quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Aquele sobre... bah, nem sei, sobre um monte de coisas aparentemente disconexas.

Faxina, trabalho, paixão, casamento, e o que realmente importa

Um sábado típico em que eu acordo com os dedos coçando pra escrever, ao mesmo tempo em que uma obsessão por limpeza me invade, e desembesto a botar a casa em ordem. Já vejo um padrão depois de tantos sábados parecidos: a manhã preguiçosa que eu imaginei enquanto dirigia exausta pelo trânsito hostil da cidade no final de cada dia útil (?) nunca se revela preguiçosa de fato. O Hugo sai cedo pra trabalhar, e eu não resisto à ideia de ter só pra mim as horas e a luz da manhã. Preciso levantar, me mexer, ocupar meu corpo com tarefas triviais e repetitivas, pra dar paz à minha mente. Faxina é meditação.

Nos primeiros instantes, a missão parece hercúlea: todas as minhas roupas e sapatos espalhados pela casa, louça suja pela cozinha inteira, pó sobre os móveis, quarto da Birra parecendo uma pocilga. Minha cabeça idem: encerrei a semana cheia de incertezas, dores e um instinto de movimento necessário, ainda que sem saber direito pra onde.

Começo pelo meu quarto, meu ambiente mais íntimo, tratando das minhas coisas. Meu guarda-roupa ontem parecia vazio, eu não encontrava nada pra vestir na hora de ir trabalhar. Nessas horas sempre fico emburrada, e nunca sei se é por conta de não ter roupa, ou por constatar que algo assim tão besta é capaz de me incomodar.

Saio pela casa juntando blusas, calças, saias, sutiãs, calcinhas, sapatos, bolsas, brincos. Empilho tudo em cima da cama e vejo uma montanha disforme e aparentemente intransponível. Passo a dobrar peça por peça, dispondo as minhas do lado esquerdo e as dele do lado direito. Logo o lado esquerdo vira centro, e o direito vira canto.

Ele sonha alto, mas sabe ser feliz com pouco, e faz o melhor com aquilo que tem. Por exemplo: tem a certeza de ser casado com a mulher mais linda, inteligente e espirituosa do universo (ou pelo menos me convence direitinho disso todos os dias, que é o que importa). Trabalha fazendo pão, o alimento mais básico que existe. E faz um pão melhor a cada dia, e se apaixona mais pelo ofício a cada fornada. Sou toda orgulho e amor pelo meu homem, e cada dobra que faço na meia dúzia de camisetas que ele tem é toda amor e orgulho também.

Meus panos vão se coordenando. Primeiro dobrados, depois agrupados (short de corrida com short de corrida, blusa com blusa, calça com calça, e assim por diante), depois devidamente guardados, ordenados por cor. Muito preto, cinza e cru, muita flor e cor também.

Cheguei aqui quase neutra, básica, tela em branco pra uma vida nova. Me apaixonei pelo meu trabalho antes mesmo de conhecê-lo, e segui me apaixonando, e por isso trabalhando em qualquer dia e horário, encarando qualquer missão, virando noites e finais de semana.

Aprendi a trabalhar direito em cozinhas, deve ter sido por isso que fiquei assim. Lá não existia isso de 8 horas por dia, intervalo de almoço, planilhas, projetos adiados, arrastados, prazos estendidos. Era do zero a tudo, todos os dias. Eram partidas, cada qual com sua lista, uma brigada trabalhando coletiva e arduamente por um objetivo claro. Nenhum minuto desperdiçado, nenhuma hora morta. A meritocracia em seu estado puro: quem mandava, mandava porque sabia melhor, e tinha trabalhado feito um cavalo pra chegar até ali. Quem obedecia, se cortava e se queimava (eu, e todos os colegas que tive a sorte de ter), via aquilo como um privilégio, um aprendizado inestimável. O salário definitivamente não era um atrativo. Cozinheiro que preze seu ofício desconhece o significado da expressão “zona de conforto”.

Cozinheiro também não tem aquela membrana cerebral que divide vida pessoal de vida profissional. Pode ser uma deficiência, ou uma bactéria… não sei, sei que pegou em mim, e desconfio que não tenha cura, já que deixei de trabalhar em cozinha há alguns anos, mas sigo enxergando trabalho sob a mesma perspectiva de antes. Me chamem de louca, mas acho que louco mesmo é quem gira uma chavezinha todos os dias, mudando entre o horário comercial e as horas livres. Como aquelas pessoas quem sabem que o mundo é injusto, mas trabalham das 8h às 18h em multinacionais poluidoras e multi-bilionárias, porque o plano de carreira é excelente. Acho isso uma insanidade, como acho os próprios conceitos de “horário comercial” e “universo corporativo” um delírio coletivo. A gente é o que a gente faz todos os dias, o dia todo. A gente não é o lugar paradisíaco que a gente visitou nas férias. A gente não é o post de auto-ajuda publicado no facebook logo de manhã. A gente não é a selfie tirada no elevador antes da festa, exibindo o look e postando com alguma hashtag em inglês desprovida de qualquer sentido (#top #workhardplayharder #hojetem e #babaquicesafins).

Eu quis viajar, e trabalhar com alguma coisa completamente diferente do que meu diploma de direito me habilitava a fazer, e viver aventuras em territórios desconhecidos, e interagir com gente fascinante. Venho tentando viver assim, com relativo sucesso. Estudei, mudei de país 3 vezes e um dia encontrei - ou melhor, inventei - um emprego que parecia feito pra mim e eu pra ele. Acontece que mudanças radicais tornam-se viciantes. E não posso mais negar que preciso de uma nova mudança radical. Pra já.

Nesses dois anos de Bahia, vivi coisas surreais. Cheguei acreditando que me espiritualizaria, mas no máximo reforcei meu agnosticismo otimista. Jurava que a maresia fosse me tornar mais leve, e na verdade o que aconteceu foi que minhas cores todas ganharam uma camada extra de tinta. Do azul-piscina ao vermelho-sangue, aqui se esgotou o tempo das linhas tênues e áreas acinzentadas. Sempre serei adepta das sutilezas, mas nunca mais abro mão da clareza absoluta para comigo mesma.

Aqui quase separei, casei de verdade (finalmente), me apaixonei e me desapaixonei. Hoje amo e sei. Nunca dei bola pra raízes e legados, agora quero ter um filho. Aqui morri de saudades de abraçar a minha irmã, rir com o meu irmão, ganhar colo da minha mãe, fazer nada na casa dos meus avós, saber da vida de meus tios e primos por eles mesmos, almoçar no meio da semana com as minhas amigas, beber e falar besteira qualquer dia, à toa, com os meus amigos e amores. Primeiro morri de saudades, depois aceitei que ônus sempre há, hoje decidi que alguns não valem a pena.

Aprendi que sonhar o sonho alheio é maravilhoso quando o sonho vira nosso também. Sou eternamente agradecida por isso. Entendi também o que dizia Elis quando falava que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa. Tanto canto quanto sonho são bálsamos, viver é fundamental. O que eu vim fazer aqui já foi feito, já está. O momento é de transcender a fim de evoluir.

Meu guarda-roupa está em ordem. Tenho muito mais do que o bastante pra viver, mas não tanto que não possa fechar numa mala se a hora for de partir. Falta ainda arrumar o resto desse apartamento grande e vazio demais pra nós três. Mãos à obra.

Nenhum comentário:

Postar um comentário