De segunda a sexta, no horário comercial, visto variações de short, camiseta, meias e havaianas. Não varia muito, na verdade.
Hoje, um domingo, de manhã cedo - chovia -, saí da cama para ir à
feira. Agora que tenho tempo, resolvi virar rata de feira orgânica e
cozinhar todos os dias pratos saudáveis, coloridos e perfumados. Virei
habitué do Parque da Água Branca e da feirinha do Ibira. Descobri o
significado das palavras catalônia e escarola. Sinto-me ótima.
Mas
voltando a hoje: vesti uma gabardine, tirei os copos de leite de dentro
das minhas belíssimas galochas, calcei-as e saí flanando pelas ruas
sobre a minha Berlinetta, imperturbável apesar dos pingos que insistiam
em atingir meus olhos e deixar meus cabelos iguais aos da Monica naquele
episódio de Barbados.
Na certa, todo motorista que passou por mim,
retornando da balada para um dia de dolorosa ressaca em casa, vendo
faustão, deve ter ficado admirado pela minha elegância sartorial
matutina.
Vi alguns corredores com números grudados nas camisetas
vindos da direção do parque. Supus que uma prova estivesse se encerrando
e fui em frente. Meu itinerário envolvia atravessar o Ibirapuera para
sair na rua da feira. Uma vez lá dentro, vi ainda mais competidores.
Muitos mesmo dessa vez. Evitei o portão onde a concentração parecia ser
maior, fiz um desvio para sair no seguinte. Desci da bici pra evitar um
atropelamento e segui. Logo constatei que TODAS AS PESSOAS que estavam
no parque naquele horário eram competidoras, e pareceram achar
estranhíssima aquela criatura de gabardine e bicicleta retrô zanzando
ali no meio com cara de parva. De natureba estilosa pra peixe fora
d'água em tempo recorde.
Logo percebi que meu desvio não fora boa
ideia. A multidão só aumentava, e na verdade eu estava andando
precisamente em direção à pista de corrida. Subestimei a competição,
acreditando que do portão para fora eu estaria livre e a salvo, mas o
locutor do evento logo fez o favor de informar que estávamos na MAIOR
MARATONA DE REVEZAMENTO DA AMÉRICA LATINA. A avenida estava toda
bloqueada para os atletas, com aquelas grades separadoras se estendendo
até onde meus olhos podiam enxergar. A única forma de atravessar seria
por uma passarela cujo acesso era uma longa escadaria, evidentemente
tomada por um povo colorido e numerado que exalava endorfina e
carboidrato em gel.
Que jeito? Botei a Berlinetta no ombro e subi,
arfando a partir do 5º degrau, sujando de lama minhas coxas e minha capa
de Inspetor Bugiganga, trombando nos transeuntes com meus pedais e
recusando educadamente toda a ajuda oferecida por gente solidária (ou só
mortificada com a minha inadequação e o meu sacrifício, mesmo).
Cheguei ao outro lado, no canteiro central da Pedro Álvares Cabral, e
DE-SES-PE-RO: as tais grades estavam literalmente por tudo, eu não via
saída. Estava, mais uma vez, ENCURRALADA. Pensei nos meus momentos de
angústia trancada no banheiro dias atrás e lá busquei forças pra me
desvencilhar de mais essa armadilha do destino. Hesitei, mas não teve
jeito: arredei uma grade e atravessei a pista principal, correndo e
empurrando a magrela, tomando todo o cuidado pra não atrapalhar os
corredores (a essas alturas, eu já devia ser a suspeita nº 1 pra suceder
aquele padre irlandês maluco que esmagou o sonho do Vanderlei Cordeiro
na Olimpíada de Atenas. Minha indumentária parecia no mínimo tão
ameaçadora quanto a dele).
Consegui, enfim. Liberdade, ainda que
tardia. Finalmente, eu faria minha feira. Pedalei tranquila enquanto
meus batimentos cardíacos voltavam ao ritmo normal, fiz uma lista mental
de beterraba, agrião, couve-flor, ovos felizes, tralalá, quase lá e... A
FEIRA - EXCEPCIONALMENTE - NÃO ESTARIA ACONTECENDO NO DIA DE HOJE. Quis
sentar no meio fio e chorar um pouco, sabe?
Mas engoli o choro e fui até a B.LEM comer um pastel de feijão.
Senti-me ótima, enfim.
domingo, 21 de setembro de 2014
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
Aquele sobre sonhos, que eu fui buscar no Purfa
a interpretação dos sonhos
Não sou muito de sonhar. Raramente lembro o que sonhei, e quando lembro, normalmente vêm imagens desconexas, desprovidas de sentido; penso nelas ao acordar, mas enquanto leio o jornal tomando café, já esqueci...
Nos últimos dias, isso mudou: à noite, meu cérebro tem produzido historinhas cheias de simbolismo, e eu tenho trocado as palavras cruzadas matinais pela decifragem do meu universo onírico, subitamente enriquecido!
Hoje mesmo, acordei me lembrando de tudo: eu passava um tempo em uma prainha bem primitiva, paradisíaca, com um grupo. Um sujeito desse grupo era um poço de arrogância, um desses urbanóides multiconectados e hiperconsumistas, que se sentia muito superior àquele lugar e às pessoas simples que viviam ali. Era um cara hostil, e atacava um local com deboches, xingamentos e bolinhos de areia (sim, bolinhos de areia, oras). O local, que não era bobo, revidou e saiu a tocar muita areia na nossa casa. Eu, que estava na varanda, fui praticamente soterrada, mas em vez de entrar na guerra de bolinhos, fui falar com o meu colega boçal, que a essas alturas estava bem alterado, com muitas facas nas mãos, os olhos arregalados, injetados de sangue, um horror. Eu falava e ele ia apontando facas pro meu pescoço, mas eu continuava falando, irreconhecivelmente diplomática. Meu discurso era bonitinho, politicamente correto, falava de respeito, das virtudes daquele lugar, daquelas pessoas, da simplicidade. Corta. Pula pra uma cena em que eu acordo, na mesma prainha. Agora já não é mais uma viagem, eu me tornei moradora. Na mesma cama, dormindo comigo, um ex-namorado com quem eu um dia fiz planos na linha de "um amor e uma cabana". Na vida real, esses planos e mais uma série de coisas me encheram de aflição e eu encerrei a história de uma hora pra outra. No sonho, eu paguei pra ver, e ali estávamos, nós e nossa cabana. E a mesma aflição de alguns anos atrás. É como se eu finalmente enxergasse o que poderia ter sido (coisa que muito especulei) e percebesse que não era aquilo que eu queria. O resto do sonho, basicamente, era eu chorando escondida em cenários de babar.
Abri os olhos e me pus a encaixar as peças: o seboso aquele? Era eu. Era meu lado roots, singelo, praiano, dialogando com o meu lado urbano, complexo, sofisticado e um tanto metido. Passei boa parte da minha vida pensando que teria que optar por uma margem do rio, e há pouco me convenci de que o legal é nadar livremente, e me deixar levar pela correnteza de vez em quando. É poder estar hoje no Rosa, de chinelo e biquíni, e amanhã em Londres, em uma cozinha estrelada, e achar as duas experiências igualmente deliciosas. Não à toa a conversa foi tranquila e positiva no sonho - no mundo concreto também imperou a harmonia, finalmente. A parte do meu amor do passado foi redentora: um aval sobre as escolhas que eu fiz. Não andava mais pensando nisso, mas alguma parte do meu subconsciente devia estar precisando desse "selo de garantia".
Esse foi só mais um de uma série de sonhos curiosos que eu ando tendo. No divã, ouvi que era característico dessa fase de finalização do tratamento (sim, estou a um passo da alta, e não é só porque eu vou me mudar pro outro lado do oceano!) sonhar, e nos sonhos ver muitas das conclusões às quais nós chegamos nos últimos anos. Faz sentido.
Também se compreende essa minha sanha interpretativa em dias de casa vazia e nostalgia à flor da pele. Tudo remete à partida, ao porvir, às memórias... Tudo isso é muito bom. Até chorar de saudades - reais ou antecipadas - é maravilhoso. É vida! Cada vez mais bonita.
Não sou muito de sonhar. Raramente lembro o que sonhei, e quando lembro, normalmente vêm imagens desconexas, desprovidas de sentido; penso nelas ao acordar, mas enquanto leio o jornal tomando café, já esqueci...
Nos últimos dias, isso mudou: à noite, meu cérebro tem produzido historinhas cheias de simbolismo, e eu tenho trocado as palavras cruzadas matinais pela decifragem do meu universo onírico, subitamente enriquecido!
Hoje mesmo, acordei me lembrando de tudo: eu passava um tempo em uma prainha bem primitiva, paradisíaca, com um grupo. Um sujeito desse grupo era um poço de arrogância, um desses urbanóides multiconectados e hiperconsumistas, que se sentia muito superior àquele lugar e às pessoas simples que viviam ali. Era um cara hostil, e atacava um local com deboches, xingamentos e bolinhos de areia (sim, bolinhos de areia, oras). O local, que não era bobo, revidou e saiu a tocar muita areia na nossa casa. Eu, que estava na varanda, fui praticamente soterrada, mas em vez de entrar na guerra de bolinhos, fui falar com o meu colega boçal, que a essas alturas estava bem alterado, com muitas facas nas mãos, os olhos arregalados, injetados de sangue, um horror. Eu falava e ele ia apontando facas pro meu pescoço, mas eu continuava falando, irreconhecivelmente diplomática. Meu discurso era bonitinho, politicamente correto, falava de respeito, das virtudes daquele lugar, daquelas pessoas, da simplicidade. Corta. Pula pra uma cena em que eu acordo, na mesma prainha. Agora já não é mais uma viagem, eu me tornei moradora. Na mesma cama, dormindo comigo, um ex-namorado com quem eu um dia fiz planos na linha de "um amor e uma cabana". Na vida real, esses planos e mais uma série de coisas me encheram de aflição e eu encerrei a história de uma hora pra outra. No sonho, eu paguei pra ver, e ali estávamos, nós e nossa cabana. E a mesma aflição de alguns anos atrás. É como se eu finalmente enxergasse o que poderia ter sido (coisa que muito especulei) e percebesse que não era aquilo que eu queria. O resto do sonho, basicamente, era eu chorando escondida em cenários de babar.
Abri os olhos e me pus a encaixar as peças: o seboso aquele? Era eu. Era meu lado roots, singelo, praiano, dialogando com o meu lado urbano, complexo, sofisticado e um tanto metido. Passei boa parte da minha vida pensando que teria que optar por uma margem do rio, e há pouco me convenci de que o legal é nadar livremente, e me deixar levar pela correnteza de vez em quando. É poder estar hoje no Rosa, de chinelo e biquíni, e amanhã em Londres, em uma cozinha estrelada, e achar as duas experiências igualmente deliciosas. Não à toa a conversa foi tranquila e positiva no sonho - no mundo concreto também imperou a harmonia, finalmente. A parte do meu amor do passado foi redentora: um aval sobre as escolhas que eu fiz. Não andava mais pensando nisso, mas alguma parte do meu subconsciente devia estar precisando desse "selo de garantia".
Esse foi só mais um de uma série de sonhos curiosos que eu ando tendo. No divã, ouvi que era característico dessa fase de finalização do tratamento (sim, estou a um passo da alta, e não é só porque eu vou me mudar pro outro lado do oceano!) sonhar, e nos sonhos ver muitas das conclusões às quais nós chegamos nos últimos anos. Faz sentido.
Também se compreende essa minha sanha interpretativa em dias de casa vazia e nostalgia à flor da pele. Tudo remete à partida, ao porvir, às memórias... Tudo isso é muito bom. Até chorar de saudades - reais ou antecipadas - é maravilhoso. É vida! Cada vez mais bonita.
Aquele sobre a aventura de correr na orla de Salvador durante as obras na Barra
Da
ladeira da Barra ao Cristo, quem corria, não corre mais: faz parkour.
Aquele esporte em que os atletas suam para percorrer a distância mais
difícil, inusitada e perigosa entre dois pontos tem tudo pra desbancar o
stand up paddle entre os amantes da endorfina que se exercitam nas
imediações da Baía de Todos os Santos.
Começa na altura do Yacht Club, onde é de bom tom estacionar possantes em cima da calçada, enfileirados e com a menor distância possível entre retrovisor e muro do cemitério. Iniciantes treinam o equilíbrio ao percorrer - sem morrer ou sofrer qualquer tipo de amputação - a fina linha entre o estacionamento improvisado e os ônibus que descem a ladeira como se fugissem da praga (todo motorista de ônibus em Salvador é um piloto de F1 frustrado. E quem não é?, penso eu ao ouvir o zunido de Ferraris que descem a mesma ladeira como se Monte Carlo fosse aqui).
A chegada ao Porto da Barra serve pra mostrar que tudo nessa vida é uma questão de perspectiva. Se no mês passado essa era a área mais apinhada e difícil de percorrer do trajeto, hoje não passa de zona de aquecimento para a corrida com obstáculos que se inicia na altura da curva do Hospital Português. Desviar dos habitués que andam trôpegos pelas calçadas, e contornar os dançarinos de ocasião que empinam a retaguarda ao som de Psiricos e assemelhados é fichinha. Ultrapassar a legião de ambulantes que vendem periguetes 3 por 5 é mo-le-za. The real deal começa mesmo logo à frente, onde as obras de revitalização da orla alteraram drasticamente trânsito, paisagem e hábitos da Barra.
Nos últimos metros que antecedem a pista de parkour, fica claro que a área agora é 100% health & fitness. Basta constatar que os dois estabelecimentos que antes lotavam nos dias ensolarados, especialmente no pôr-do-sol, oferecendo fartura de cervejinhas, caipirinhas, bolinhos fritos e vasta escolha de carne vermelha, hoje estão às moscas. Quem insistir em se refestelar nas gorduras saturadas e calorias vazias, que pelo menos tenha a vergonha na cara de caminhar até ali, já que estacionar na Barra is so last season...
O timing para o lançamento da pista esportiva não poderia ter sido melhor pensado: assim que as temperaturas começaram a cercar os 36 graus antes das 8 da manhã, e o sol deixou de dar trégua para dias nublados e chuvas aleatórias, a prefeitura inaugurou esse espaço alternativo. Simultaneamente, ativou os bicicletários do itaú, em sincronia suíça. O resultado não poderia ser diferente: a população soteropolitana de todos os bairros, de Amaralina às Cajazeiras, de Brotas a São Cristóvão, veio conhecer a estupenda inovação. Ou pelo menos é essa a impressão que se tem ao atravessar o trecho entre Hospital Português e Correios com um espaço que não chega a 2m para a circulação de pedestres, corredores, ambulantes e as benditas bicicletas cor-de-laranja.
Aqui, a nova elite do parkour nasce e cresce a olhos vistos, e eu me orgulho em fazer parte dela! Meu desempenho nesse feriadão tem sido impressionante: só ontem, pulei alternadamente as pedras de concreto que prendem ao chão as grades de isolamento da obra, dei uma cambalhota por baixo das mãos entrelaçadas de um casal, saltei um isopor de cerveja (em movimento), subi o parapeito do calçadão pra desviar de uma legião gringa, me pendurei em um galho de árvore calculando a queda - em pé - sobre o guidom de uma Salvador bike, rastejei sobre uma tela plástica e escalei uma metálica. Houve alguns lances de corpo-a-corpo, particularidade do parkour soteropolitano, esse parkour-maroto, parkour-arte. Nessas horas, apesar dos choques contundentes e do conseqüente intercâmbio de suor, o que prevalece é a camaradagem do esporte (se bem que eu posso ter sido xingada de maluca alucinada por um ou outro passante, evidentemente desprovido de espírito esportivo).
