Começa na altura do Yacht Club, onde é de bom tom estacionar possantes em cima da calçada, enfileirados e com a menor distância possível entre retrovisor e muro do cemitério. Iniciantes treinam o equilíbrio ao percorrer - sem morrer ou sofrer qualquer tipo de amputação - a fina linha entre o estacionamento improvisado e os ônibus que descem a ladeira como se fugissem da praga (todo motorista de ônibus em Salvador é um piloto de F1 frustrado. E quem não é?, penso eu ao ouvir o zunido de Ferraris que descem a mesma ladeira como se Monte Carlo fosse aqui).
A chegada ao Porto da Barra serve pra mostrar que tudo nessa vida é uma questão de perspectiva. Se no mês passado essa era a área mais apinhada e difícil de percorrer do trajeto, hoje não passa de zona de aquecimento para a corrida com obstáculos que se inicia na altura da curva do Hospital Português. Desviar dos habitués que andam trôpegos pelas calçadas, e contornar os dançarinos de ocasião que empinam a retaguarda ao som de Psiricos e assemelhados é fichinha. Ultrapassar a legião de ambulantes que vendem periguetes 3 por 5 é mo-le-za. The real deal começa mesmo logo à frente, onde as obras de revitalização da orla alteraram drasticamente trânsito, paisagem e hábitos da Barra.
Nos últimos metros que antecedem a pista de parkour, fica claro que a área agora é 100% health & fitness. Basta constatar que os dois estabelecimentos que antes lotavam nos dias ensolarados, especialmente no pôr-do-sol, oferecendo fartura de cervejinhas, caipirinhas, bolinhos fritos e vasta escolha de carne vermelha, hoje estão às moscas. Quem insistir em se refestelar nas gorduras saturadas e calorias vazias, que pelo menos tenha a vergonha na cara de caminhar até ali, já que estacionar na Barra is so last season...
O timing para o lançamento da pista esportiva não poderia ter sido melhor pensado: assim que as temperaturas começaram a cercar os 36 graus antes das 8 da manhã, e o sol deixou de dar trégua para dias nublados e chuvas aleatórias, a prefeitura inaugurou esse espaço alternativo. Simultaneamente, ativou os bicicletários do itaú, em sincronia suíça. O resultado não poderia ser diferente: a população soteropolitana de todos os bairros, de Amaralina às Cajazeiras, de Brotas a São Cristóvão, veio conhecer a estupenda inovação. Ou pelo menos é essa a impressão que se tem ao atravessar o trecho entre Hospital Português e Correios com um espaço que não chega a 2m para a circulação de pedestres, corredores, ambulantes e as benditas bicicletas cor-de-laranja.
Aqui, a nova elite do parkour nasce e cresce a olhos vistos, e eu me orgulho em fazer parte dela! Meu desempenho nesse feriadão tem sido impressionante: só ontem, pulei alternadamente as pedras de concreto que prendem ao chão as grades de isolamento da obra, dei uma cambalhota por baixo das mãos entrelaçadas de um casal, saltei um isopor de cerveja (em movimento), subi o parapeito do calçadão pra desviar de uma legião gringa, me pendurei em um galho de árvore calculando a queda - em pé - sobre o guidom de uma Salvador bike, rastejei sobre uma tela plástica e escalei uma metálica. Houve alguns lances de corpo-a-corpo, particularidade do parkour soteropolitano, esse parkour-maroto, parkour-arte. Nessas horas, apesar dos choques contundentes e do conseqüente intercâmbio de suor, o que prevalece é a camaradagem do esporte (se bem que eu posso ter sido xingada de maluca alucinada por um ou outro passante, evidentemente desprovido de espírito esportivo).
Cheguei ao Cristo feliz, energizada, e com escoriações leves.
Segui correndo até o Rio Vermelho, mas a adrenalina já não estava à flor da pele. Intuo que a administração pública tenha isso em mente, e portanto esteja testando alternativas itinerantes de entretenimento à beira-mar. Na altura do Morro do Gato, três motos da PM cobriam a pista de ponta a ponta, cada qual tripulada por dois GI Joes, trabalhando na retenção do tráfego sem motivo aparente. Na minha frente, caminhava um cidadão de bermuda florida Richard's, boné e óculos escuros, acompanhado por duas belas moças sorridentes. Ao avistarem o trio, as motos ativaram brevemente a sirene, e fizeram uma manobra arrojada a fim de atravessar a pista. Dois meninos que casualmente passavam por ali de bicicleta lançaram-se ao chão no ato, aterrorizados, com as mãos na cabeça e repetindo que as magrelas haviam sido presenteadas pela mãe. Judiaria, nem era com eles: a comitiva só queria beijar, ops, apertar a mão do senhor à minha frente, que intuo fosse coronel, político ou pastor. Pegadinha da PM! Esses rapazes são mesmo impossíveis...!
Chegando a Ondina, onde costumo parar pra beber o côco do Lula, transcorria mais uma ação tipicamente local: mini-trio-elétrico-evangélico-
Fico extasiada com a criatividade, com o poder de gerar alegria e com a qualidade de vida desta cidade. E que venha a Copa!
Apenas um porém: depois de tantas emoções, o resto de meu trajeto foi um verdadeiro tédio. A ver se outras partes da cidade ganharão a mesma atenção de nossa habilíssima administração pública
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