O que piada, moda e beleza física têm em comum? Qualquer uma das três, se explicada, perde a graça.
Não sou comediante, fashionista, nem gata-sarada, mas prezo muito
minhas risadas, compro a Vogue todo mês e sou vidrada em gente linda.
Olho mesmo, sem disfarçar. Só que o
encanto se quebra quando a beldade começa a discorrer sobre o suco verde
que toma de manhã, o peso que levanta na academia e o creme pra
esfoliar o cotovelo que trouxe do free shop. Fotos da pessoa suada e
vestida com roupas fluorescentes enquanto se estica toda no pilates me
constrangem. Penso com temor que daí a começarem a documentar banho e
depilação íntima é um curto passo.
O mesmo vale pra looks do dia em
que todos aqueles detalhes charmosos na aparência de alguém viram
produtos, coisas que se podem comprar no shopping. Some-se a isso o fato
de essas fotos serem tiradas sempre em três variações da mesma posição,
e puf!: o encanto acaba.
Beleza e elegância são je ne sais quoi,
dependem de um certo mistério. O ser humano atraente parece não ter
perdido muito tempo buscando se tornar atraente, apenas é - e não pede
desculpas, nem dá explicações por isso. Conversa sobre livros, viagens,
sexo, comida. Lê livros, viaja, transa, come. Sim, bem provável que faça
ginástica, use uns creminhos, goste de roupa bonita e cuide da
alimentação, mas põe tudo isso numa caixinha que diz "cuidados íntimos e
pessoais".
Arquitetos gostam de participar da obra e do entulho que
precedem um ambiente belo e confortável. Cozinheiros (e alguns
comilões) exultam ao saber detalhes sobre a matéria-prima e o preparo
por trás do prato bem apresentado e saboroso que é servido no
restaurante. Esteticistas, personal trainers, dermatologistas,
maquiadores, nutricionistas e estilistas se importam com detalhes sobre
exercícios que definem a cintura, tratamentos que eliminam a celulite,
cremes que são base, hidratante e protetor solar ao mesmo tempo,
alimentos termogênicos, a cor que vai dominar as passarelas e a marca
que vai virar hit na próxima estação.
Hedonistas só se interessam por ver, ouvir, sentir, cheirar e comer o que é gostoso, bonito e perfumado.
Não me canso de assistir ao vídeo de David Bowie tocando piano e
cantando "I'd rather be high" pra Arizona Muse num baile de mascarados
loucos em Veneza (L'Invitation au voyage, campanha da Louis Vuitton),
mas acho cafonérrimo quem se ufana do monograma nos aeroportos e "spots
badalados" mundo afora. Devo ter visto umas doze vezes o último desfile
da Victoria's Secret no YouTube, mas parei de seguir a Izabel Goulart no
Instagram no dia em que amanheci com fotos do aipo e da beterraba que
ela centrifuga no café-da-manhã (e anoiteci vendo-a pendurada em um
equipamento engenhoso pra fortalecer glúteos e abdome).
Quando
morava em Londres, conheci uma guria que é a tradução do que pra mim
significa beleza: era uma sueca de 1,80m, loira e deslumbrante, que
mancava na ocasião, por conta de um tombo fazendo snowboard. Formada
pela London School of Economics, resolveu estudar cozinha francesa, pra
mudar de ares. Era rápida com as facas e comia o que preparava sem
moderação. Esses dias postou aqui que precisava de doações pra um
projeto voltado a crianças carentes no Nepal, pelo qual ela havia se
inscrito em uma corrida de aventura de 100km pelas montanhas (nepalesas,
por óbvio). Não contente em ser bela, viajada e solidária, a danada
ainda ganhou a prova. Nunca ouvi essa pessoa falar sobre whey, power
plate, primer ou fashion week. Inobstante, andava sempre impecável e com
histórias incríveis pra contar.
Moral da história: todos somos
livres pra usarmos como quisermos nosso tempo, e compartilharmos como
bem entendermos nossas atividades diárias. Dito isso, quem vier me
contar detalhes sobre seu treino de funcional ou desabafar sobre a
dificuldade em encontrar o tom certo no cabeleireiro, fique sabendo: I'd
(much) rather be high.
http://www.youtube.com/watch?v=WRPnpy3gzQE
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