Porto Alegre é que tem um jeito legal
Aterrisso no Salgado Filho às 7h da manhã. Na chegada, sobrevoando as
ilhotas do Guaíba, me espicho toda (sentei no corredor) pra enxergar o
Cais do Porto, o Gasômetro, os edifícios claros e baixos iluminados pelo
sol de um dia azul anil. O céu só fica nesse tom aqui.
Talvez se eu voltasse todo mês, não sentiria esse deslumbramento todo que sinto quando chego.
Parece sempre que tô voltando do exílio, preciso me policiar pra não
beijar o chão, nem me enrolar toda na bandeira riograndense. A recepção
contribui com o sentimento de "a boa filha à casa torna": meus avós
estão lá desde às 6h; minha mãe e minha irmã me dão um mata-leão
coletivo de amor e afeto com juros e correção monetária.
Gosto de
olhar pras ruas, mesmo as ruas mais opacas que cercam o aeroporto, e
sabê-las todas de cor e salteado, sugerir rotas, reparar nas novas
fachadas. Porto Alegre muda de paisagem rapidamente: em um instante a
gente passa do concreto da perimetral às ruas arborizadas de
paralelepípedo da Bela Vista.
Me levam pra tomar café-da-manhã em
um lugarzinho charmoso, e me delicio em pensar que minha cidade está
cheia desses recantos, novos ou tradicionais, e eu louca pra conhecer ou
retornar a cada um deles. Taí um talento portoalegrense: a graça
discreta e despretensiosa de barzinhos, cafés e lojas de coisas
queridas. É um je ne sais quoi low profile tri legal, da zona sul ao
moinhos de vento, passando por centro, bom fim e cidade baixa.
Porto Alegre me dói
Vir nessa época do ano - depois de quase um ano inteiro sem vir - é um
pouco mais complexo do que o previsto. Comemorações natalinas e férias
de verão são como uma cápsula idílica entre um ano e outro quando a
gente tá crescendo. Depois de uma certa idade, estão mais pra um respiro
rápido, um breve parêntesis.
Quando eu era piá, vivia o período
sempre em contradição: esperava ansiosa por essa época do ano, mas logo
que acabava de abrir os presentes de Natal, ficava ansiosa pela
possibilidade de ninguém me convidar pra ir à praia no ano novo. Porque
Porto Alegre lá pelas tantas expulsa, como se esvaziasse por osmose. O
calor é acachapante, e entre dezembro e março, todos os dias a capa da
zero hora traz uma foto do verão sendo bem aproveitado no nosso litoral
(que vai de Garopaba a Punta del Este).
Agora parece déja vu: cá
estou, presenciando o êxodo à medida que os dias ficam mais escaldantes.
No ócio, na casa onde moram minha mãe, meus irmãos e a gata deles,
revivo meus dias de guria desocupada em um cotidiano atípico, em que as
horas passam mais devagar e os dias, mais rapidamente.
Longas
pedaladas em pleno horário comercial, maratonas de seriados bobocas,
leitura completa e desatenta de todos os cadernos da zh, passeios
vespertinos, beijos, cafunés, conversas fiadas, siestas e banhos de
piscina. Como se eu nunca tivesse saído desse cenário.
Acontece que
eu saí, como pode atestar o marido que eu trago a tiracolo - e que em
alguns círculos já é bem mais popular do que eu, diga-se. Só que uma
semana não é o bastante pras minhas revoluções pessoais se manifestarem.
Pelo menos não esta semana, com tudo em suspensão. O que dói é isso: ao
mesmo tempo em que essa mini rotina é parecida demais com ex rotinas
minhas, ela é tão atípica e distante da minha realidade atual, que meu
desejo de manifestar que tudo mudou é proporcional à minha vontade de
fazer esse agora durar o máximo possível. Não tô tentando ser hermética,
Porto Alegre que de fato o é pra mim, e ora eu me vejo do lado de
dentro, claustrofóbico, ora do lado de fora, impenetrável.
Porto Alegre me tem
Quando eu pedalo pela Duque no fim de tarde e descubro novas cores nos
mesmos prédios de sempre, e faço planos secretos de um dia ter um
apartamento ali, e paro no viaduto da Borges pra olhar, admirada e com
vertigem, como sempre. Às vezes escorre uma que outra lágrima, mas acho
que é do vento que bate na cara quando pego embalo nas descidas.
Me
tem quando o povo aparece prum churras aqui em casa, todo mundo bem à
vontade, comendo, bebendo, fumando, rindo, conversando, abrindo a
geladeira e os armários, atrás de copos, talheres, cerveja.
Porto Alegre me tem muito junto do peito quando eu tô longe daqui. E me faz, evidentemente, tão sentimental.
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