quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Aquele sobre o meu irmão caçula

Das 61 horas que acabo de passar em Porto Alegre, dentre todos os encontros, beijos, abraços e parênteses abertos nas saudades de sempre, a manhã de sábado foi o pedaço mais bonito.
O B me convidou pra pedalar com ele, ir encontrar o vô e a vó no Parcão.
Fomos até o porão pegar as bicicletas, vi ali o monte de tralhas e ferramentas de que ele se apossou, a parede pichada com spray, a oficina que hoje é domínio do guri.
Tempos atrás eu fui pra PoA num fim de semana e passei no café da Célia, amiga da minha mãe. Lá vi umas luminárias lindas, feitas com garrafas de vidro e arame. Quando elogiei, soube que eram obras do meu irmão caçula, agora artesão e negociante.
Nesse sábado, ele levou as bicis e umas chaves de fenda pro pátio, ajustou bancos, tirou pedaleiras, íntimo das peças e ferramentas. Me entregou um capacete que eu, besta, não quis usar. Desci a Plínio com ele, vento na cara, a adrenalina por estar solta na ladeira e já ter sido atropelada bem ali, na esquina com a Marcelo Gama, mais de uma década atrás. Ele na minha frente, ao meu lado, parecia paradoxalmente mais porraloca e mais prudente do que a irmã velha aqui.
Quando a gente atravessava a passarela da Goethe, surge o vô Paulo, pilotando sua magrela de grife com destreza e elegância do alto dos seus 75 anos. Ele me levava pra pedalar quando eu era piá, quase sempre no Marinha. Foi lá que um dia eu aprendi com ele a andar sem as mãos, e nesse mesmo dia cheguei em casa com queixo, cotovelos e joelhos ralados, toda faceira por ter sido um pouco destemida e radical (era uma criança que pecava pela cautela excessiva, e por isso me alegrava quando tombos e machucados acabavam não doendo tanto assim).
Mas voltando ao Parcão, a vó Ana apareceu caminhando e fomos os quatro tomar café na Padre Chagas.
Na hora de ir embora, já sobre a bici, B me pergunta: Ô Mari, tu chegou a comprar material pra gente fazer o cartão da mãe? (Nossa mãe fez aniversário no domingo, e ela gosta de ganhar cartões feitos com as nossas próprias mãos, nunca comprados prontos com frases pré fabricadas.) Demos meia volta e fomos à Casa do Papel, onde ele ajudou a escolher a cartolina amarelo queimado e o papel laminado rosa schocking. Fica legal o contraste, disse o guri. E completou: eu escrevo o texto na máquina de escrever, recorto e aplico as linhas no papel.
Meu irmão é um tipo absolutamente singular que não faz muito caso disso. Só é. Gosta de ferramenta, de bicicleta, de arte e de fazer esculturas com sorvete e balas coloridas, datilografa suas missivas e usa suspensórios por baixo da camiseta, pra segurar as calças sem tirar onda de hipster. Não se faz de excêntrico, alternativo ou moderninho, é um guri na dele. Um amor de guri. Um homem, na real. Um homem raro, inda ontem um bebê gordo, babão e de voz grossa, que insistia em apontar o telefone sem fio pra tv toda vez que resolvia trocar de canal.

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