Cheguei ao Cristo feliz, energizada, e com escoriações leves.
Segui correndo até o Rio Vermelho, mas a adrenalina já não estava à flor da pele. Intuo que a administração pública tenha isso em mente, e portanto esteja testando alternativas itinerantes de entretenimento à beira-mar. Na altura do Morro do Gato, três motos da PM cobriam a pista de ponta a ponta, cada qual tripulada por dois GI Joes, trabalhando na retenção do tráfego sem motivo aparente. Na minha frente, caminhava um cidadão de bermuda florida Richard's, boné e óculos escuros, acompanhado por duas belas moças sorridentes. Ao avistarem o trio, as motos ativaram brevemente a sirene, e fizeram uma manobra arrojada a fim de atravessar a pista. Dois meninos que casualmente passavam por ali de bicicleta lançaram-se ao chão no ato, aterrorizados, com as mãos na cabeça e repetindo que as magrelas haviam sido presenteadas pela mãe. Judiaria, nem era com eles: a comitiva só queria beijar, ops, apertar a mão do senhor à minha frente, que intuo fosse coronel, político ou pastor. Pegadinha da PM! Esses rapazes são mesmo impossíveis...!
Chegando a Ondina, onde costumo parar pra beber o côco do Lula, transcorria mais uma ação tipicamente local: mini-trio-elétrico-evangélico- político.
Um vereador da cidade mobilizou carro de som, banda e fiéis para
espalhar a mensagem de que só Jesus salva. Assim ele se escusa de
resolver o que quer que seja, porque não é louco de interferir na seara
do todo-poderoso. Não é genial?
Fico extasiada com a criatividade, com o poder de gerar alegria e com a qualidade de vida desta cidade. E que venha a Copa!
Apenas um porém: depois de tantas emoções, o resto de meu trajeto foi um verdadeiro tédio. A ver se outras partes da cidade ganharão a mesma atenção de nossa habilíssima administração pública
Começa na altura do Yacht Club, onde é de bom tom estacionar possantes em cima da calçada, enfileirados e com a menor distância possível entre retrovisor e muro do cemitério. Iniciantes treinam o equilíbrio ao percorrer - sem morrer ou sofrer qualquer tipo de amputação - a fina linha entre o estacionamento improvisado e os ônibus que descem a ladeira como se fugissem da praga (todo motorista de ônibus em Salvador é um piloto de F1 frustrado. E quem não é?, penso eu ao ouvir o zunido de Ferraris que descem a mesma ladeira como se Monte Carlo fosse aqui).
A chegada ao Porto da Barra serve pra mostrar que tudo nessa vida é uma questão de perspectiva. Se no mês passado essa era a área mais apinhada e difícil de percorrer do trajeto, hoje não passa de zona de aquecimento para a corrida com obstáculos que se inicia na altura da curva do Hospital Português. Desviar dos habitués que andam trôpegos pelas calçadas, e contornar os dançarinos de ocasião que empinam a retaguarda ao som de Psiricos e assemelhados é fichinha. Ultrapassar a legião de ambulantes que vendem periguetes 3 por 5 é mo-le-za. The real deal começa mesmo logo à frente, onde as obras de revitalização da orla alteraram drasticamente trânsito, paisagem e hábitos da Barra.
Nos últimos metros que antecedem a pista de parkour, fica claro que a área agora é 100% health & fitness. Basta constatar que os dois estabelecimentos que antes lotavam nos dias ensolarados, especialmente no pôr-do-sol, oferecendo fartura de cervejinhas, caipirinhas, bolinhos fritos e vasta escolha de carne vermelha, hoje estão às moscas. Quem insistir em se refestelar nas gorduras saturadas e calorias vazias, que pelo menos tenha a vergonha na cara de caminhar até ali, já que estacionar na Barra is so last season...
O timing para o lançamento da pista esportiva não poderia ter sido melhor pensado: assim que as temperaturas começaram a cercar os 36 graus antes das 8 da manhã, e o sol deixou de dar trégua para dias nublados e chuvas aleatórias, a prefeitura inaugurou esse espaço alternativo. Simultaneamente, ativou os bicicletários do itaú, em sincronia suíça. O resultado não poderia ser diferente: a população soteropolitana de todos os bairros, de Amaralina às Cajazeiras, de Brotas a São Cristóvão, veio conhecer a estupenda inovação. Ou pelo menos é essa a impressão que se tem ao atravessar o trecho entre Hospital Português e Correios com um espaço que não chega a 2m para a circulação de pedestres, corredores, ambulantes e as benditas bicicletas cor-de-laranja.
Aqui, a nova elite do parkour nasce e cresce a olhos vistos, e eu me orgulho em fazer parte dela! Meu desempenho nesse feriadão tem sido impressionante: só ontem, pulei alternadamente as pedras de concreto que prendem ao chão as grades de isolamento da obra, dei uma cambalhota por baixo das mãos entrelaçadas de um casal, saltei um isopor de cerveja (em movimento), subi o parapeito do calçadão pra desviar de uma legião gringa, me pendurei em um galho de árvore calculando a queda - em pé - sobre o guidom de uma Salvador bike, rastejei sobre uma tela plástica e escalei uma metálica. Houve alguns lances de corpo-a-corpo, particularidade do parkour soteropolitano, esse parkour-maroto, parkour-arte. Nessas horas, apesar dos choques contundentes e do conseqüente intercâmbio de suor, o que prevalece é a camaradagem do esporte (se bem que eu posso ter sido xingada de maluca alucinada por um ou outro passante, evidentemente desprovido de espírito esportivo).
Cheguei ao Cristo feliz, energizada, e com escoriações leves.
Segui correndo até o Rio Vermelho, mas a adrenalina já não estava à flor da pele. Intuo que a administração pública tenha isso em mente, e portanto esteja testando alternativas itinerantes de entretenimento à beira-mar. Na altura do Morro do Gato, três motos da PM cobriam a pista de ponta a ponta, cada qual tripulada por dois GI Joes, trabalhando na retenção do tráfego sem motivo aparente. Na minha frente, caminhava um cidadão de bermuda florida Richard's, boné e óculos escuros, acompanhado por duas belas moças sorridentes. Ao avistarem o trio, as motos ativaram brevemente a sirene, e fizeram uma manobra arrojada a fim de atravessar a pista. Dois meninos que casualmente passavam por ali de bicicleta lançaram-se ao chão no ato, aterrorizados, com as mãos na cabeça e repetindo que as magrelas haviam sido presenteadas pela mãe. Judiaria, nem era com eles: a comitiva só queria beijar, ops, apertar a mão do senhor à minha frente, que intuo fosse coronel, político ou pastor. Pegadinha da PM! Esses rapazes são mesmo impossíveis...!
Chegando a Ondina, onde costumo parar pra beber o côco do Lula, transcorria mais uma ação tipicamente local: mini-trio-elétrico-evangélico-
Fico extasiada com a criatividade, com o poder de gerar alegria e com a qualidade de vida desta cidade. E que venha a Copa!
Apenas um porém: depois de tantas emoções, o resto de meu trajeto foi um verdadeiro tédio. A ver se outras partes da cidade ganharão a mesma atenção de nossa habilíssima administração pública
Aquele sobre racismo e dia da consciência negra
20 de novembro, dia da consciência negra, e minha quarta-feira foi uma parábola da ironia brasileira.
Fui de Salvador a São Paulo em um bate-e-volta. O motivo: um evento agitado por uma marca baiana de moda, onde a marca – também baiana – de chocolates com a qual eu trabalho fez uma participação. A função rolou na Oscar Freire, começando à tardinha e se esticando noite adentro.
Quando atinei que o feriado em São Paulo era devido a essa data específica, fiquei contrariada, com um misto de desconforto e culpa que me é familiar desde que a Bahia passou a ser minha casa. Em Salvador, uma das cidades mais negras do Brasil (se não a mais, não tenho esse dado), não foi feriado, enquanto que boa parte do sudeste parou por conta da memória de Zumbi dos Palmares.
Queria poder dizer que isso se deve ao fato de na minha atual cidade, a consciência negra ser tão desenvolvida e atuante, que a existência de uma data específica para celebrá-la seja uma redundância desnecessária, mas não posso forçar essa barra.
Logo que vim morar aqui, fui à Lavagem do Bonfim e me emocionei com o sincretismo entre os ritos católicos e africanos. Vi gente de todas as cores e classes caminhando lado a lado, dando as mãos, vestindo branco. Conheci brancos adeptos fervorosos do Candomblé, e acreditei que em todo o resto, para além da religião, a sociedade daqui fosse inclusiva, misturada, aberta. Não como duas culturas comunicantes, mas como uma cultura una, fruto de uma convivência histórica entre brancos e negros, já livres dos descalabros da escravidão e da pós-escravidão, que marcaram a infância do Brasil.
Não demorei muito a perceber o engano. Salvador segrega de forma explícita, cotidiana e socialmente aceita. No dia-a-dia, os passageiros espremidos dentro dos ônibus lotados são negros, assim como o motorista e o cobrador. Dentro dos carros, confortavelmente instalados, com ar-condicionado, vidros fechados, e no mais das vezes, sozinhos, uma esmagadora minoria branca. Na Bahia Marina, reduto soteropolitano para a elite que busca ver e ser vista, maîtres, garçons, cozinheiros, manobristas, faxineiros e babás uniformizadas (ugh!) são negros, com raríssimas exceções. Clientes nas mesas, com suas camisas cheias de números e escudos, com seus vestidos decotados e saltos vertiginosos, com seus óculos, relógios e joias reluzentes, com seus carros importados estacionados, esses são brancos, com exceções ainda mais raras. No Carnaval, quando os trios passam e são seguidos pela multidão, corredores brancos se formam, isolados pela (cretiníssima) corda. Do lado de fora, a pipoca é negra, e pula, e dança, mesmo que rechaçada por aqueles que não entendem o espírito de uma festa popular e democrática. As favelas são negras. A Vitória é branca. O Porto da Barra é negro. O Yacht Club é branco. O presídio é negro. As secretarias de governo são brancas. 80% da população é negra. 20% é branca.
Corta pro Brasil: no avião, na ida, li uma revista, dentre tantas na banca que anunciavam o que está na moda, o que é tendência, quem dá as cartas. A que eu escolhi, especificamente, se auto define como “registro geral do que interessa”. Páginas recheadas de “it pessoas”, criativas, empreendedoras, lindas, ricas. Contei o número de negros retratados: 3. Um deles, o filho do Amarildo, menino bonito com uma história triste, que pode mudar sua sorte por meio da carreira de modelo. Outra era a cantora americana Ciara em uma festa fora do país. E a terceira era uma modelo em anúncio de marca de óculos escuros. Três pessoas em centenas: uma com a chance de escapar da marginalização graças à beleza física; outra estrangeira e fotografada fora do Brasil; a última vendendo óculos escuros, sem passar qualquer mensagem significativa. Nenhuma em matéria de página inteira. Nenhuma nas fotos de eventos sociais disputados. Arrisco dizer que nenhuma também no time à frente da publicação.
No tal evento que justificou minha curta viagem, vi muita gente bonita e descolada, obras de arte, performances, roupas estilosas, música, chocolates. Fico animada quando uma função armada por baianos foge totalmente aos estereótipos da Bahia – que são tantos, e tão lamentavelmente reforçados pra onde quer que o turista olhe quando chega por aqui. Tenho a sorte de trabalhar em uma empresa totalmente fora desse padrão, e interagir com gente que faz moda/gastronomia/arte de uma forma diferente, com orgulho de ser baiano e fugindo do lugar comum. Vida longa aos fora da caixa de todas as querências! Mas diante do contexto da data e das minhas divagações ao longo da jornada, não posso deixar de observar que esse pessoal antenado e bem sucedido, que escreve a própria história e mostra a Bahia cool e moderna também teima em ser majoritariamente branco.
Falando em estereótipos, e constatando que não é só na Bahia que eles são constantemente reforçados, hoje li esse texto http://www.blogdomael.blog.br/2013/08/o-esquenta-o-programa-mais-racista-da.html, compartilhado por um amigo aqui no facebook. Escrito por um autor negro, aponta como um programa líder de audiência, na emissora mais assistida do país, presta um desserviço ao manter o negro exatamente nos papéis esperados e perpetuados pela sociedade, achando isso lindo e convencendo milhões de telespectadores. Não vejo o tal programa, mas não precisa assistir a um inteiro pra constatar que o autor do texto acerta na mosca.
Ironia é um recurso que eu aprecio, e do qual me utilizo com freqüência como recurso de linguagem. Mas essa variedade que acomete nosso país inteiro há séculos não tem a menor graça. Incomoda e faz pensar.
Fui de Salvador a São Paulo em um bate-e-volta. O motivo: um evento agitado por uma marca baiana de moda, onde a marca – também baiana – de chocolates com a qual eu trabalho fez uma participação. A função rolou na Oscar Freire, começando à tardinha e se esticando noite adentro.
Quando atinei que o feriado em São Paulo era devido a essa data específica, fiquei contrariada, com um misto de desconforto e culpa que me é familiar desde que a Bahia passou a ser minha casa. Em Salvador, uma das cidades mais negras do Brasil (se não a mais, não tenho esse dado), não foi feriado, enquanto que boa parte do sudeste parou por conta da memória de Zumbi dos Palmares.
Queria poder dizer que isso se deve ao fato de na minha atual cidade, a consciência negra ser tão desenvolvida e atuante, que a existência de uma data específica para celebrá-la seja uma redundância desnecessária, mas não posso forçar essa barra.
Logo que vim morar aqui, fui à Lavagem do Bonfim e me emocionei com o sincretismo entre os ritos católicos e africanos. Vi gente de todas as cores e classes caminhando lado a lado, dando as mãos, vestindo branco. Conheci brancos adeptos fervorosos do Candomblé, e acreditei que em todo o resto, para além da religião, a sociedade daqui fosse inclusiva, misturada, aberta. Não como duas culturas comunicantes, mas como uma cultura una, fruto de uma convivência histórica entre brancos e negros, já livres dos descalabros da escravidão e da pós-escravidão, que marcaram a infância do Brasil.
Não demorei muito a perceber o engano. Salvador segrega de forma explícita, cotidiana e socialmente aceita. No dia-a-dia, os passageiros espremidos dentro dos ônibus lotados são negros, assim como o motorista e o cobrador. Dentro dos carros, confortavelmente instalados, com ar-condicionado, vidros fechados, e no mais das vezes, sozinhos, uma esmagadora minoria branca. Na Bahia Marina, reduto soteropolitano para a elite que busca ver e ser vista, maîtres, garçons, cozinheiros, manobristas, faxineiros e babás uniformizadas (ugh!) são negros, com raríssimas exceções. Clientes nas mesas, com suas camisas cheias de números e escudos, com seus vestidos decotados e saltos vertiginosos, com seus óculos, relógios e joias reluzentes, com seus carros importados estacionados, esses são brancos, com exceções ainda mais raras. No Carnaval, quando os trios passam e são seguidos pela multidão, corredores brancos se formam, isolados pela (cretiníssima) corda. Do lado de fora, a pipoca é negra, e pula, e dança, mesmo que rechaçada por aqueles que não entendem o espírito de uma festa popular e democrática. As favelas são negras. A Vitória é branca. O Porto da Barra é negro. O Yacht Club é branco. O presídio é negro. As secretarias de governo são brancas. 80% da população é negra. 20% é branca.
