quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Aquele sobre treinamentos funcionais que se disseminam como o Ebola

Nesse oba oba de #projetoverão, meio mundo vende a alma por um abdome marcado, e a outra metade abomina tênis fluo em foto de academia. Mas ninguém se importa com o problema real, concreto e ameaçador que se coloca: a crescente popularidade do treino de funcional em áreas públicas. Treina-se em todo e qualquer lugar hoje em dia, e os danos podem se sobrepor às vantagens de ter glúteos desenhados ao ar livre.

Primeiro perigo: a não-regulamentação dos espaços, sendo infinita a variedade de metros quadrados adequados pra balançar o kettle bell nos dias de hoje. Praia, praça, até modalidades a jato no semáforo fechado estão surgindo. Agora, além dos buracos e cocôs de cachorro, os pedestres precisam ficar atentos para não tropeçarem em bambolês, nem acertarem naqueles elásticos superpoderosos capazes de lançar o corpo humano à distância, como um estilingue. E você achava dureza desviar do tai chi chuan que surgia de uma hora pra outra no meio do parque, precisando ter o cuidado de passar pé ante pé e com o iPod mudo (mesmo que no auge de uma corrida pesada ao som de ACDC no último volume). A gente era feliz e não sabia.

Some-se a tudo isso a parafernália esdrúxula de que o treino de funcional se utiliza, e pronto: qualquer um que afanar meia dúzia de cones de trânsito e arranjar um apito pode descer pra areia e montar um circuitinho. Aliás, os acessórios não têm limites: só falta bicicleta ergométrica descer pra areia. Vem cá, não ocorre a ninguém que a instalação alternativa seja devida ao não pagamento de aluguel e/ou IPTU da academia? Cuidado, hein, qualquer dia desses sua liberação de endorfina pode mudar de nome e passar a atender por "evasão fiscal".

Fora o bullying pesado direcionado aos não adeptos desses treinos itinerantes - que mais parecem circos em montagem pré temporada, vamos combinar. Em uma caminhada tranqüila pela areia da Barra esses dias, enquanto pensava na vida e ouvia Bebel Gilberto, fui atingida em cheio por uma criatura que corria desembestada com um mini paraquedas amarrado às costas. Não fosse o paraquedas (qual a necessidade disso?), diria ser Tom Brady rumo ao touchdown. Ficou bem chata a situação, e como se não bastasse ter quebrado totalmente meu clima, até que eu conseguisse me desvencilhar das cordas já tinha perdido o pôr do sol.

Esse episódio nem foi nada demais comparado à hostilidade das grandes metrópoles: no Ibirapuera, nenhum bêbado e/ou mendigo consegue dormir em paz atualmente. Tem sempre alguém em volta pra saltar em cima dos bancos com os dois pés, agachar, descer e subir de novo, sucessivas vezes, com a respiração mais forte do que o ronco daquele que tenta descansar. Inconveniente, desnecessário.

Não acho que seja por crueldade dos alunos, pelo contrário: vejo neles possivelmente os seres mais dóceis e masoquistas dentre o povo que malha. Nunca vi gostar tanto de ser destratado por treinador, e sei de um grupo que paga uma mensalidade mais alta só porque o algoz usa um taser, eletrocutando moderadamente todo aquele que arregar nas flexões. Parece que no plano premium rolam também spray de pimenta, açoite e trajes de látex nos treinos de sexta-feira. O que só torna a coisa toda mais incoerente, porque cá entre nós: qual o sentido de buscar o sofrimento em áreas verdes ou com vista pro mar? Gente, se o espírito é de guerra e dor, vão suar em usina nuclear abandonada, no lixão, algum lugar que agregue valor à agonia, já que é esse o objetivo.

Eu só queria correr, sabe?

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