quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Aquele sobre meu bode com o oversharing. E Bowie, de canto.

O que piada, moda e beleza física têm em comum? Qualquer uma das três, se explicada, perde a graça.
Não sou comediante, fashionista, nem gata-sarada, mas prezo muito minhas risadas, compro a Vogue todo mês e sou vidrada em gente linda. Olho mesmo, sem disfarçar. Só que o encanto se quebra quando a beldade começa a discorrer sobre o suco verde que toma de manhã, o peso que levanta na academia e o creme pra esfoliar o cotovelo que trouxe do free shop. Fotos da pessoa suada e vestida com roupas fluorescentes enquanto se estica toda no pilates me constrangem. Penso com temor que daí a começarem a documentar banho e depilação íntima é um curto passo.
O mesmo vale pra looks do dia em que todos aqueles detalhes charmosos na aparência de alguém viram produtos, coisas que se podem comprar no shopping. Some-se a isso o fato de essas fotos serem tiradas sempre em três variações da mesma posição, e puf!: o encanto acaba.
Beleza e elegância são je ne sais quoi, dependem de um certo mistério. O ser humano atraente parece não ter perdido muito tempo buscando se tornar atraente, apenas é - e não pede desculpas, nem dá explicações por isso. Conversa sobre livros, viagens, sexo, comida. Lê livros, viaja, transa, come. Sim, bem provável que faça ginástica, use uns creminhos, goste de roupa bonita e cuide da alimentação, mas põe tudo isso numa caixinha que diz "cuidados íntimos e pessoais".
Arquitetos gostam de participar da obra e do entulho que precedem um ambiente belo e confortável. Cozinheiros (e alguns comilões) exultam ao saber detalhes sobre a matéria-prima e o preparo por trás do prato bem apresentado e saboroso que é servido no restaurante. Esteticistas, personal trainers, dermatologistas, maquiadores, nutricionistas e estilistas se importam com detalhes sobre exercícios que definem a cintura, tratamentos que eliminam a celulite, cremes que são base, hidratante e protetor solar ao mesmo tempo, alimentos termogênicos, a cor que vai dominar as passarelas e a marca que vai virar hit na próxima estação.
Hedonistas só se interessam por ver, ouvir, sentir, cheirar e comer o que é gostoso, bonito e perfumado.
Não me canso de assistir ao vídeo de David Bowie tocando piano e cantando "I'd rather be high" pra Arizona Muse num baile de mascarados loucos em Veneza (L'Invitation au voyage, campanha da Louis Vuitton), mas acho cafonérrimo quem se ufana do monograma nos aeroportos e "spots badalados" mundo afora. Devo ter visto umas doze vezes o último desfile da Victoria's Secret no YouTube, mas parei de seguir a Izabel Goulart no Instagram no dia em que amanheci com fotos do aipo e da beterraba que ela centrifuga no café-da-manhã (e anoiteci vendo-a pendurada em um equipamento engenhoso pra fortalecer glúteos e abdome).
Quando morava em Londres, conheci uma guria que é a tradução do que pra mim significa beleza: era uma sueca de 1,80m, loira e deslumbrante, que mancava na ocasião, por conta de um tombo fazendo snowboard. Formada pela London School of Economics, resolveu estudar cozinha francesa, pra mudar de ares. Era rápida com as facas e comia o que preparava sem moderação. Esses dias postou aqui que precisava de doações pra um projeto voltado a crianças carentes no Nepal, pelo qual ela havia se inscrito em uma corrida de aventura de 100km pelas montanhas (nepalesas, por óbvio). Não contente em ser bela, viajada e solidária, a danada ainda ganhou a prova. Nunca ouvi essa pessoa falar sobre whey, power plate, primer ou fashion week. Inobstante, andava sempre impecável e com histórias incríveis pra contar.
Moral da história: todos somos livres pra usarmos como quisermos nosso tempo, e compartilharmos como bem entendermos nossas atividades diárias. Dito isso, quem vier me contar detalhes sobre seu treino de funcional ou desabafar sobre a dificuldade em encontrar o tom certo no cabeleireiro, fique sabendo: I'd (much) rather be high.

http://www.youtube.com/watch?v=WRPnpy3gzQE

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