Corta pro Brasil: no avião, na ida, li uma revista, dentre tantas na banca que anunciavam o que está na moda, o que é tendência, quem dá as cartas. A que eu escolhi, especificamente, se auto define como “registro geral do que interessa”. Páginas recheadas de “it pessoas”, criativas, empreendedoras, lindas, ricas. Contei o número de negros retratados: 3. Um deles, o filho do Amarildo, menino bonito com uma história triste, que pode mudar sua sorte por meio da carreira de modelo. Outra era a cantora americana Ciara em uma festa fora do país. E a terceira era uma modelo em anúncio de marca de óculos escuros. Três pessoas em centenas: uma com a chance de escapar da marginalização graças à beleza física; outra estrangeira e fotografada fora do Brasil; a última vendendo óculos escuros, sem passar qualquer mensagem significativa. Nenhuma em matéria de página inteira. Nenhuma nas fotos de eventos sociais disputados. Arrisco dizer que nenhuma também no time à frente da publicação.
No tal evento que justificou minha curta viagem, vi muita gente bonita e descolada, obras de arte, performances, roupas estilosas, música, chocolates. Fico animada quando uma função armada por baianos foge totalmente aos estereótipos da Bahia – que são tantos, e tão lamentavelmente reforçados pra onde quer que o turista olhe quando chega por aqui. Tenho a sorte de trabalhar em uma empresa totalmente fora desse padrão, e interagir com gente que faz moda/gastronomia/arte de uma forma diferente, com orgulho de ser baiano e fugindo do lugar comum. Vida longa aos fora da caixa de todas as querências! Mas diante do contexto da data e das minhas divagações ao longo da jornada, não posso deixar de observar que esse pessoal antenado e bem sucedido, que escreve a própria história e mostra a Bahia cool e moderna também teima em ser majoritariamente branco.
Falando em estereótipos, e constatando que não é só na Bahia que eles são constantemente reforçados, hoje li esse texto http://www.blogdomael.blog.br/2013/08/o-esquenta-o-programa-mais-racista-da.html, compartilhado por um amigo aqui no facebook. Escrito por um autor negro, aponta como um programa líder de audiência, na emissora mais assistida do país, presta um desserviço ao manter o negro exatamente nos papéis esperados e perpetuados pela sociedade, achando isso lindo e convencendo milhões de telespectadores. Não vejo o tal programa, mas não precisa assistir a um inteiro pra constatar que o autor do texto acerta na mosca.
Ironia é um recurso que eu aprecio, e do qual me utilizo com freqüência como recurso de linguagem. Mas essa variedade que acomete nosso país inteiro há séculos não tem a menor graça. Incomoda e faz pensar.
Aquele sobre raiva ser uma coisa boa
Anger management
Me digam se eu sou muito amarga por revirar os olhos (e o estômago) toda vez que alguém:
A) usa a expressão "muito amor" pra descrever qualquer coisa/situação/pessoa/comida;
B) comenta fotografias de mulheres, bebês e cachorros com "linda(o)" (ou "lindaaaaa(oooo)", ou "liiiinda(o)", ou "liiiiindaaaaa(oooo)!!!!!") depois de 7369 pessoas terem escrito exatamente a mesma coisa nos comentários anteriores;
C) se comunica com amigos usando exclusivamente palavras gentis, carinhosas e por vezes místicas, sem nenhuma sacanagenzinha no meio, mandando beijos de luz e fazendo coraçãozinho com a mão na despedida.
Sinto uma banalização de termos que me são caros, como amor e beleza (resultado da preguiça de se pensar em coisa mais interessante pra se dizer combinada à incapacidade absoluta de simplesmente não dizer nada), e como efeito colateral, uma aparente resolução coletiva de abafar o que há de não tão meigo, belo e cheio de frufrus dentro de nós mesmos.
Na condição de pavio historicamente curto, me sinto pessoalmente discriminada pela marginalização da raiva nesse contexto. Gente, raiva pode ser uma coisa boa, desde que compreendida e sabiamente empregada. É como o vento: uma ventorreia constante em dia de sol e praia torra a paciência de qualquer um, assim como um tufão violento gera caos e devastação que ninguém em sã consciência desejaria. Mas um pé de vento ocasional, que levante as folhas secas do chão, ou um minuano moderado que faça baterem as portas e janelas, isso só faz bem e é parte da natureza.
A raiva também é inerentemente humana, não deve ser ignorada, silenciada, e muito menos descartada como emoção de segunda classe. Claro que uma carranca constante é um pé no saco de qualquer um que conviva com o carrancudo em questão, mas não confunda raiva com mau humor. Uma criatura que ande com um taco de beisebol no carro e quebre os vidros de todo carro que lhe feche no trânsito tampouco é o tipo de amigo que todos queremos ter, mas hey, raiva e ataque histérico são coisas bem diferentes.
Falo da raiva que leva a cidadã de bem a mandar a puta que pariu o vizinho que ouve arrocha no último volume no sábado de manhã. Aquela raivinha que justifica um xingamento audível às pessoas que jogam lixo no chão e mijam nos muros das calçadas, infestando a cidade com fedor e imundície. A ira por trás de uma colocação direta e levemente agressiva no meio de uma conversa em que o interlocutor está claramente a fim de te enrolar. Esse tipo de coisa, sabe?
Só vejo vantagens. Falta clareza e honestidade nas comunicações. Todo mundo se esforça ao máximo pra ser fofo e querido sempre, e é impossível que todo mundo se sinta assim sempre. Além de não ser real e fazer todas as situações da vida parecerem o enredo de um episódio de ursinhos carinhosos, é chato pra caralho. Nesse mundo, sempre que eu falo um palavrão ou demonstro que não curti o que quer que seja, sou vista como uma leprosa, ou alguém que está a anos-luz de atingir a iluminação. Eu não quero atingir a porra da iluminação. Não foi isso que o Buda atingiu sentado debaixo da árvore e se alimentando de um grão de arroz por dia? Deus me livre! Eu amo a vida terrena, os prazeres mundanos, os vícios e virtudes da humanidade. Eu amo MUITO bacon (e cachaça), não peço desculpas por isso, e se não viro vegetariana/macrobiótica, não é por fraqueza, mas porque não vejo sentido algum em me privar do que me dá prazer. Pela mesma razão, me encanta tudo o que é humano, cru e verdadeiro, incluindo a raiva e seu poder de destruir para recriar, abalar o status quo, provocar mudança e rebuliço.
Sério mesmo, me digam se eu sou muito amarga por pensar assim. Não que isso vá fazer alguma diferença, claro.
Me digam se eu sou muito amarga por revirar os olhos (e o estômago) toda vez que alguém:
A) usa a expressão "muito amor" pra descrever qualquer coisa/situação/pessoa/comida;
B) comenta fotografias de mulheres, bebês e cachorros com "linda(o)" (ou "lindaaaaa(oooo)", ou "liiiinda(o)", ou "liiiiindaaaaa(oooo)!!!!!") depois de 7369 pessoas terem escrito exatamente a mesma coisa nos comentários anteriores;
C) se comunica com amigos usando exclusivamente palavras gentis, carinhosas e por vezes místicas, sem nenhuma sacanagenzinha no meio, mandando beijos de luz e fazendo coraçãozinho com a mão na despedida.
Sinto uma banalização de termos que me são caros, como amor e beleza (resultado da preguiça de se pensar em coisa mais interessante pra se dizer combinada à incapacidade absoluta de simplesmente não dizer nada), e como efeito colateral, uma aparente resolução coletiva de abafar o que há de não tão meigo, belo e cheio de frufrus dentro de nós mesmos.
Na condição de pavio historicamente curto, me sinto pessoalmente discriminada pela marginalização da raiva nesse contexto. Gente, raiva pode ser uma coisa boa, desde que compreendida e sabiamente empregada. É como o vento: uma ventorreia constante em dia de sol e praia torra a paciência de qualquer um, assim como um tufão violento gera caos e devastação que ninguém em sã consciência desejaria. Mas um pé de vento ocasional, que levante as folhas secas do chão, ou um minuano moderado que faça baterem as portas e janelas, isso só faz bem e é parte da natureza.
A raiva também é inerentemente humana, não deve ser ignorada, silenciada, e muito menos descartada como emoção de segunda classe. Claro que uma carranca constante é um pé no saco de qualquer um que conviva com o carrancudo em questão, mas não confunda raiva com mau humor. Uma criatura que ande com um taco de beisebol no carro e quebre os vidros de todo carro que lhe feche no trânsito tampouco é o tipo de amigo que todos queremos ter, mas hey, raiva e ataque histérico são coisas bem diferentes.
Falo da raiva que leva a cidadã de bem a mandar a puta que pariu o vizinho que ouve arrocha no último volume no sábado de manhã. Aquela raivinha que justifica um xingamento audível às pessoas que jogam lixo no chão e mijam nos muros das calçadas, infestando a cidade com fedor e imundície. A ira por trás de uma colocação direta e levemente agressiva no meio de uma conversa em que o interlocutor está claramente a fim de te enrolar. Esse tipo de coisa, sabe?
Só vejo vantagens. Falta clareza e honestidade nas comunicações. Todo mundo se esforça ao máximo pra ser fofo e querido sempre, e é impossível que todo mundo se sinta assim sempre. Além de não ser real e fazer todas as situações da vida parecerem o enredo de um episódio de ursinhos carinhosos, é chato pra caralho. Nesse mundo, sempre que eu falo um palavrão ou demonstro que não curti o que quer que seja, sou vista como uma leprosa, ou alguém que está a anos-luz de atingir a iluminação. Eu não quero atingir a porra da iluminação. Não foi isso que o Buda atingiu sentado debaixo da árvore e se alimentando de um grão de arroz por dia? Deus me livre! Eu amo a vida terrena, os prazeres mundanos, os vícios e virtudes da humanidade. Eu amo MUITO bacon (e cachaça), não peço desculpas por isso, e se não viro vegetariana/macrobiótica, não é por fraqueza, mas porque não vejo sentido algum em me privar do que me dá prazer. Pela mesma razão, me encanta tudo o que é humano, cru e verdadeiro, incluindo a raiva e seu poder de destruir para recriar, abalar o status quo, provocar mudança e rebuliço.
Sério mesmo, me digam se eu sou muito amarga por pensar assim. Não que isso vá fazer alguma diferença, claro.
Aquele sobre o coxinha new age
Fala-se
muito na crise do macho. Com as mulheres galgando posições
(profissionais, intelectuais, sociais, sexuais) em ritmo cada vez mais
veloz, os homens estariam em conflito, sem saber direito como se
conduzir neste mundo em mutação.
Um produto dessa crise é o coxinha new age, espécie que se multiplica nas grandes cidades. O coxinha new age, à primeira vista, parece um coxinha convencional, desses que abundam desde sempre em cidades como Nova York, São Paulo e Porto Alegre (pra citar só algumas): veste-se com as melhores labels (o que não implica dizer que se vista bem, atenção!); só escolhe lugares badalados (e faz a mais absoluta questão de pagar a conta); no mais das vezes é empreendedor e dono do próprio negócio (já leu tudo o que foi publicado sobre a família Rockfeller e declama trechos de "Sonho Grande") e tem uma necessaire maior do que a de muita miss.
Intimamente, porém, o coxinha new age sabe que se destaca de seu grupo de amigos, já que atingiu a iluminação, aprendendo que é possível ser coxinha e buscar o nirvana concomitantemente, sem que uma coisa exclua a outra. Ele encontrou a chave que dá acesso ao melhor dos dois mundos: ter todas as roupas e gadgets da última edição da GQ sem ser um boçal completo, e meditar por três meses em um ashram na Índia sem precisar andar de sandálias de couro, ecobag e barba de 3 semanas. Ele ouviu a voz que dizia: "Você pode ser o monge E o executivo!" E respondeu: "Yes, I can!"
Com toda essa bagagem, o coxinha sabe-se um partido ainda melhor do que ele já era nos tempos de just-coxinha. Tem a certeza de que qualquer mulher que cruze seu caminho será uma mulher de sorte, mesmo que passe com ele apenas uns breves instantes. Acredita que as it girls dos Jardins (ou do Moinhos de Vento, tanto faz) não perdem por esperar para conhecer esse combo em forma de golden boy espiritualizado.
Acontece que nem todas as mulheres estão preparadas para tamanha revolução. Tomemos como exemplo esta que vos escreve: sou uma mulher muito estranha ao universo do coxinha new age, faço esse mea culpa. Não vou à manicure há nem sei quanto tempo, nunca adquiri um secador de cabelo, tô pouco ligando pra grifes, como gordura animal sem parcimônia e detesto bebida doce. Por outro lado, não disponho de muito conteúdo metafísico, e tendo a embasar meus valores (e vícios) no fato de ser humana mesmo, sem muito mistério.
Agora o desajuste realmente perturbador: sou casada e assim pretendo continuar, mas saio com caras que não sejam o meu marido por acreditar, de verdade, que homens e mulheres podem ser amigos e se divertir juntos, sem que isso leve a sexo. Muito louco, né? Eu sei, mas sou assim e tenho bons amigos que insistem em me provar que eu devo sustentar esse delírio, além de um marido zero machista que não me enche o saco com ciúme besta.
Quando saio com meus amigos, rio, falo besteira, como, bebo, como gente normal. Como eles fazem com os outros amigos deles, e eu faço com minhas outras amigas. Mas devo confessar que entre as minhas amizades, o coxinha new age é um tipo exótico (como um pavão, só pra dar um exemplo), que merece cuidados especiais e toda uma cerimônia diferente.
Aprendi isso esses dias. Convidei um conhecido que se encaixa em toda a ficha técnica descrita acima pra gente se ver. Estou em São Paulo a trabalho, como estava quando conheci este senhor em NY. Soube pelo instagram que ele estava na cidade, e quis a companhia dele pra sair, rir, comer, beber e falar besteira. Co-mo gen-te nor-mal.
Ele sugeriu um restaurante desses que alguns paulistanos adoram pelo simples fato de ser franquia de uma casa nova-iorquina. Eu quis um lugar que tivesse porco no cardápio. Minha escolha venceu, yay.
Ele pediu um prato minimalista com agriões e mandioquinha. Eu pedi pé de... bem, porco. Eu ri um pouquinho dessa disparidade, me processem. Ele ficou puto com o garçom mal humorado que nos atendeu, mas em retrospecto, acho que não gostou foi da minha brincadeira. Ele pagou a conta toda quando eu fui ao banheiro. Eu fiquei constrangida com isso, porque sempre me vem à mente nessas horas o ditado ancestral que diz: Não existe almoço grátis. Jantar, muito menos.
Ele quis ir a um bar depois. Um daqueles lugares onde a hostess scaneia as pessoas na fila com o olhar, onde a carta de bebidas começa em R$30 e onde o Kanye West toparia gravar um clipe misógino e ostentador. (Pausa: gostei do bar. Lugar bonito, música boa, coquetelaria decente. Apenas digo que era um lugar posh-coxinha, nada de errado nisso. Pronto, podemos retomar.) Pedi um negroni, ele pediu green elyx, uma bebida com gosto de xampu infantil de maçã verde. Ri mais um pouquinho do paladar do cavalheiro.
