Nesse oba oba de #projetoverão,
meio mundo vende a alma por um abdome marcado, e a outra metade abomina
tênis fluo em foto de academia. Mas ninguém se importa com o problema
real, concreto e ameaçador que se coloca: a crescente popularidade do
treino de funcional em áreas públicas. Treina-se em todo e qualquer
lugar hoje em dia, e os danos podem se sobrepor às vantagens de ter
glúteos desenhados ao ar livre.
Primeiro perigo: a não-regulamentação dos espaços, sendo infinita a
variedade de metros quadrados adequados pra balançar o kettle bell nos
dias de hoje. Praia, praça, até modalidades a jato no semáforo fechado
estão surgindo. Agora, além dos buracos e cocôs de cachorro, os
pedestres precisam ficar atentos para não tropeçarem em bambolês, nem
acertarem naqueles elásticos superpoderosos capazes de lançar o corpo
humano à distância, como um estilingue. E você achava dureza desviar do
tai chi chuan que surgia de uma hora pra outra no meio do parque,
precisando ter o cuidado de passar pé ante pé e com o iPod mudo (mesmo
que no auge de uma corrida pesada ao som de ACDC no último volume). A
gente era feliz e não sabia.
Some-se a tudo isso a parafernália
esdrúxula de que o treino de funcional se utiliza, e pronto: qualquer
um que afanar meia dúzia de cones de trânsito e arranjar um apito pode
descer pra areia e montar um circuitinho. Aliás, os acessórios não têm
limites: só falta bicicleta ergométrica descer pra areia. Vem cá, não
ocorre a ninguém que a instalação alternativa seja devida ao não
pagamento de aluguel e/ou IPTU da academia? Cuidado, hein, qualquer dia
desses sua liberação de endorfina pode mudar de nome e passar a atender
por "evasão fiscal".
Fora o bullying pesado direcionado aos não
adeptos desses treinos itinerantes - que mais parecem circos em
montagem pré temporada, vamos combinar. Em uma caminhada tranqüila pela
areia da Barra esses dias, enquanto pensava na vida e ouvia Bebel
Gilberto, fui atingida em cheio por uma criatura que corria desembestada
com um mini paraquedas amarrado às costas. Não fosse o paraquedas (qual
a necessidade disso?), diria ser Tom Brady rumo ao touchdown. Ficou bem
chata a situação, e como se não bastasse ter quebrado totalmente meu
clima, até que eu conseguisse me desvencilhar das cordas já tinha
perdido o pôr do sol.
Esse episódio nem foi nada demais
comparado à hostilidade das grandes metrópoles: no Ibirapuera, nenhum
bêbado e/ou mendigo consegue dormir em paz atualmente. Tem sempre alguém
em volta pra saltar em cima dos bancos com os dois pés, agachar, descer
e subir de novo, sucessivas vezes, com a respiração mais forte do que o
ronco daquele que tenta descansar. Inconveniente, desnecessário.
Não acho que seja por crueldade dos alunos, pelo contrário: vejo neles
possivelmente os seres mais dóceis e masoquistas dentre o povo que
malha. Nunca vi gostar tanto de ser destratado por treinador, e sei de
um grupo que paga uma mensalidade mais alta só porque o algoz usa um
taser, eletrocutando moderadamente todo aquele que arregar nas flexões.
Parece que no plano premium rolam também spray de pimenta, açoite e
trajes de látex nos treinos de sexta-feira. O que só torna a coisa toda
mais incoerente, porque cá entre nós: qual o sentido de buscar o
sofrimento em áreas verdes ou com vista pro mar? Gente, se o espírito é
de guerra e dor, vão suar em usina nuclear abandonada, no lixão, algum
lugar que agregue valor à agonia, já que é esse o objetivo.
Eu só queria correr, sabe?
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