20 de novembro, dia da consciência negra, e minha quarta-feira foi uma parábola da ironia brasileira.
Fui de Salvador a São Paulo em um bate-e-volta. O motivo: um evento
agitado por uma marca baiana de moda, onde a marca – também baiana –
de chocolates com a qual eu trabalho fez uma participação. A função
rolou na Oscar Freire, começando à tardinha e se esticando noite
adentro.
Quando atinei que o feriado em São Paulo era devido a
essa data específica, fiquei contrariada, com um misto de desconforto e
culpa que me é familiar desde que a Bahia passou a ser minha casa. Em
Salvador, uma das cidades mais negras do Brasil (se não a mais, não
tenho esse dado), não foi feriado, enquanto que boa parte do sudeste
parou por conta da memória de Zumbi dos Palmares.
Queria poder
dizer que isso se deve ao fato de na minha atual cidade, a consciência
negra ser tão desenvolvida e atuante, que a existência de uma data
específica para celebrá-la seja uma redundância desnecessária, mas não
posso forçar essa barra.
Logo que vim morar aqui, fui à
Lavagem do Bonfim e me emocionei com o sincretismo entre os ritos
católicos e africanos. Vi gente de todas as cores e classes caminhando
lado a lado, dando as mãos, vestindo branco. Conheci brancos adeptos
fervorosos do Candomblé, e acreditei que em todo o resto, para além da
religião, a sociedade daqui fosse inclusiva, misturada, aberta. Não como
duas culturas comunicantes, mas como uma cultura una, fruto de uma
convivência histórica entre brancos e negros, já livres dos descalabros
da escravidão e da pós-escravidão, que marcaram a infância do Brasil.
Não demorei muito a perceber o engano. Salvador segrega de forma
explícita, cotidiana e socialmente aceita. No dia-a-dia, os passageiros
espremidos dentro dos ônibus lotados são negros, assim como o motorista e
o cobrador. Dentro dos carros, confortavelmente instalados, com
ar-condicionado, vidros fechados, e no mais das vezes, sozinhos, uma
esmagadora minoria branca. Na Bahia Marina, reduto soteropolitano para a
elite que busca ver e ser vista, maîtres, garçons, cozinheiros,
manobristas, faxineiros e babás uniformizadas (ugh!) são negros, com
raríssimas exceções. Clientes nas mesas, com suas camisas cheias de
números e escudos, com seus vestidos decotados e saltos vertiginosos,
com seus óculos, relógios e joias reluzentes, com seus carros importados
estacionados, esses são brancos, com exceções ainda mais raras. No
Carnaval, quando os trios passam e são seguidos pela multidão,
corredores brancos se formam, isolados pela (cretiníssima) corda. Do
lado de fora, a pipoca é negra, e pula, e dança, mesmo que rechaçada por
aqueles que não entendem o espírito de uma festa popular e democrática.
As favelas são negras. A Vitória é branca. O Porto da Barra é negro. O
Yacht Club é branco. O presídio é negro. As secretarias de governo são
brancas. 80% da população é negra. 20% é branca.
Corta pro
Brasil: no avião, na ida, li uma revista, dentre tantas na banca que
anunciavam o que está na moda, o que é tendência, quem dá as cartas. A
que eu escolhi, especificamente, se auto define como “registro geral do
que interessa”. Páginas recheadas de “it pessoas”, criativas,
empreendedoras, lindas, ricas. Contei o número de negros retratados: 3.
Um deles, o filho do Amarildo, menino bonito com uma história triste,
que pode mudar sua sorte por meio da carreira de modelo. Outra era a
cantora americana Ciara em uma festa fora do país. E a terceira era uma
modelo em anúncio de marca de óculos escuros. Três pessoas em centenas:
uma com a chance de escapar da marginalização graças à beleza física;
outra estrangeira e fotografada fora do Brasil; a última vendendo óculos
escuros, sem passar qualquer mensagem significativa. Nenhuma em matéria
de página inteira. Nenhuma nas fotos de eventos sociais disputados.
Arrisco dizer que nenhuma também no time à frente da publicação.
No tal evento que justificou minha curta viagem, vi muita gente bonita e
descolada, obras de arte, performances, roupas estilosas, música,
chocolates. Fico animada quando uma função armada por baianos foge
totalmente aos estereótipos da Bahia – que são tantos, e tão
lamentavelmente reforçados pra onde quer que o turista olhe quando chega
por aqui. Tenho a sorte de trabalhar em uma empresa totalmente fora
desse padrão, e interagir com gente que faz moda/gastronomia/arte de uma
forma diferente, com orgulho de ser baiano e fugindo do lugar comum.
Vida longa aos fora da caixa de todas as querências! Mas diante do
contexto da data e das minhas divagações ao longo da jornada, não posso
deixar de observar que esse pessoal antenado e bem sucedido, que escreve
a própria história e mostra a Bahia cool e moderna também teima em ser
majoritariamente branco.
Falando em estereótipos, e constatando que não é só na Bahia que eles são constantemente reforçados, hoje li esse texto http://www.blogdomael.blog.br/2013/08/o-esquenta-o-programa-mais-racista-da.html,
compartilhado por um amigo aqui no facebook. Escrito por um autor
negro, aponta como um programa líder de audiência, na emissora mais
assistida do país, presta um desserviço ao manter o negro exatamente nos
papéis esperados e perpetuados pela sociedade, achando isso lindo e
convencendo milhões de telespectadores. Não vejo o tal programa, mas não
precisa assistir a um inteiro pra constatar que o autor do texto acerta
na mosca.
Ironia é um recurso que eu aprecio, e do qual me
utilizo com freqüência como recurso de linguagem. Mas essa variedade que
acomete nosso país inteiro há séculos não tem a menor graça. Incomoda e
faz pensar.
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