É, talvez ele realmente não tenha gostado do meu senso de humor nessa noite. Foi ficando esquisito, um pouco agressivo nas palavras, o clima pesou. Falei que não estava gostando do rumo da prosa e que achava melhor a gente ir embora. Peguei os cartões de consumação para dessa vez, eu pagar a conta, mas ele arrancou os dois da minha mão e saiu enfurecido. Olhei em volta, só vi garçons e barmen, nenhum cliente restava. Esperei um pouquinho, mas o moço não voltava. Comecei a acreditar que ele pudesse ter ido embora e me deixado ali. De brabo, de bebum, de sei lá o quê. Nem me importei muito, pensei: amanhã ele liga sem lembrar direito o que se passou, a gente ri e fica tudo certo, sem stress, melhor assim, vou andando. E saí a pé pela rua escura, sozinha. Era perto de onde eu estou hospedada.
Chegando na porta, recebo uma ligação raivosa, de um homem com seu orgulho ferido por ter sido deixado pra trás diante de vários garçons e seguranças, que riram da cara dele, judiação! Me xingou das maiores baixarias que eu já ouvi nessa vida. Espumando de ira. E cobrando a $ que gastou pagando as duas contas, claro, porque eu mostrei ser um péssimo investimento. Pergunta se levou em consideração minha explicação (sim, me prestei a explicar pra esse ogro disfarçado!) de que eu julguei ter sido deixada sozinha naquele bar cheio de homens, e que por conta disso tinha caminhado - sozinha! - por uma rua deserta, e que nem por isso estava dando faniquito histérico. O chiliquento não quis saber, a honra dele fora abalada e "eu não merecia mais o respeito" que ele nutria por mim. Poxa, que grande perda, eu tinha conquistado o respeito dessa alma superior, e agora perdia, jogava no lixo essa alta honraria merecida por tão poucos.
Fiquei entre pasma, magoada e compadecida. Apesar do meu notório pavio curto, tentei apaziguar de todas as formas, e não revidei nenhuma ofensa. Já tive brigas homéricas nessa vida, mas sempre com gente que eu conhecia bem. Ou no trânsito. Nunca uma pessoa com quem eu havia estado duas vezes apenas. Nesses casos, sentindo qualquer dissonância, sempre achei que o justo era cada um tomar seu rumo e romper-se o contato. Me assustei quado o discípulo de Richard Branson/Gandhi se comportou como um homem das cavernas tomado pelo ódio.
Logo senti pena, no minuto em que entendi a crise do macho tão devastadora e tristemente corriqueira em nossos dias: eu escolhi o restaurante. Eu pedi o prato e a bebida de adulto. Eu não dou a mínima pro fato de ele ter grana. Eu não criei caso por conta do desentendimento no bar. Eu saí de cena discretamente. Eu não estava atrás de romance, nem de alguém que pagasse minha conta, só queria me divertir. Que tipo de protagonismo restou pra ele? Só passar o cartão. Se eu tivesse percebido antes que era tudo um jogo de poder, teria ficado em casa vendo Amor à Vida e comendo um sanduba.
No dia seguinte, apaguei as mensagens grotescas, e com isso apaguei também os dados bancários do rapaz. Coxinha new age, se você estiver lendo, mande de novo o número da conta, por favor. Faço questão de lhe ressarcir. Isso se minha fama de sirigaita caloteira já não estiver na boca do povo, claro, porque se for esse o caso, não pagarei nem um centavo.
Um produto dessa crise é o coxinha new age, espécie que se multiplica nas grandes cidades. O coxinha new age, à primeira vista, parece um coxinha convencional, desses que abundam desde sempre em cidades como Nova York, São Paulo e Porto Alegre (pra citar só algumas): veste-se com as melhores labels (o que não implica dizer que se vista bem, atenção!); só escolhe lugares badalados (e faz a mais absoluta questão de pagar a conta); no mais das vezes é empreendedor e dono do próprio negócio (já leu tudo o que foi publicado sobre a família Rockfeller e declama trechos de "Sonho Grande") e tem uma necessaire maior do que a de muita miss.
Intimamente, porém, o coxinha new age sabe que se destaca de seu grupo de amigos, já que atingiu a iluminação, aprendendo que é possível ser coxinha e buscar o nirvana concomitantemente, sem que uma coisa exclua a outra. Ele encontrou a chave que dá acesso ao melhor dos dois mundos: ter todas as roupas e gadgets da última edição da GQ sem ser um boçal completo, e meditar por três meses em um ashram na Índia sem precisar andar de sandálias de couro, ecobag e barba de 3 semanas. Ele ouviu a voz que dizia: "Você pode ser o monge E o executivo!" E respondeu: "Yes, I can!"
Com toda essa bagagem, o coxinha sabe-se um partido ainda melhor do que ele já era nos tempos de just-coxinha. Tem a certeza de que qualquer mulher que cruze seu caminho será uma mulher de sorte, mesmo que passe com ele apenas uns breves instantes. Acredita que as it girls dos Jardins (ou do Moinhos de Vento, tanto faz) não perdem por esperar para conhecer esse combo em forma de golden boy espiritualizado.
Acontece que nem todas as mulheres estão preparadas para tamanha revolução. Tomemos como exemplo esta que vos escreve: sou uma mulher muito estranha ao universo do coxinha new age, faço esse mea culpa. Não vou à manicure há nem sei quanto tempo, nunca adquiri um secador de cabelo, tô pouco ligando pra grifes, como gordura animal sem parcimônia e detesto bebida doce. Por outro lado, não disponho de muito conteúdo metafísico, e tendo a embasar meus valores (e vícios) no fato de ser humana mesmo, sem muito mistério.
Agora o desajuste realmente perturbador: sou casada e assim pretendo continuar, mas saio com caras que não sejam o meu marido por acreditar, de verdade, que homens e mulheres podem ser amigos e se divertir juntos, sem que isso leve a sexo. Muito louco, né? Eu sei, mas sou assim e tenho bons amigos que insistem em me provar que eu devo sustentar esse delírio, além de um marido zero machista que não me enche o saco com ciúme besta.
Quando saio com meus amigos, rio, falo besteira, como, bebo, como gente normal. Como eles fazem com os outros amigos deles, e eu faço com minhas outras amigas. Mas devo confessar que entre as minhas amizades, o coxinha new age é um tipo exótico (como um pavão, só pra dar um exemplo), que merece cuidados especiais e toda uma cerimônia diferente.
Aprendi isso esses dias. Convidei um conhecido que se encaixa em toda a ficha técnica descrita acima pra gente se ver. Estou em São Paulo a trabalho, como estava quando conheci este senhor em NY. Soube pelo instagram que ele estava na cidade, e quis a companhia dele pra sair, rir, comer, beber e falar besteira. Co-mo gen-te nor-mal.
Ele sugeriu um restaurante desses que alguns paulistanos adoram pelo simples fato de ser franquia de uma casa nova-iorquina. Eu quis um lugar que tivesse porco no cardápio. Minha escolha venceu, yay.
Ele pediu um prato minimalista com agriões e mandioquinha. Eu pedi pé de... bem, porco. Eu ri um pouquinho dessa disparidade, me processem. Ele ficou puto com o garçom mal humorado que nos atendeu, mas em retrospecto, acho que não gostou foi da minha brincadeira. Ele pagou a conta toda quando eu fui ao banheiro. Eu fiquei constrangida com isso, porque sempre me vem à mente nessas horas o ditado ancestral que diz: Não existe almoço grátis. Jantar, muito menos.
Ele quis ir a um bar depois. Um daqueles lugares onde a hostess scaneia as pessoas na fila com o olhar, onde a carta de bebidas começa em R$30 e onde o Kanye West toparia gravar um clipe misógino e ostentador. (Pausa: gostei do bar. Lugar bonito, música boa, coquetelaria decente. Apenas digo que era um lugar posh-coxinha, nada de errado nisso. Pronto, podemos retomar.) Pedi um negroni, ele pediu green elyx, uma bebida com gosto de xampu infantil de maçã verde. Ri mais um pouquinho do paladar do cavalheiro.
É, talvez ele realmente não tenha gostado do meu senso de humor nessa noite. Foi ficando esquisito, um pouco agressivo nas palavras, o clima pesou. Falei que não estava gostando do rumo da prosa e que achava melhor a gente ir embora. Peguei os cartões de consumação para dessa vez, eu pagar a conta, mas ele arrancou os dois da minha mão e saiu enfurecido. Olhei em volta, só vi garçons e barmen, nenhum cliente restava. Esperei um pouquinho, mas o moço não voltava. Comecei a acreditar que ele pudesse ter ido embora e me deixado ali. De brabo, de bebum, de sei lá o quê. Nem me importei muito, pensei: amanhã ele liga sem lembrar direito o que se passou, a gente ri e fica tudo certo, sem stress, melhor assim, vou andando. E saí a pé pela rua escura, sozinha. Era perto de onde eu estou hospedada.
Chegando na porta, recebo uma ligação raivosa, de um homem com seu orgulho ferido por ter sido deixado pra trás diante de vários garçons e seguranças, que riram da cara dele, judiação! Me xingou das maiores baixarias que eu já ouvi nessa vida. Espumando de ira. E cobrando a $ que gastou pagando as duas contas, claro, porque eu mostrei ser um péssimo investimento. Pergunta se levou em consideração minha explicação (sim, me prestei a explicar pra esse ogro disfarçado!) de que eu julguei ter sido deixada sozinha naquele bar cheio de homens, e que por conta disso tinha caminhado - sozinha! - por uma rua deserta, e que nem por isso estava dando faniquito histérico. O chiliquento não quis saber, a honra dele fora abalada e "eu não merecia mais o respeito" que ele nutria por mim. Poxa, que grande perda, eu tinha conquistado o respeito dessa alma superior, e agora perdia, jogava no lixo essa alta honraria merecida por tão poucos.
Fiquei entre pasma, magoada e compadecida. Apesar do meu notório pavio curto, tentei apaziguar de todas as formas, e não revidei nenhuma ofensa. Já tive brigas homéricas nessa vida, mas sempre com gente que eu conhecia bem. Ou no trânsito. Nunca uma pessoa com quem eu havia estado duas vezes apenas. Nesses casos, sentindo qualquer dissonância, sempre achei que o justo era cada um tomar seu rumo e romper-se o contato. Me assustei quado o discípulo de Richard Branson/Gandhi se comportou como um homem das cavernas tomado pelo ódio.
Logo senti pena, no minuto em que entendi a crise do macho tão devastadora e tristemente corriqueira em nossos dias: eu escolhi o restaurante. Eu pedi o prato e a bebida de adulto. Eu não dou a mínima pro fato de ele ter grana. Eu não criei caso por conta do desentendimento no bar. Eu saí de cena discretamente. Eu não estava atrás de romance, nem de alguém que pagasse minha conta, só queria me divertir. Que tipo de protagonismo restou pra ele? Só passar o cartão. Se eu tivesse percebido antes que era tudo um jogo de poder, teria ficado em casa vendo Amor à Vida e comendo um sanduba.
No dia seguinte, apaguei as mensagens grotescas, e com isso apaguei também os dados bancários do rapaz. Coxinha new age, se você estiver lendo, mande de novo o número da conta, por favor. Faço questão de lhe ressarcir. Isso se minha fama de sirigaita caloteira já não estiver na boca do povo, claro, porque se for esse o caso, não pagarei nem um centavo.
Aquele sobre treinamentos funcionais que se disseminam como o Ebola
Nesse oba oba de #projetoverão,
meio mundo vende a alma por um abdome marcado, e a outra metade abomina
tênis fluo em foto de academia. Mas ninguém se importa com o problema
real, concreto e ameaçador que se coloca: a crescente popularidade do
treino de funcional em áreas públicas. Treina-se em todo e qualquer
lugar hoje em dia, e os danos podem se sobrepor às vantagens de ter
glúteos desenhados ao ar livre.
Primeiro perigo: a não-regulamentação dos espaços, sendo infinita a variedade de metros quadrados adequados pra balançar o kettle bell nos dias de hoje. Praia, praça, até modalidades a jato no semáforo fechado estão surgindo. Agora, além dos buracos e cocôs de cachorro, os pedestres precisam ficar atentos para não tropeçarem em bambolês, nem acertarem naqueles elásticos superpoderosos capazes de lançar o corpo humano à distância, como um estilingue. E você achava dureza desviar do tai chi chuan que surgia de uma hora pra outra no meio do parque, precisando ter o cuidado de passar pé ante pé e com o iPod mudo (mesmo que no auge de uma corrida pesada ao som de ACDC no último volume). A gente era feliz e não sabia.
Some-se a tudo isso a parafernália esdrúxula de que o treino de funcional se utiliza, e pronto: qualquer um que afanar meia dúzia de cones de trânsito e arranjar um apito pode descer pra areia e montar um circuitinho. Aliás, os acessórios não têm limites: só falta bicicleta ergométrica descer pra areia. Vem cá, não ocorre a ninguém que a instalação alternativa seja devida ao não pagamento de aluguel e/ou IPTU da academia? Cuidado, hein, qualquer dia desses sua liberação de endorfina pode mudar de nome e passar a atender por "evasão fiscal".
Fora o bullying pesado direcionado aos não adeptos desses treinos itinerantes - que mais parecem circos em montagem pré temporada, vamos combinar. Em uma caminhada tranqüila pela areia da Barra esses dias, enquanto pensava na vida e ouvia Bebel Gilberto, fui atingida em cheio por uma criatura que corria desembestada com um mini paraquedas amarrado às costas. Não fosse o paraquedas (qual a necessidade disso?), diria ser Tom Brady rumo ao touchdown. Ficou bem chata a situação, e como se não bastasse ter quebrado totalmente meu clima, até que eu conseguisse me desvencilhar das cordas já tinha perdido o pôr do sol.
Esse episódio nem foi nada demais comparado à hostilidade das grandes metrópoles: no Ibirapuera, nenhum bêbado e/ou mendigo consegue dormir em paz atualmente. Tem sempre alguém em volta pra saltar em cima dos bancos com os dois pés, agachar, descer e subir de novo, sucessivas vezes, com a respiração mais forte do que o ronco daquele que tenta descansar. Inconveniente, desnecessário.
Não acho que seja por crueldade dos alunos, pelo contrário: vejo neles possivelmente os seres mais dóceis e masoquistas dentre o povo que malha. Nunca vi gostar tanto de ser destratado por treinador, e sei de um grupo que paga uma mensalidade mais alta só porque o algoz usa um taser, eletrocutando moderadamente todo aquele que arregar nas flexões. Parece que no plano premium rolam também spray de pimenta, açoite e trajes de látex nos treinos de sexta-feira. O que só torna a coisa toda mais incoerente, porque cá entre nós: qual o sentido de buscar o sofrimento em áreas verdes ou com vista pro mar? Gente, se o espírito é de guerra e dor, vão suar em usina nuclear abandonada, no lixão, algum lugar que agregue valor à agonia, já que é esse o objetivo.
Eu só queria correr, sabe?
Primeiro perigo: a não-regulamentação dos espaços, sendo infinita a variedade de metros quadrados adequados pra balançar o kettle bell nos dias de hoje. Praia, praça, até modalidades a jato no semáforo fechado estão surgindo. Agora, além dos buracos e cocôs de cachorro, os pedestres precisam ficar atentos para não tropeçarem em bambolês, nem acertarem naqueles elásticos superpoderosos capazes de lançar o corpo humano à distância, como um estilingue. E você achava dureza desviar do tai chi chuan que surgia de uma hora pra outra no meio do parque, precisando ter o cuidado de passar pé ante pé e com o iPod mudo (mesmo que no auge de uma corrida pesada ao som de ACDC no último volume). A gente era feliz e não sabia.
