Das
61 horas que acabo de passar em Porto Alegre, dentre todos os encontros,
beijos, abraços e parênteses abertos nas saudades de sempre, a manhã de
sábado foi o pedaço mais bonito.
O B me convidou pra pedalar com ele, ir encontrar o vô e a vó no Parcão.
Fomos até o porão pegar as bicicletas, vi ali o monte de tralhas e
ferramentas de que ele se apossou, a parede pichada com spray, a oficina
que hoje é domínio do guri.
Tempos
atrás eu fui pra PoA num fim de semana e passei no café da Célia, amiga
da minha mãe. Lá vi umas luminárias lindas, feitas com garrafas de
vidro e arame. Quando elogiei, soube que eram obras do meu irmão caçula,
agora artesão e negociante.
Nesse sábado, ele levou as bicis e
umas chaves de fenda pro pátio, ajustou bancos, tirou pedaleiras, íntimo
das peças e ferramentas. Me entregou um capacete que eu, besta, não
quis usar. Desci a Plínio com ele, vento na cara, a adrenalina por estar
solta na ladeira e já ter sido atropelada bem ali, na esquina com a
Marcelo Gama, mais de uma década atrás. Ele na minha frente, ao meu
lado, parecia paradoxalmente mais porraloca e mais prudente do que a
irmã velha aqui.
Quando a gente atravessava a passarela da Goethe,
surge o vô Paulo, pilotando sua magrela de grife com destreza e
elegância do alto dos seus 75 anos. Ele me levava pra pedalar quando eu
era piá, quase sempre no Marinha. Foi lá que um dia eu aprendi com ele a
andar sem as mãos, e nesse mesmo dia cheguei em casa com queixo,
cotovelos e joelhos ralados, toda faceira por ter sido um pouco
destemida e radical (era uma criança que pecava pela cautela excessiva, e
por isso me alegrava quando tombos e machucados acabavam não doendo
tanto assim).
Mas voltando ao Parcão, a vó Ana apareceu caminhando e fomos os quatro tomar café na Padre Chagas.
Na hora de ir embora, já sobre a bici, B me pergunta: Ô Mari, tu chegou
a comprar material pra gente fazer o cartão da mãe? (Nossa mãe fez
aniversário no domingo, e ela gosta de ganhar cartões feitos com as
nossas próprias mãos, nunca comprados prontos com frases pré
fabricadas.) Demos meia volta e fomos à Casa do Papel, onde ele ajudou a
escolher a cartolina amarelo queimado e o papel laminado rosa
schocking. Fica legal o contraste, disse o guri. E completou: eu escrevo
o texto na máquina de escrever, recorto e aplico as linhas no papel.
Meu irmão é um tipo absolutamente singular que não faz muito caso
disso. Só é. Gosta de ferramenta, de bicicleta, de arte e de fazer
esculturas com sorvete e balas coloridas, datilografa suas missivas e
usa suspensórios por baixo da camiseta, pra segurar as calças sem tirar
onda de hipster. Não se faz de excêntrico, alternativo ou moderninho, é
um guri na dele. Um amor de guri. Um homem, na real. Um homem raro, inda
ontem um bebê gordo, babão e de voz grossa, que insistia em apontar o
telefone sem fio pra tv toda vez que resolvia trocar de canal.
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