clientes nas mesas, com suas camisas cheias de números e escudos, com seus vestidos decotados e saltos vertiginosos, com seus óculos, relógios e joias reluzentes, com seus carros importados estacionados, esses são brancos, com exceções ainda mais raras. No Carnaval, quando os trios passam e são seguidos pela multidão, corredores brancos se formam, isolados pela (cretiníssima) corda. Do lado de fora, a pipoca é negra, e pula, e dança, mesmo que rechaçada por aqueles que não entendem o espírito de uma festa popular e democrática. As favelas são negras. A Vitória é branca. O Porto da Barra é negro. O Yacht Club é branco. O presídio é negro. As secretarias de governo são brancas. 80% da população é negra. 20% é branca.

Corta pro Brasil: no avião, na ida, li uma revista, dentre tantas na banca que anunciavam o que está na moda, o que é tendência, quem dá as cartas. A que eu escolhi, especificamente, se auto define como “registro geral do que interessa”. Páginas recheadas de “it pessoas”, criativas, empreendedoras, lindas, ricas. Contei o número de negros retratados: 3. Um deles, o filho do Amarildo, menino bonito com uma história triste, que pode mudar sua sorte por meio da carreira de modelo. Outra era a cantora americana Ciara em uma festa fora do país. E a terceira era uma modelo em anúncio de marca de óculos escuros. Três pessoas em centenas: uma com a chance de escapar da marginalização graças à beleza física; outra estrangeira e fotografada fora do Brasil; a última vendendo óculos escuros, sem passar qualquer mensagem significativa. Nenhuma em matéria de página inteira. Nenhuma nas fotos de eventos sociais disputados. Arrisco dizer que nenhuma também no time à frente da publicação.

No tal evento que justificou minha curta viagem, vi muita gente bonita e descolada, obras de arte, performances, roupas estilosas, música, chocolates. Fico animada quando uma função armada por baianos foge totalmente aos estereótipos da Bahia – que são tantos, e tão lamentavelmente reforçados pra onde quer que o turista olhe quando chega por aqui. Tenho a sorte de trabalhar em uma empresa totalmente fora desse padrão, e interagir com gente que faz moda/gastronomia/arte de uma forma diferente, com orgulho de ser baiano e fugindo do lugar comum. Vida longa aos fora da caixa de todas as querências! Mas diante do contexto da data e das minhas divagações ao longo da jornada, não posso deixar de observar que esse pessoal antenado e bem sucedido, que escreve a própria história e mostra a Bahia cool e moderna também teima em ser majoritariamente branco.

Falando em estereótipos, e constatando que não é só na Bahia que eles são constantemente reforçados, hoje li esse texto http://www.blogdomael.blog.br/2013/08/o-esquenta-o-programa-mais-racista-da.html, compartilhado por um amigo aqui no facebook. Escrito por um autor negro, aponta como um programa líder de audiência, na emissora mais assistida do país, presta um desserviço ao manter o negro exatamente nos papéis esperados e perpetuados pela sociedade, achando isso lindo e convencendo milhões de telespectadores. Não vejo o tal programa, mas não precisa assistir a um inteiro pra constatar que o autor do texto acerta na mosca.

Ironia é um recurso que eu aprecio, e do qual me utilizo com freqüência como recurso de linguagem. Mas essa variedade que acomete nosso país inteiro há séculos não tem a menor graça. Incomoda e faz pensar.

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