Some-se a tudo isso a parafernália esdrúxula de que o treino de funcional se utiliza, e pronto: qualquer um que afanar meia dúzia de cones de trânsito e arranjar um apito pode descer pra areia e montar um circuitinho. Aliás, os acessórios não têm limites: só falta bicicleta ergométrica descer pra areia. Vem cá, não ocorre a ninguém que a instalação alternativa seja devida ao não pagamento de aluguel e/ou IPTU da academia? Cuidado, hein, qualquer dia desses sua liberação de endorfina pode mudar de nome e passar a atender por "evasão fiscal".
Fora o bullying pesado direcionado aos não adeptos desses treinos itinerantes - que mais parecem circos em montagem pré temporada, vamos combinar. Em uma caminhada tranqüila pela areia da Barra esses dias, enquanto pensava na vida e ouvia Bebel Gilberto, fui atingida em cheio por uma criatura que corria desembestada com um mini paraquedas amarrado às costas. Não fosse o paraquedas (qual a necessidade disso?), diria ser Tom Brady rumo ao touchdown. Ficou bem chata a situação, e como se não bastasse ter quebrado totalmente meu clima, até que eu conseguisse me desvencilhar das cordas já tinha perdido o pôr do sol.
Esse episódio nem foi nada demais comparado à hostilidade das grandes metrópoles: no Ibirapuera, nenhum bêbado e/ou mendigo consegue dormir em paz atualmente. Tem sempre alguém em volta pra saltar em cima dos bancos com os dois pés, agachar, descer e subir de novo, sucessivas vezes, com a respiração mais forte do que o ronco daquele que tenta descansar. Inconveniente, desnecessário.
Não acho que seja por crueldade dos alunos, pelo contrário: vejo neles possivelmente os seres mais dóceis e masoquistas dentre o povo que malha. Nunca vi gostar tanto de ser destratado por treinador, e sei de um grupo que paga uma mensalidade mais alta só porque o algoz usa um taser, eletrocutando moderadamente todo aquele que arregar nas flexões. Parece que no plano premium rolam também spray de pimenta, açoite e trajes de látex nos treinos de sexta-feira. O que só torna a coisa toda mais incoerente, porque cá entre nós: qual o sentido de buscar o sofrimento em áreas verdes ou com vista pro mar? Gente, se o espírito é de guerra e dor, vão suar em usina nuclear abandonada, no lixão, algum lugar que agregue valor à agonia, já que é esse o objetivo.
Eu só queria correr, sabe?
Aquele sobre dieta
Já que segunda é dia de começar dieta, voilá:
Li há pouco uma matéria da Vogue britânica de abril sobre a febre dos sucos, notadamente os verdes, que assola o mundo inteiro. Divertida, auto depreciativa e escrita por um homem, naquele estilo brit de apontar que o bom senso está longe de ser o senso comum - e que por isso mesmo leva o leitor a rir dos absurdos da contemporaneidade, ainda que tenha em mãos a bíblia mundial de moda, estilo e comportamento. A revista sabe debochar das tolices inerentes ao universo que ela mesma rege, como quem percebe as próprias contradições e entende que a autoironia é o que nos permite viver em paz com o ridículo de existir nesse mundo maluco. Tão diferente da Vogue Brasil, que parece sempre querer revestir todos os que retrata de um verniz de realeza e/ou old money, a from UK vai no caminho inverso, e mostra a humanidade latente - glamour à parte - em seus personagens, até aqueles que são mesmo royals e ricaços históricos.
Mas não era sobre as diferenças entre as redações da Vogue mundo afora que eu queria escrever. Era sobre o tal suco verde e tantos outros alimentos com status de divindade que vêm surgindo por aí. Basta surgir um superfood pra eu ficar azeda.
Um suco que elimina o trabalho de cozinhar, mastigar e digerir quilos de vegetais, com a promessa de aproximar o suquista da iluminação (porque sim, eles já formam uma seita numerosa, organizada e doutrinadora) é um engodo perigoso. Chocolates com colágeno, brigadeiros com whey, shakes que substituem refeições, queijos veganos, feijoadas com glúten no lugar do porco (!), refrigerante diet, cerveja sem álcool, adoçante no café. Tudo isso me dá urticária e azia. Qualquer produto que se autointitule gourmet - de varandas a pipocas -, sem deixar clara a razão disso, tá fora do meu carrinho.
Porque é tudo mentira, percebem? São adulterações grosseiras de comidas simples, justificadas - e vendida$ a preço de caviar - pelos benefícios que supostamente trazem à saúde, sempre aliado ao prazer "i-gual-zi-nho" ou "superior" ao de comer a iguaria de verdade.
Pelamor, essas invenções não são uma coisa, nem a outra. Não fazem essa maravilha toda pela silhueta, menos ainda pela saúde, e não se comparam - nem a pau - à experiência de brigadeiros só com cacau e leite condensado, refeições sólidas, coloridas e compartilhadas, queijos feitos de leite fermentado e cheios de bacteriazinhas camaradas, feijoadas completas (daquelas que levam costela, paio, torresmo e uma ambulância esperando na porta), refri normal (refri é péssimo de qualquer jeito, mas se a ressaca pede de quando em vez, toma logo uma coca normal em garrafa de vidro, tchê), cerveja com álcool E sabor, café com gosto de café (não de cevada e mil outros grãos bichados torrados a ponto de esturricar, e nunca de zerocal).
Sou uma glutona orgulhosa, e o que me separa da obesidade é a dieta da verdade. Se eu preciso ingerir mais vitaminas, taco-lhe fruta e verdura em todas as refeições, e não troco meus pratos coloridos, mastigados e fruídos em boa companhia por uma garrafinha de 350ml a R$18, solitária e instagramizada. Feijoada? Só como a completa, e se eu puder passar as 5 horas subsequentes sem mover um só dedo, ou seja: nem pensar naquela vegana do quilo natureba no meio do expediente.
Veganos: não chamem de queijo o que não é queijo. Uma vez treinei em casa um prato que envolvia o esquartejamento de uma galinha d'angola, porque cairia na prova prática da semana seguinte. Um conhecido vegano apareceu lá em casa bem no mesmo dia, e só de raiva e choque diante da brutalidade do preparo, me apresentou um parmesão feito sem leite. Inútil, a única comoção que me causou foi voltada ao próprio sujeito, por comer um troço que sabe a papelão molhado e achar que é quase igual ao rei dos queijos.
Doce, só como se levar açúcar e manteiga - dúzias de ovos são um plus. Não, não dá pra comer isso todo dia, então se não dá, não como sobremesa. Fico arrasada só de pensar em comer um pudim diet da royal, fazendo o exercício mental de me convencer de que é como se estivesse me deliciando com qualquer doce calórico e açucarado. Me ofendo quando no bar o garçom pergunta se quero minha caipirinha com adoçante. E viro a cara se me oferecerem nuggets, em qualquer circunstância.
A dieta da verdade é supersimples de seguir, e traz resultados positivos e duradouros, não só na balança, como na saúde social e psíquica de quem a pratica. Só não é mais popular porque, como falei lá no começo, o bom senso anda cada vez mais distante do senso comum. E além disso, não ajuda a vender as tranqueiras inócuas e insípidas que surgem no mercado a todo momento.
Li há pouco uma matéria da Vogue britânica de abril sobre a febre dos sucos, notadamente os verdes, que assola o mundo inteiro. Divertida, auto depreciativa e escrita por um homem, naquele estilo brit de apontar que o bom senso está longe de ser o senso comum - e que por isso mesmo leva o leitor a rir dos absurdos da contemporaneidade, ainda que tenha em mãos a bíblia mundial de moda, estilo e comportamento. A revista sabe debochar das tolices inerentes ao universo que ela mesma rege, como quem percebe as próprias contradições e entende que a autoironia é o que nos permite viver em paz com o ridículo de existir nesse mundo maluco. Tão diferente da Vogue Brasil, que parece sempre querer revestir todos os que retrata de um verniz de realeza e/ou old money, a from UK vai no caminho inverso, e mostra a humanidade latente - glamour à parte - em seus personagens, até aqueles que são mesmo royals e ricaços históricos.
Mas não era sobre as diferenças entre as redações da Vogue mundo afora que eu queria escrever. Era sobre o tal suco verde e tantos outros alimentos com status de divindade que vêm surgindo por aí. Basta surgir um superfood pra eu ficar azeda.
Um suco que elimina o trabalho de cozinhar, mastigar e digerir quilos de vegetais, com a promessa de aproximar o suquista da iluminação (porque sim, eles já formam uma seita numerosa, organizada e doutrinadora) é um engodo perigoso. Chocolates com colágeno, brigadeiros com whey, shakes que substituem refeições, queijos veganos, feijoadas com glúten no lugar do porco (!), refrigerante diet, cerveja sem álcool, adoçante no café. Tudo isso me dá urticária e azia. Qualquer produto que se autointitule gourmet - de varandas a pipocas -, sem deixar clara a razão disso, tá fora do meu carrinho.
Porque é tudo mentira, percebem? São adulterações grosseiras de comidas simples, justificadas - e vendida$ a preço de caviar - pelos benefícios que supostamente trazem à saúde, sempre aliado ao prazer "i-gual-zi-nho" ou "superior" ao de comer a iguaria de verdade.
Pelamor, essas invenções não são uma coisa, nem a outra. Não fazem essa maravilha toda pela silhueta, menos ainda pela saúde, e não se comparam - nem a pau - à experiência de brigadeiros só com cacau e leite condensado, refeições sólidas, coloridas e compartilhadas, queijos feitos de leite fermentado e cheios de bacteriazinhas camaradas, feijoadas completas (daquelas que levam costela, paio, torresmo e uma ambulância esperando na porta), refri normal (refri é péssimo de qualquer jeito, mas se a ressaca pede de quando em vez, toma logo uma coca normal em garrafa de vidro, tchê), cerveja com álcool E sabor, café com gosto de café (não de cevada e mil outros grãos bichados torrados a ponto de esturricar, e nunca de zerocal).
Sou uma glutona orgulhosa, e o que me separa da obesidade é a dieta da verdade. Se eu preciso ingerir mais vitaminas, taco-lhe fruta e verdura em todas as refeições, e não troco meus pratos coloridos, mastigados e fruídos em boa companhia por uma garrafinha de 350ml a R$18, solitária e instagramizada. Feijoada? Só como a completa, e se eu puder passar as 5 horas subsequentes sem mover um só dedo, ou seja: nem pensar naquela vegana do quilo natureba no meio do expediente.
Veganos: não chamem de queijo o que não é queijo. Uma vez treinei em casa um prato que envolvia o esquartejamento de uma galinha d'angola, porque cairia na prova prática da semana seguinte. Um conhecido vegano apareceu lá em casa bem no mesmo dia, e só de raiva e choque diante da brutalidade do preparo, me apresentou um parmesão feito sem leite. Inútil, a única comoção que me causou foi voltada ao próprio sujeito, por comer um troço que sabe a papelão molhado e achar que é quase igual ao rei dos queijos.
Doce, só como se levar açúcar e manteiga - dúzias de ovos são um plus. Não, não dá pra comer isso todo dia, então se não dá, não como sobremesa. Fico arrasada só de pensar em comer um pudim diet da royal, fazendo o exercício mental de me convencer de que é como se estivesse me deliciando com qualquer doce calórico e açucarado. Me ofendo quando no bar o garçom pergunta se quero minha caipirinha com adoçante. E viro a cara se me oferecerem nuggets, em qualquer circunstância.
A dieta da verdade é supersimples de seguir, e traz resultados positivos e duradouros, não só na balança, como na saúde social e psíquica de quem a pratica. Só não é mais popular porque, como falei lá no começo, o bom senso anda cada vez mais distante do senso comum. E além disso, não ajuda a vender as tranqueiras inócuas e insípidas que surgem no mercado a todo momento.
Aquele sobre consumidores de papel higiênico lixa
Não
se iluda. As pessoas não se dividem em esquerda x direita, vegetarianos x
onívoros, Pelé x Maradona, fumantes x não fumantes. O traço fundamental
que opõe a humanidade em duas categorias diametralmente opostas é: quem
compra o papel higiênico mais barato no supermercado x quem se permite o
rolo de folha dupla, suave e perfumada.
O sujeito que usa papel lixa em nome da economia de uns poucos vinténs é, antes de tudo, um mártir. Alguém que não veio ao mundo a passeio, e portanto está disposto a suportar qualquer sofrimento, dando preferência ao auto infligido. Porque o mundo é duro e áspero, e ir ao banheiro deve ser um treinamento para os atritos do dia a dia. Porque suavidade é sinônimo de fraqueza, e quem busca conforto e aconchego na intimidade do lar (e da privada) não merece mais do que desprezo e condescendência. Para os adeptos dos rolos que custam menos e rendem mais, o discurso da busca pelo prazer e pela felicidade é um embuste forjado pelo mercado para fazer as pessoas gastarem dinheiro e desviarem-se do caminho virtuoso de trabalho e auto flagelo. O Neve Neutra Care na gôndola é como o caco de espelho ofertado ao índio pelos invasores portugueses, 500 anos atrás. Puro engodo. Porta de entrada para a desgraça. Só ilude os fracos de espírito, os hedonistas inconsequentes, os devassos incorrigíveis. Ah, onde estaríamos se essa turba de depravados entendesse que papel higiênico serve apenas para limpar, cama foi feita para dormir, comida é mero combustível, vinho é frivolidade e dinheiro é pra se guardar. Atrasam o curso da evolução aqueles que dedicam tempo e energia à poesia, ao amor, à embriaguez, à boa mesa, e sobretudo ao papel macio e texturizado.
Comece a reparar à sua volta. No trabalho, o colega que faz hora extra com o objetivo de no dia seguinte, jogar seu par de olheiras escuras e profundas na cara do grupo que saiu às 18h prum happy hour. No restaurante, aquele que escrutina a conta e só paga o que de fato consumiu, mesmo que o total dividido por todos fique só R$3,87 mais caro. No trânsito, a criatura que não dá passagem, mesmo que você peça com uma buzinada simpática e um joinha sorridente (e mesmo que ela só avance meio metro ao trancar a sua vida). Na vida, os seres que jamais relaxam, que raramente sorriem, que dificilmente amam, que nem sob decreto debocham de si próprios, e que ficam sem saber como agir ao receber qualquer gesto de gentileza.
Aposto uma cachaça de Salinas como todos esses tipos só consomem papel higiênico chinfrim.
O sujeito que usa papel lixa em nome da economia de uns poucos vinténs é, antes de tudo, um mártir. Alguém que não veio ao mundo a passeio, e portanto está disposto a suportar qualquer sofrimento, dando preferência ao auto infligido. Porque o mundo é duro e áspero, e ir ao banheiro deve ser um treinamento para os atritos do dia a dia. Porque suavidade é sinônimo de fraqueza, e quem busca conforto e aconchego na intimidade do lar (e da privada) não merece mais do que desprezo e condescendência. Para os adeptos dos rolos que custam menos e rendem mais, o discurso da busca pelo prazer e pela felicidade é um embuste forjado pelo mercado para fazer as pessoas gastarem dinheiro e desviarem-se do caminho virtuoso de trabalho e auto flagelo. O Neve Neutra Care na gôndola é como o caco de espelho ofertado ao índio pelos invasores portugueses, 500 anos atrás. Puro engodo. Porta de entrada para a desgraça. Só ilude os fracos de espírito, os hedonistas inconsequentes, os devassos incorrigíveis. Ah, onde estaríamos se essa turba de depravados entendesse que papel higiênico serve apenas para limpar, cama foi feita para dormir, comida é mero combustível, vinho é frivolidade e dinheiro é pra se guardar. Atrasam o curso da evolução aqueles que dedicam tempo e energia à poesia, ao amor, à embriaguez, à boa mesa, e sobretudo ao papel macio e texturizado.
