quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Aquele sobre mi Porto Alegre querida

Porto Alegre é que tem um jeito legal

Aterrisso no Salgado Filho às 7h da manhã. Na chegada, sobrevoando as ilhotas do Guaíba, me espicho toda (sentei no corredor) pra enxergar o Cais do Porto, o Gasômetro, os edifícios claros e baixos iluminados pelo sol de um dia azul anil. O céu só fica nesse tom aqui.
Talvez se eu voltasse todo mês, não sentiria esse deslumbramento todo que sinto quando chego. Parece sempre que tô voltando do exílio, preciso me policiar pra não beijar o chão, nem me enrolar toda na bandeira riograndense. A recepção contribui com o sentimento de "a boa filha à casa torna": meus avós estão lá desde às 6h; minha mãe e minha irmã me dão um mata-leão coletivo de amor e afeto com juros e correção monetária.
Gosto de olhar pras ruas, mesmo as ruas mais opacas que cercam o aeroporto, e sabê-las todas de cor e salteado, sugerir rotas, reparar nas novas fachadas. Porto Alegre muda de paisagem rapidamente: em um instante a gente passa do concreto da perimetral às ruas arborizadas de paralelepípedo da Bela Vista.
Me levam pra tomar café-da-manhã em um lugarzinho charmoso, e me delicio em pensar que minha cidade está cheia desses recantos, novos ou tradicionais, e eu louca pra conhecer ou retornar a cada um deles. Taí um talento portoalegrense: a graça discreta e despretensiosa de barzinhos, cafés e lojas de coisas queridas. É um je ne sais quoi low profile tri legal, da zona sul ao moinhos de vento, passando por centro, bom fim e cidade baixa.

Porto Alegre me dói

Vir nessa época do ano - depois de quase um ano inteiro sem vir - é um pouco mais complexo do que o previsto. Comemorações natalinas e férias de verão são como uma cápsula idílica entre um ano e outro quando a gente tá crescendo. Depois de uma certa idade, estão mais pra um respiro rápido, um breve parêntesis.
Quando eu era piá, vivia o período sempre em contradição: esperava ansiosa por essa época do ano, mas logo que acabava de abrir os presentes de Natal, ficava ansiosa pela possibilidade de ninguém me convidar pra ir à praia no ano novo. Porque Porto Alegre lá pelas tantas expulsa, como se esvaziasse por osmose. O calor é acachapante, e entre dezembro e março, todos os dias a capa da zero hora traz uma foto do verão sendo bem aproveitado no nosso litoral (que vai de Garopaba a Punta del Este).
Agora parece déja vu: cá estou, presenciando o êxodo à medida que os dias ficam mais escaldantes. No ócio, na casa onde moram minha mãe, meus irmãos e a gata deles, revivo meus dias de guria desocupada em um cotidiano atípico, em que as horas passam mais devagar e os dias, mais rapidamente.
Longas pedaladas em pleno horário comercial, maratonas de seriados bobocas, leitura completa e desatenta de todos os cadernos da zh, passeios vespertinos, beijos, cafunés, conversas fiadas, siestas e banhos de piscina. Como se eu nunca tivesse saído desse cenário.
Acontece que eu saí, como pode atestar o marido que eu trago a tiracolo - e que em alguns círculos já é bem mais popular do que eu, diga-se. Só que uma semana não é o bastante pras minhas revoluções pessoais se manifestarem. Pelo menos não esta semana, com tudo em suspensão. O que dói é isso: ao mesmo tempo em que essa mini rotina é parecida demais com ex rotinas minhas, ela é tão atípica e distante da minha realidade atual, que meu desejo de manifestar que tudo mudou é proporcional à minha vontade de fazer esse agora durar o máximo possível. Não tô tentando ser hermética, Porto Alegre que de fato o é pra mim, e ora eu me vejo do lado de dentro, claustrofóbico, ora do lado de fora, impenetrável.

Porto Alegre me tem

Quando eu pedalo pela Duque no fim de tarde e descubro novas cores nos mesmos prédios de sempre, e faço planos secretos de um dia ter um apartamento ali, e paro no viaduto da Borges pra olhar, admirada e com vertigem, como sempre. Às vezes escorre uma que outra lágrima, mas acho que é do vento que bate na cara quando pego embalo nas descidas.
Me tem quando o povo aparece prum churras aqui em casa, todo mundo bem à vontade, comendo, bebendo, fumando, rindo, conversando, abrindo a geladeira e os armários, atrás de copos, talheres, cerveja.
Porto Alegre me tem muito junto do peito quando eu tô longe daqui. E me faz, evidentemente, tão sentimental.

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