Comece a reparar à sua volta. No trabalho, o colega que faz hora extra com o objetivo de no dia seguinte, jogar seu par de olheiras escuras e profundas na cara do grupo que saiu às 18h prum happy hour. No restaurante, aquele que escrutina a conta e só paga o que de fato consumiu, mesmo que o total dividido por todos fique só R$3,87 mais caro. No trânsito, a criatura que não dá passagem, mesmo que você peça com uma buzinada simpática e um joinha sorridente (e mesmo que ela só avance meio metro ao trancar a sua vida). Na vida, os seres que jamais relaxam, que raramente sorriem, que dificilmente amam, que nem sob decreto debocham de si próprios, e que ficam sem saber como agir ao receber qualquer gesto de gentileza.
Aposto uma cachaça de Salinas como todos esses tipos só consomem papel higiênico chinfrim.
Aquele sobre a virada cultural
Lógico que eu quis conferir a virada cultural,
alguma dúvida? Não faltou quem desencorajasse. É perigoso, é
desorganizado, é no centro (aquele lugar sujo e feio, que deve ser
evitado sempre que possível), é povão, as atrações são fracas, e por aí vai. É aquela velha história: quando Fulano me fala em São Paulo, eu aprendo mais sobre Fulano do que sobre São Paulo.
Não cheguei a virar, por solidariedade ao padeiro que me acompanhava, já que ele começaria a trabalhar às 5 da madrugada. Mas ficamos no centro até às 3, e pra lá voltei sozinha hoje de manhã.
Estacionamos na rua pertinho da Praça da República, comemos coxinha com cerveja num boteco simpático e fomos curtir Stanley Jordan. Praça cheia de gente aproveitando o show numa boa, muitos abrindo o guia repleto de atrações pra decidir aonde ir em seguida, nenhuma confusão. Fomos caminhando dali pro Anhangabaú, eu queria ver a Ana Botafogo. Muita gente pelas ruas, o centro vivo. Banheiros químicos de sobra, e aqueles cercadinhos individuais pra homem fazer xixi em pé, ao ar livre e sem emporcalhar a rua (esses com sucesso absoluto de público: os mijões todos faceiros, e os passantes tirando fotos por acharem a cena hilária).
Passamos pelo Municipal, majestoso, iluminado, com função acontecendo lá dentro e um mapping muito louco sendo projetado no prédio da frente. Na Praça Ramos de Azevedo, um grupo de heavy metal e uma gurizada em volta.
Chegamos ao palco Dança, plateia lotada, todos esperando Ana Botafogo, imaginei. Quando se abriram as cortinas, anunciou-se o Ballet da Cidade de São Paulo. Descobri depois que Ana se adiantou bastante e fez uma apresentação rápida. Pena, mas tudo bem também: a performance Abrupto foi linda, os bailarinos foram muito aplaudidos e o público ficou emocionado.
Voltamos pra República e fomos comer no Bar da Dona Onça, ali no térreo do Copan. Casa cheia, onça Janaina Rueda no comando do salão, marido Jefferson Rueda dando uma força na cozinha. Sou fã dos dois. Primeiro porque não vêem opostos irreconciliáveis entre centrão e Vila Nova Conceição, muito pelo contrário: eles simbolizam a complementaridade entre a São Paulo refinada, urbana, exclusiva e a São Paulo marginal, caipira, diversa. É tão raro quem perceba que é tudo uma coisa só, e que são as diferenças que fazem dessa cidade um mosaico fascinante. Segundo por serem um casal trabalhador, que se ajuda mutuamente e que tem uma história muito bacana na cena gastronômica paulistana. Terceiro porque a rabada com polenta que eu comi lá ontem tava algo do outro mundo e conquistou meu amor eterno.
Comemos, bebemos, encontramos amigos e fomos embora em paz. Nosso carro intocado, polícia nas ruas, nenhuma cena de violência.
Hoje de manhã acordei e fui até a Sala São Paulo pra ver e ouvir a OSESP. À luz do dia, vi sim sujeira nas ruas, pessoas sob efeito de drogas, cracolândia daquele jeito. Cenas tristes? Sem dúvida. Ameaçadoras? Não que eu tenha sentido, e olha que eu dirigia sozinha um carro sem película nos vidros, no meio da muvuca. De novo vi muito policiamento pelas ruas, e vi as pessoas vivendo a cidade. Ouvindo música, andando por tudo, se divertindo.
Entrei na Sala São Paulo de graça, como qualquer um poderia entrar. Não conhecia ainda, fiquei maravilhada com a beleza do lugar. A Orquestra tocou Brahms, começando por Abertura de um Festival Acadêmico. O apresentador explicou que a obra fora uma retribuição bem humorada do artista pelo título honoris causa que recebera de uma universidade. Bem humorada porque o que ele fez foi reunir diversas operetas irreverentes, canções que os estudantes entoavam quando saíam para beber e farrear, dando ao pot pourri a estrutura formal de uma sinfonia. Nas palavras do próprio apresentador, é como se hoje um artista erudito trabalhasse sobre canções de Valesca Popozuda, Ivete Sangalo e MC Guimê.
O concerto seguiu, e enquanto eu assistia, pensava no privilégio de viver em uma cidade onde há uma Sala São Paulo, uma OSESP, uma virada cultural tão rica e variada em programação, e públicos que prestigiem tudo isso. Pensava também na analogia feita pelo apresentador, tão simbólica da cidade e da própria virada.
Na saída, do lado de fora, um palco tocava funk pra uma plateia animadíssima. O sol brilhava e coexistiam ali os funkeiros, os apreciadores de música clássica, os viciados em crack, as famílias, as prostitutas, os velhinhos, eu e todo mundo. E se mostrava mais claro do que nunca que fronteiras rígidas são delírio de quem tem medo de entrar em contato com as próprias contradições.
Logo mais vou comer nas barraquinhas dos chefs de rua, no Minhocão. E em 2015 certamente virarei a madrugada.
Não cheguei a virar, por solidariedade ao padeiro que me acompanhava, já que ele começaria a trabalhar às 5 da madrugada. Mas ficamos no centro até às 3, e pra lá voltei sozinha hoje de manhã.
Estacionamos na rua pertinho da Praça da República, comemos coxinha com cerveja num boteco simpático e fomos curtir Stanley Jordan. Praça cheia de gente aproveitando o show numa boa, muitos abrindo o guia repleto de atrações pra decidir aonde ir em seguida, nenhuma confusão. Fomos caminhando dali pro Anhangabaú, eu queria ver a Ana Botafogo. Muita gente pelas ruas, o centro vivo. Banheiros químicos de sobra, e aqueles cercadinhos individuais pra homem fazer xixi em pé, ao ar livre e sem emporcalhar a rua (esses com sucesso absoluto de público: os mijões todos faceiros, e os passantes tirando fotos por acharem a cena hilária).
Passamos pelo Municipal, majestoso, iluminado, com função acontecendo lá dentro e um mapping muito louco sendo projetado no prédio da frente. Na Praça Ramos de Azevedo, um grupo de heavy metal e uma gurizada em volta.
Chegamos ao palco Dança, plateia lotada, todos esperando Ana Botafogo, imaginei. Quando se abriram as cortinas, anunciou-se o Ballet da Cidade de São Paulo. Descobri depois que Ana se adiantou bastante e fez uma apresentação rápida. Pena, mas tudo bem também: a performance Abrupto foi linda, os bailarinos foram muito aplaudidos e o público ficou emocionado.
Voltamos pra República e fomos comer no Bar da Dona Onça, ali no térreo do Copan. Casa cheia, onça Janaina Rueda no comando do salão, marido Jefferson Rueda dando uma força na cozinha. Sou fã dos dois. Primeiro porque não vêem opostos irreconciliáveis entre centrão e Vila Nova Conceição, muito pelo contrário: eles simbolizam a complementaridade entre a São Paulo refinada, urbana, exclusiva e a São Paulo marginal, caipira, diversa. É tão raro quem perceba que é tudo uma coisa só, e que são as diferenças que fazem dessa cidade um mosaico fascinante. Segundo por serem um casal trabalhador, que se ajuda mutuamente e que tem uma história muito bacana na cena gastronômica paulistana. Terceiro porque a rabada com polenta que eu comi lá ontem tava algo do outro mundo e conquistou meu amor eterno.
Comemos, bebemos, encontramos amigos e fomos embora em paz. Nosso carro intocado, polícia nas ruas, nenhuma cena de violência.
Hoje de manhã acordei e fui até a Sala São Paulo pra ver e ouvir a OSESP. À luz do dia, vi sim sujeira nas ruas, pessoas sob efeito de drogas, cracolândia daquele jeito. Cenas tristes? Sem dúvida. Ameaçadoras? Não que eu tenha sentido, e olha que eu dirigia sozinha um carro sem película nos vidros, no meio da muvuca. De novo vi muito policiamento pelas ruas, e vi as pessoas vivendo a cidade. Ouvindo música, andando por tudo, se divertindo.
Entrei na Sala São Paulo de graça, como qualquer um poderia entrar. Não conhecia ainda, fiquei maravilhada com a beleza do lugar. A Orquestra tocou Brahms, começando por Abertura de um Festival Acadêmico. O apresentador explicou que a obra fora uma retribuição bem humorada do artista pelo título honoris causa que recebera de uma universidade. Bem humorada porque o que ele fez foi reunir diversas operetas irreverentes, canções que os estudantes entoavam quando saíam para beber e farrear, dando ao pot pourri a estrutura formal de uma sinfonia. Nas palavras do próprio apresentador, é como se hoje um artista erudito trabalhasse sobre canções de Valesca Popozuda, Ivete Sangalo e MC Guimê.
O concerto seguiu, e enquanto eu assistia, pensava no privilégio de viver em uma cidade onde há uma Sala São Paulo, uma OSESP, uma virada cultural tão rica e variada em programação, e públicos que prestigiem tudo isso. Pensava também na analogia feita pelo apresentador, tão simbólica da cidade e da própria virada.
Na saída, do lado de fora, um palco tocava funk pra uma plateia animadíssima. O sol brilhava e coexistiam ali os funkeiros, os apreciadores de música clássica, os viciados em crack, as famílias, as prostitutas, os velhinhos, eu e todo mundo. E se mostrava mais claro do que nunca que fronteiras rígidas são delírio de quem tem medo de entrar em contato com as próprias contradições.
Logo mais vou comer nas barraquinhas dos chefs de rua, no Minhocão. E em 2015 certamente virarei a madrugada.
Aquele de quando a minha irmãzinha passou no vestiba
Hoje
me lembrei de tanta coisa... de quando, há quase 18 anos, a Rosa
nasceu, toda pequetita e cor-de-rosa. De trocar as fraldas dela, de
jogar vôlei com ela fazendo papel de bola, de apostar corrida com ela no
carrinho. Me lembrei dela andando pela
casa com calcinhas e sutiãs da mãe pendurados no pescoço, tirando fotos
apenas fazendo caretas - nunca normal - por um longo período da
infância. Ela insistindo em levar banana de merenda pro Anchieta e
voltando arrasada porque todo mundo tinha rido da cara dela. Depois fui
transportada pra minha época de bixo da ufrgs: a euforia, a sensação de
que eu tinha o mundo na mão, a descoberta das festas nas catacumbas, das
cervejadas no xirú e do barquiteto, as amizades que eu fiz na faculdade
e aquela sensação boa que só estudante da ufrgs conhece, que não dá pra
explicar direito. Aí juntei tudo e pensei que minha irmã -
definitivamente a guria mais linda, doce, inteligente e engraçada que
existe no mundo inteiro - agora vai viver essa fase deliciosa,
divertidíssima, que vai definir muita coisa na forma de ela ver o mundo e
de se colocar nele. Vai estudar feito condenada, porque arquitetura é
foda. Vai ser muito feliz, vai se encantar com as possibilidades, vai
encantar muita gente. Aí chorei, né, óbvio, porque eu sou a irmã mais
coruja do mundo. Uma manteiga derretida enrustida, que queria mais do
que tudo estar em Porto Alegre hoje pra dizer: gatinha, eu sempre soube!
Bota pra quebrar!
Aquele sobre como comer sabonetes
Ontem
comprei um sabonete Granado, desses que agora são
fashion/vintage/whatever, e ao abrir, fui transportada pra minha
infância: era exatamente igual em cor, aroma e textura ao Phebo verde
escuro que meu vô comprava e eu comia escondida. (Sim, eu aprecio
sabonetes desde bem pequena. Comecei com Palmolives opacos e meu paladar
foi se sofisticando até chegar ao Phebo verde translúcido, que eu não
encontrava há anos. Regras básicas: sempre com moderação e
exclusivamente ao retirar o produto da embalagem. Comer sabonete que já
foi usado é nojento, hello-ou!) #comfortfooddaloka
Aquele sobre o instinto materno
Mãe e filha viajando juntas, dia 07:
Filha: {espirros incessantes}
Mãe: Quem sabe vai lá pra fora, meu amor?
Filha (julgando se tratar o conselho materno de um cuidado em relação às cortinas do quarto fechado): Não, com frio e vento fica pior.
Mãe: Mas de lá eu não escuto nada.
Filha: {espirros incessantes}
Mãe: Quem sabe vai lá pra fora, meu amor?
Filha (julgando se tratar o conselho materno de um cuidado em relação às cortinas do quarto fechado): Não, com frio e vento fica pior.
Mãe: Mas de lá eu não escuto nada.
Aquele sobre a walk of shame alheia
O melhor de correr nas primeiras horas do dia de sábado é presenciar a walk of shame alheia.
7:00 da manhã, Ladeira da Barra, próximo ao Yacht Club.
Um casal caminha separado por uns 15 metros, ele na frente. A moça anda trôpega pelas pedras da calçada, vestindo aquelas saias mezzo plastificadas/mezzo metalizadas que fazem qualquer bunda parecer o globo do epcot center. Carrega as sandálias de salto 18 na mão, e choraminga pro companheiro andar mais devagar. Se detém no ponto de ônibus pra pedir informações: "moço, falta muito pro Bahia Othon Palace?". O cabra esperando condução nem responde, nem se compadece. O namorado já vai lá na frente, apressando a pobre menina com menos gentileza do que quem desempaca uma mula. Cabelos desgrenhados, rímel pela cara toda, blusa preta com rendas e transparências, e 4km de caminhada sob o sol do nordeste pela frente. Ô dó.
Ficam algumas lições:
1. Guarde sempre um trocadinho pro táxi na volta da festa;
2. Leve consigo a câmera fotográfica nas corridas matinais;
3. Deixe os trajes refletores para os atletas noturnos e astronautas.
7:00 da manhã, Ladeira da Barra, próximo ao Yacht Club.
Um casal caminha separado por uns 15 metros, ele na frente. A moça anda trôpega pelas pedras da calçada, vestindo aquelas saias mezzo plastificadas/mezzo metalizadas que fazem qualquer bunda parecer o globo do epcot center. Carrega as sandálias de salto 18 na mão, e choraminga pro companheiro andar mais devagar. Se detém no ponto de ônibus pra pedir informações: "moço, falta muito pro Bahia Othon Palace?". O cabra esperando condução nem responde, nem se compadece. O namorado já vai lá na frente, apressando a pobre menina com menos gentileza do que quem desempaca uma mula. Cabelos desgrenhados, rímel pela cara toda, blusa preta com rendas e transparências, e 4km de caminhada sob o sol do nordeste pela frente. Ô dó.
Ficam algumas lições:
1. Guarde sempre um trocadinho pro táxi na volta da festa;
2. Leve consigo a câmera fotográfica nas corridas matinais;
3. Deixe os trajes refletores para os atletas noturnos e astronautas.
Aquele sobre escutar a conversa das mesas vizinhas
Anteontem
nós estávamos em um bar, mesa na calçada, bebendo vinho e falando sobre
tudo. Ele foi ao banheiro e eu prestei atenção nas mesas vizinhas por
alguns momentos, porque é isso o que eu faço quando fico sozinha. Escuto
a conversa alheia. Na minha frente, um talvez-quase-casal - digo pela
falta de papo e fartura de saliva trocada. Ela totalmente entregue:
olhinhos semi-cerrados, jogando a cabeça
pra trás, rindo de tudo e de nada. Ele buscando o justo equilíbrio
entre o nível ideal de caipiroska de frutas vermelhas no sangue dela e o
momento certo de pedir a conta e bater em retirada pr'alcova.
Ao lado, dois caras barbudos e de óculos, pinta de intelectuais atormentados, cerveja 600 e maços de cigarro sobre a mesa. Um fazia uma crítica ao livro do outro, medindo cada palavra, entre sádico e didático, ainda que pisando em ovos. Editor e autor, essa foi fácil. Ambos visivelmente desconfortáveis naquela situação.
Ele voltou pra nossa mesa. Comentei sobre a dupla literária, e a resposta foi: those who cannot do, teach. Seguiu-se uma discussão ferrenha sobre papéis de professores, editores, críticos e teóricos X empreendedores, artistas, cozinheiros, práticos. Não chegamos a nos divorciar, mas foi uma peleia braba. Ficou tudo bem no final, mas receio que tenhamos involuntariamente expulsado os dois das letras do local.
Ontem fui jantar só. Um restaurante charmoso, rústico, agradável. Só casais à minha volta. Casais em férias, bronzeados, vestidos com elegância despojada, aparentemente juntos há tempos. Pensei estar com sorte: pescaria conversas interessantes, engraçadas, ou não entenderia lhufas ditas na linguagem cifrada dos amantes constantes, o que também é lindo. Errei feio. Dois casais que jantavam juntos e falavam alto teceram as seguintes opiniões enfáticas: 1. Europeu não sabe fazer filme bom (exceto A Vida é Bela!); 2. Algumas pessoas não gostam de cachorros, como é possível, de que forma vivem e do que se alimentam?; 3. Um homem que fez filho em seis mulheres diferentes é um macho de respeito.
Em outra mesa, depois de lerem o cardápio inteiro de trás pra frente, ele perguntou se tinha bruschetta e ela pediu uma coca zero. Seguiu-se o papo mais enfadonho que se possa imaginar sobre gestão, planilhas e auditorias, como se o cenário fosse um almoço de negócios na Av. Paulista, e não um jantar a dois no vilarejo mais charmoso da costa brasileira.
Silêncios, amenidades, diálogos monossilábicos. Desilusão.
Por mais reais comédias (e dramas) da vida privada que se desenrolem nas mesas vizinhas a mim.
Ao lado, dois caras barbudos e de óculos, pinta de intelectuais atormentados, cerveja 600 e maços de cigarro sobre a mesa. Um fazia uma crítica ao livro do outro, medindo cada palavra, entre sádico e didático, ainda que pisando em ovos. Editor e autor, essa foi fácil. Ambos visivelmente desconfortáveis naquela situação.
Ele voltou pra nossa mesa. Comentei sobre a dupla literária, e a resposta foi: those who cannot do, teach. Seguiu-se uma discussão ferrenha sobre papéis de professores, editores, críticos e teóricos X empreendedores, artistas, cozinheiros, práticos. Não chegamos a nos divorciar, mas foi uma peleia braba. Ficou tudo bem no final, mas receio que tenhamos involuntariamente expulsado os dois das letras do local.
Ontem fui jantar só. Um restaurante charmoso, rústico, agradável. Só casais à minha volta. Casais em férias, bronzeados, vestidos com elegância despojada, aparentemente juntos há tempos. Pensei estar com sorte: pescaria conversas interessantes, engraçadas, ou não entenderia lhufas ditas na linguagem cifrada dos amantes constantes, o que também é lindo. Errei feio. Dois casais que jantavam juntos e falavam alto teceram as seguintes opiniões enfáticas: 1. Europeu não sabe fazer filme bom (exceto A Vida é Bela!); 2. Algumas pessoas não gostam de cachorros, como é possível, de que forma vivem e do que se alimentam?; 3. Um homem que fez filho em seis mulheres diferentes é um macho de respeito.
Em outra mesa, depois de lerem o cardápio inteiro de trás pra frente, ele perguntou se tinha bruschetta e ela pediu uma coca zero. Seguiu-se o papo mais enfadonho que se possa imaginar sobre gestão, planilhas e auditorias, como se o cenário fosse um almoço de negócios na Av. Paulista, e não um jantar a dois no vilarejo mais charmoso da costa brasileira.
Silêncios, amenidades, diálogos monossilábicos. Desilusão.
Por mais reais comédias (e dramas) da vida privada que se desenrolem nas mesas vizinhas a mim.
Aquele sobre... bah, nem sei, sobre um monte de coisas aparentemente disconexas.
Faxina, trabalho, paixão, casamento, e o que realmente importa
Um sábado típico em que eu acordo com os dedos coçando pra escrever, ao mesmo tempo em que uma obsessão por limpeza me invade, e desembesto a botar a casa em ordem. Já vejo um padrão depois de tantos sábados parecidos: a manhã preguiçosa que eu imaginei enquanto dirigia exausta pelo trânsito hostil da cidade no final de cada dia útil (?) nunca se revela preguiçosa de fato. O Hugo sai cedo pra trabalhar, e eu não resisto à ideia de ter só pra mim as horas e a luz da manhã. Preciso levantar, me mexer, ocupar meu corpo com tarefas triviais e repetitivas, pra dar paz à minha mente. Faxina é meditação.
Nos primeiros instantes, a missão parece hercúlea: todas as minhas roupas e sapatos espalhados pela casa, louça suja pela cozinha inteira, pó sobre os móveis, quarto da Birra parecendo uma pocilga. Minha cabeça idem: encerrei a semana cheia de incertezas, dores e um instinto de movimento necessário, ainda que sem saber direito pra onde.
Começo pelo meu quarto, meu ambiente mais íntimo, tratando das minhas coisas. Meu guarda-roupa ontem parecia vazio, eu não encontrava nada pra vestir na hora de ir trabalhar. Nessas horas sempre fico emburrada, e nunca sei se é por conta de não ter roupa, ou por constatar que algo assim tão besta é capaz de me incomodar.
Saio pela casa juntando blusas, calças, saias, sutiãs, calcinhas, sapatos, bolsas, brincos. Empilho tudo em cima da cama e vejo uma montanha disforme e aparentemente intransponível. Passo a dobrar peça por peça, dispondo as minhas do lado esquerdo e as dele do lado direito. Logo o lado esquerdo vira centro, e o direito vira canto.
Ele sonha alto, mas sabe ser feliz com pouco, e faz o melhor com aquilo que tem. Por exemplo: tem a certeza de ser casado com a mulher mais linda, inteligente e espirituosa do universo (ou pelo menos me convence direitinho disso todos os dias, que é o que importa). Trabalha fazendo pão, o alimento mais básico que existe. E faz um pão melhor a cada dia, e se apaixona mais pelo ofício a cada fornada. Sou toda orgulho e amor pelo meu homem, e cada dobra que faço na meia dúzia de camisetas que ele tem é toda amor e orgulho também.
Meus panos vão se coordenando. Primeiro dobrados, depois agrupados (short de corrida com short de corrida, blusa com blusa, calça com calça, e assim por diante), depois devidamente guardados, ordenados por cor. Muito preto, cinza e cru, muita flor e cor também.
Cheguei aqui quase neutra, básica, tela em branco pra uma vida nova. Me apaixonei pelo meu trabalho antes mesmo de conhecê-lo, e segui me apaixonando, e por isso trabalhando em qualquer dia e horário, encarando qualquer missão, virando noites e finais de semana.
Aprendi a trabalhar direito em cozinhas, deve ter sido por isso que fiquei assim. Lá não existia isso de 8 horas por dia, intervalo de almoço, planilhas, projetos adiados, arrastados, prazos estendidos. Era do zero a tudo, todos os dias. Eram partidas, cada qual com sua lista, uma brigada trabalhando coletiva e arduamente por um objetivo claro. Nenhum minuto desperdiçado, nenhuma hora morta. A meritocracia em seu estado puro: quem mandava, mandava porque sabia melhor, e tinha trabalhado feito um cavalo pra chegar até ali. Quem obedecia, se cortava e se queimava (eu, e todos os colegas que tive a sorte de ter), via aquilo como um privilégio, um aprendizado inestimável. O salário definitivamente não era um atrativo. Cozinheiro que preze seu ofício desconhece o significado da expressão “zona de conforto”.
Cozinheiro também não tem aquela membrana cerebral que divide vida pessoal de vida profissional. Pode ser uma deficiência, ou uma bactéria… não sei, sei que pegou em mim, e desconfio que não tenha cura, já que deixei de trabalhar em cozinha há alguns anos, mas sigo enxergando trabalho sob a mesma perspectiva de antes. Me chamem de louca, mas acho que louco mesmo é quem gira uma chavezinha todos os dias, mudando entre o horário comercial e as horas livres. Como aquelas pessoas quem sabem que o mundo é injusto, mas trabalham das 8h às 18h em multinacionais poluidoras e multi-bilionárias, porque o plano de carreira é excelente. Acho isso uma insanidade, como acho os próprios conceitos de “horário comercial” e “universo corporativo” um delírio coletivo. A gente é o que a gente faz todos os dias, o dia todo. A gente não é o lugar paradisíaco que a gente visitou nas férias. A gente não é o post de auto-ajuda publicado no facebook logo de manhã. A gente não é a selfie tirada no elevador antes da festa, exibindo o look e postando com alguma hashtag em inglês desprovida de qualquer sentido (#top #workhardplayharder #hojetem e #babaquicesafins).
Eu quis viajar, e trabalhar com alguma coisa completamente diferente do que meu diploma de direito me habilitava a fazer, e viver aventuras em territórios desconhecidos, e interagir com gente fascinante. Venho tentando viver assim, com relativo sucesso. Estudei, mudei de país 3 vezes e um dia encontrei - ou melhor, inventei - um emprego que parecia feito pra mim e eu pra ele. Acontece que mudanças radicais tornam-se viciantes. E não posso mais negar que preciso de uma nova mudança radical. Pra já.
Nesses dois anos de Bahia, vivi coisas surreais. Cheguei acreditando que me espiritualizaria, mas no máximo reforcei meu agnosticismo otimista. Jurava que a maresia fosse me tornar mais leve, e na verdade o que aconteceu foi que minhas cores todas ganharam uma camada extra de tinta. Do azul-piscina ao vermelho-sangue, aqui se esgotou o tempo das linhas tênues e áreas acinzentadas. Sempre serei adepta das sutilezas, mas nunca mais abro mão da clareza absoluta para comigo mesma.
Aqui quase separei, casei de verdade (finalmente), me apaixonei e me desapaixonei. Hoje amo e sei. Nunca dei bola pra raízes e legados, agora quero ter um filho. Aqui morri de saudades de abraçar a minha irmã, rir com o meu irmão, ganhar colo da minha mãe, fazer nada na casa dos meus avós, saber da vida de meus tios e primos por eles mesmos, almoçar no meio da semana com as minhas amigas, beber e falar besteira qualquer dia, à toa, com os meus amigos e amores. Primeiro morri de saudades, depois aceitei que ônus sempre há, hoje decidi que alguns não valem a pena.
Aprendi que sonhar o sonho alheio é maravilhoso quando o sonho vira nosso também. Sou eternamente agradecida por isso. Entendi também o que dizia Elis quando falava que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa. Tanto canto quanto sonho são bálsamos, viver é fundamental. O que eu vim fazer aqui já foi feito, já está. O momento é de transcender a fim de evoluir.
Meu guarda-roupa está em ordem. Tenho muito mais do que o bastante pra viver, mas não tanto que não possa fechar numa mala se a hora for de partir. Falta ainda arrumar o resto desse apartamento grande e vazio demais pra nós três. Mãos à obra.
Um sábado típico em que eu acordo com os dedos coçando pra escrever, ao mesmo tempo em que uma obsessão por limpeza me invade, e desembesto a botar a casa em ordem. Já vejo um padrão depois de tantos sábados parecidos: a manhã preguiçosa que eu imaginei enquanto dirigia exausta pelo trânsito hostil da cidade no final de cada dia útil (?) nunca se revela preguiçosa de fato. O Hugo sai cedo pra trabalhar, e eu não resisto à ideia de ter só pra mim as horas e a luz da manhã. Preciso levantar, me mexer, ocupar meu corpo com tarefas triviais e repetitivas, pra dar paz à minha mente. Faxina é meditação.
Nos primeiros instantes, a missão parece hercúlea: todas as minhas roupas e sapatos espalhados pela casa, louça suja pela cozinha inteira, pó sobre os móveis, quarto da Birra parecendo uma pocilga. Minha cabeça idem: encerrei a semana cheia de incertezas, dores e um instinto de movimento necessário, ainda que sem saber direito pra onde.
Começo pelo meu quarto, meu ambiente mais íntimo, tratando das minhas coisas. Meu guarda-roupa ontem parecia vazio, eu não encontrava nada pra vestir na hora de ir trabalhar. Nessas horas sempre fico emburrada, e nunca sei se é por conta de não ter roupa, ou por constatar que algo assim tão besta é capaz de me incomodar.
Saio pela casa juntando blusas, calças, saias, sutiãs, calcinhas, sapatos, bolsas, brincos. Empilho tudo em cima da cama e vejo uma montanha disforme e aparentemente intransponível. Passo a dobrar peça por peça, dispondo as minhas do lado esquerdo e as dele do lado direito. Logo o lado esquerdo vira centro, e o direito vira canto.
Ele sonha alto, mas sabe ser feliz com pouco, e faz o melhor com aquilo que tem. Por exemplo: tem a certeza de ser casado com a mulher mais linda, inteligente e espirituosa do universo (ou pelo menos me convence direitinho disso todos os dias, que é o que importa). Trabalha fazendo pão, o alimento mais básico que existe. E faz um pão melhor a cada dia, e se apaixona mais pelo ofício a cada fornada. Sou toda orgulho e amor pelo meu homem, e cada dobra que faço na meia dúzia de camisetas que ele tem é toda amor e orgulho também.
Meus panos vão se coordenando. Primeiro dobrados, depois agrupados (short de corrida com short de corrida, blusa com blusa, calça com calça, e assim por diante), depois devidamente guardados, ordenados por cor. Muito preto, cinza e cru, muita flor e cor também.
Cheguei aqui quase neutra, básica, tela em branco pra uma vida nova. Me apaixonei pelo meu trabalho antes mesmo de conhecê-lo, e segui me apaixonando, e por isso trabalhando em qualquer dia e horário, encarando qualquer missão, virando noites e finais de semana.
Aprendi a trabalhar direito em cozinhas, deve ter sido por isso que fiquei assim. Lá não existia isso de 8 horas por dia, intervalo de almoço, planilhas, projetos adiados, arrastados, prazos estendidos. Era do zero a tudo, todos os dias. Eram partidas, cada qual com sua lista, uma brigada trabalhando coletiva e arduamente por um objetivo claro. Nenhum minuto desperdiçado, nenhuma hora morta. A meritocracia em seu estado puro: quem mandava, mandava porque sabia melhor, e tinha trabalhado feito um cavalo pra chegar até ali. Quem obedecia, se cortava e se queimava (eu, e todos os colegas que tive a sorte de ter), via aquilo como um privilégio, um aprendizado inestimável. O salário definitivamente não era um atrativo. Cozinheiro que preze seu ofício desconhece o significado da expressão “zona de conforto”.
Cozinheiro também não tem aquela membrana cerebral que divide vida pessoal de vida profissional. Pode ser uma deficiência, ou uma bactéria… não sei, sei que pegou em mim, e desconfio que não tenha cura, já que deixei de trabalhar em cozinha há alguns anos, mas sigo enxergando trabalho sob a mesma perspectiva de antes. Me chamem de louca, mas acho que louco mesmo é quem gira uma chavezinha todos os dias, mudando entre o horário comercial e as horas livres. Como aquelas pessoas quem sabem que o mundo é injusto, mas trabalham das 8h às 18h em multinacionais poluidoras e multi-bilionárias, porque o plano de carreira é excelente. Acho isso uma insanidade, como acho os próprios conceitos de “horário comercial” e “universo corporativo” um delírio coletivo. A gente é o que a gente faz todos os dias, o dia todo. A gente não é o lugar paradisíaco que a gente visitou nas férias. A gente não é o post de auto-ajuda publicado no facebook logo de manhã. A gente não é a selfie tirada no elevador antes da festa, exibindo o look e postando com alguma hashtag em inglês desprovida de qualquer sentido (#top #workhardplayharder #hojetem e #babaquicesafins).
Eu quis viajar, e trabalhar com alguma coisa completamente diferente do que meu diploma de direito me habilitava a fazer, e viver aventuras em territórios desconhecidos, e interagir com gente fascinante. Venho tentando viver assim, com relativo sucesso. Estudei, mudei de país 3 vezes e um dia encontrei - ou melhor, inventei - um emprego que parecia feito pra mim e eu pra ele. Acontece que mudanças radicais tornam-se viciantes. E não posso mais negar que preciso de uma nova mudança radical. Pra já.
Nesses dois anos de Bahia, vivi coisas surreais. Cheguei acreditando que me espiritualizaria, mas no máximo reforcei meu agnosticismo otimista. Jurava que a maresia fosse me tornar mais leve, e na verdade o que aconteceu foi que minhas cores todas ganharam uma camada extra de tinta. Do azul-piscina ao vermelho-sangue, aqui se esgotou o tempo das linhas tênues e áreas acinzentadas. Sempre serei adepta das sutilezas, mas nunca mais abro mão da clareza absoluta para comigo mesma.
Aqui quase separei, casei de verdade (finalmente), me apaixonei e me desapaixonei. Hoje amo e sei. Nunca dei bola pra raízes e legados, agora quero ter um filho. Aqui morri de saudades de abraçar a minha irmã, rir com o meu irmão, ganhar colo da minha mãe, fazer nada na casa dos meus avós, saber da vida de meus tios e primos por eles mesmos, almoçar no meio da semana com as minhas amigas, beber e falar besteira qualquer dia, à toa, com os meus amigos e amores. Primeiro morri de saudades, depois aceitei que ônus sempre há, hoje decidi que alguns não valem a pena.
Aprendi que sonhar o sonho alheio é maravilhoso quando o sonho vira nosso também. Sou eternamente agradecida por isso. Entendi também o que dizia Elis quando falava que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa. Tanto canto quanto sonho são bálsamos, viver é fundamental. O que eu vim fazer aqui já foi feito, já está. O momento é de transcender a fim de evoluir.
Meu guarda-roupa está em ordem. Tenho muito mais do que o bastante pra viver, mas não tanto que não possa fechar numa mala se a hora for de partir. Falta ainda arrumar o resto desse apartamento grande e vazio demais pra nós três. Mãos à obra.
Aquele sobre meu bode com o oversharing. E Bowie, de canto.
O que piada, moda e beleza física têm em comum? Qualquer uma das três, se explicada, perde a graça.
Não sou comediante, fashionista, nem gata-sarada, mas prezo muito minhas risadas, compro a Vogue todo mês e sou vidrada em gente linda. Olho mesmo, sem disfarçar. Só que o encanto se quebra quando a beldade começa a discorrer sobre o suco verde que toma de manhã, o peso que levanta na academia e o creme pra esfoliar o cotovelo que trouxe do free shop. Fotos da pessoa suada e vestida com roupas fluorescentes enquanto se estica toda no pilates me constrangem. Penso com temor que daí a começarem a documentar banho e depilação íntima é um curto passo.
O mesmo vale pra looks do dia em que todos aqueles detalhes charmosos na aparência de alguém viram produtos, coisas que se podem comprar no shopping. Some-se a isso o fato de essas fotos serem tiradas sempre em três variações da mesma posição, e puf!: o encanto acaba.
Beleza e elegância são je ne sais quoi, dependem de um certo mistério. O ser humano atraente parece não ter perdido muito tempo buscando se tornar atraente, apenas é - e não pede desculpas, nem dá explicações por isso. Conversa sobre livros, viagens, sexo, comida. Lê livros, viaja, transa, come. Sim, bem provável que faça ginástica, use uns creminhos, goste de roupa bonita e cuide da alimentação, mas põe tudo isso numa caixinha que diz "cuidados íntimos e pessoais".
Arquitetos gostam de participar da obra e do entulho que precedem um ambiente belo e confortável. Cozinheiros (e alguns comilões) exultam ao saber detalhes sobre a matéria-prima e o preparo por trás do prato bem apresentado e saboroso que é servido no restaurante. Esteticistas, personal trainers, dermatologistas, maquiadores, nutricionistas e estilistas se importam com detalhes sobre exercícios que definem a cintura, tratamentos que eliminam a celulite, cremes que são base, hidratante e protetor solar ao mesmo tempo, alimentos termogênicos, a cor que vai dominar as passarelas e a marca que vai virar hit na próxima estação.
Hedonistas só se interessam por ver, ouvir, sentir, cheirar e comer o que é gostoso, bonito e perfumado.
Não me canso de assistir ao vídeo de David Bowie tocando piano e cantando "I'd rather be high" pra Arizona Muse num baile de mascarados loucos em Veneza (L'Invitation au voyage, campanha da Louis Vuitton), mas acho cafonérrimo quem se ufana do monograma nos aeroportos e "spots badalados" mundo afora. Devo ter visto umas doze vezes o último desfile da Victoria's Secret no YouTube, mas parei de seguir a Izabel Goulart no Instagram no dia em que amanheci com fotos do aipo e da beterraba que ela centrifuga no café-da-manhã (e anoiteci vendo-a pendurada em um equipamento engenhoso pra fortalecer glúteos e abdome).
Quando morava em Londres, conheci uma guria que é a tradução do que pra mim significa beleza: era uma sueca de 1,80m, loira e deslumbrante, que mancava na ocasião, por conta de um tombo fazendo snowboard. Formada pela London School of Economics, resolveu estudar cozinha francesa, pra mudar de ares. Era rápida com as facas e comia o que preparava sem moderação. Esses dias postou aqui que precisava de doações pra um projeto voltado a crianças carentes no Nepal, pelo qual ela havia se inscrito em uma corrida de aventura de 100km pelas montanhas (nepalesas, por óbvio). Não contente em ser bela, viajada e solidária, a danada ainda ganhou a prova. Nunca ouvi essa pessoa falar sobre whey, power plate, primer ou fashion week. Inobstante, andava sempre impecável e com histórias incríveis pra contar.
Moral da história: todos somos livres pra usarmos como quisermos nosso tempo, e compartilharmos como bem entendermos nossas atividades diárias. Dito isso, quem vier me contar detalhes sobre seu treino de funcional ou desabafar sobre a dificuldade em encontrar o tom certo no cabeleireiro, fique sabendo: I'd (much) rather be high.
http://www.youtube.com/watch?v=WRPnpy3gzQE
Não sou comediante, fashionista, nem gata-sarada, mas prezo muito minhas risadas, compro a Vogue todo mês e sou vidrada em gente linda. Olho mesmo, sem disfarçar. Só que o encanto se quebra quando a beldade começa a discorrer sobre o suco verde que toma de manhã, o peso que levanta na academia e o creme pra esfoliar o cotovelo que trouxe do free shop. Fotos da pessoa suada e vestida com roupas fluorescentes enquanto se estica toda no pilates me constrangem. Penso com temor que daí a começarem a documentar banho e depilação íntima é um curto passo.
O mesmo vale pra looks do dia em que todos aqueles detalhes charmosos na aparência de alguém viram produtos, coisas que se podem comprar no shopping. Some-se a isso o fato de essas fotos serem tiradas sempre em três variações da mesma posição, e puf!: o encanto acaba.
Beleza e elegância são je ne sais quoi, dependem de um certo mistério. O ser humano atraente parece não ter perdido muito tempo buscando se tornar atraente, apenas é - e não pede desculpas, nem dá explicações por isso. Conversa sobre livros, viagens, sexo, comida. Lê livros, viaja, transa, come. Sim, bem provável que faça ginástica, use uns creminhos, goste de roupa bonita e cuide da alimentação, mas põe tudo isso numa caixinha que diz "cuidados íntimos e pessoais".
Arquitetos gostam de participar da obra e do entulho que precedem um ambiente belo e confortável. Cozinheiros (e alguns comilões) exultam ao saber detalhes sobre a matéria-prima e o preparo por trás do prato bem apresentado e saboroso que é servido no restaurante. Esteticistas, personal trainers, dermatologistas, maquiadores, nutricionistas e estilistas se importam com detalhes sobre exercícios que definem a cintura, tratamentos que eliminam a celulite, cremes que são base, hidratante e protetor solar ao mesmo tempo, alimentos termogênicos, a cor que vai dominar as passarelas e a marca que vai virar hit na próxima estação.
Hedonistas só se interessam por ver, ouvir, sentir, cheirar e comer o que é gostoso, bonito e perfumado.
Não me canso de assistir ao vídeo de David Bowie tocando piano e cantando "I'd rather be high" pra Arizona Muse num baile de mascarados loucos em Veneza (L'Invitation au voyage, campanha da Louis Vuitton), mas acho cafonérrimo quem se ufana do monograma nos aeroportos e "spots badalados" mundo afora. Devo ter visto umas doze vezes o último desfile da Victoria's Secret no YouTube, mas parei de seguir a Izabel Goulart no Instagram no dia em que amanheci com fotos do aipo e da beterraba que ela centrifuga no café-da-manhã (e anoiteci vendo-a pendurada em um equipamento engenhoso pra fortalecer glúteos e abdome).
Quando morava em Londres, conheci uma guria que é a tradução do que pra mim significa beleza: era uma sueca de 1,80m, loira e deslumbrante, que mancava na ocasião, por conta de um tombo fazendo snowboard. Formada pela London School of Economics, resolveu estudar cozinha francesa, pra mudar de ares. Era rápida com as facas e comia o que preparava sem moderação. Esses dias postou aqui que precisava de doações pra um projeto voltado a crianças carentes no Nepal, pelo qual ela havia se inscrito em uma corrida de aventura de 100km pelas montanhas (nepalesas, por óbvio). Não contente em ser bela, viajada e solidária, a danada ainda ganhou a prova. Nunca ouvi essa pessoa falar sobre whey, power plate, primer ou fashion week. Inobstante, andava sempre impecável e com histórias incríveis pra contar.
Moral da história: todos somos livres pra usarmos como quisermos nosso tempo, e compartilharmos como bem entendermos nossas atividades diárias. Dito isso, quem vier me contar detalhes sobre seu treino de funcional ou desabafar sobre a dificuldade em encontrar o tom certo no cabeleireiro, fique sabendo: I'd (much) rather be high.
http://www.youtube.com/watch?v=WRPnpy3gzQE
Aquele em que eu fiquei braba com os apps de cotação humana e tomei as dores da Nigella
Lulu, tubby, Nigella, agressão e cocaína
Bode desse assunto do apps que classificam homens e mulheres de acordo com suas performances sexuais. Esses brinquedos pra mim têm tanta credibilidade quanto a vejinha: jamais comeria ou deixaria de comer baseada no que a revista publica.
Vi uma tela de suposta avaliação feminina no tubby esses dias e não entendi patavina: a guria vinha com as hashtags #AnalVoluntário, #MamaMeOlhando #MandaFotoNuaNoWhatsapp e várias outras indicando que ela adora dar e dá faceira. Mas a nota era um 7,5 mixuruca. Pô, um currículo desses e passa por média raspando? Fiquei me perguntando o que precisa fazer pra ganhar um 10. Será que o caminho é ser ainda mais libertina? Ou eles gostam mesmo é das pudicas, que não transam antes do terceiro encontro e gozam rapidinho, sem dar muito trabalho? Fica a dúvida.
Quero acreditar que meus contatos por aqui (homens E mulheres) não darão ibope pra essas ferramentas, que têm muito mais cara de desforra dos recalcados do que serviço de utilidade pública, como a CEO do lulu anda sustentando por aí.
Mas o que a Nigella tem com isso? Pois bem, meses atrás o mundo viu a deusa da cozinha passar por maus bocados nas mãos do próprio marido. Charles Saatchi apertou o pescoço da mulher com violência, à luz do dia e à vista de todos, em um restaurante em Mayfair. Em seguida disse aos jornais que não era um homem violento e abominava agressões contra mulheres (como aquelas pessoas hilárias que se dizem não-homofóbicas, pra em seguida avacalhar a Daniela Mercury por ela ter explicado à netinha que menina com menina pode).
Pegou mal, como sempre pega nesses casos. Mas o agressor conseguiu baixar ainda mais o nível: nos últimos dias, botou a boca no trombone pra dizer que a ex é viciada em cocaína, em uma ação judicial envolvendo antigas empregadas da família. Calculo que ele tenha feito isso esperando que a opinião pública dissesse: "Ah, tá, se é junkie, tem mais é que descer o cacete mesmo!" Calculo também que esteja alcançando relativo sucesso nessa empreitada.
Nigella é uma musa do prazer gastronômico. Linda, sexy, até exagerada nas manifestações de êxtase ao abocanhar colheradas de delícias hipercalóricas e blasterdeliciosas. Faz isso direto das travessas guardadas na geladeira, sozinha na cozinha, às vezes no escuro, sem servir nem dividir, olhem que safada!
Nessa baixaria da coca, admitiu que já cheirou, mas diz que nunca foi viciada. Admitiu a contragosto, por saber que o mundo cairia matando em cima dela depois disso - nosso planeta tá cheio de gente que se ressente da capacidade alheia em aproveitar a vida, e esses seres vivem em busca dos podres de quem sabe viver pra apontar o dedo. São indivíduos assim que se regozijam ao ler "Higella" na imprensa marrom e comentam: "bem feito, afinal merecia apanhar, drogada demônia!".
É o mesmo tipo de ser humano de quinta categoria que se refere - anonimamente e para terceiros - a outros seres humanos com hashtags como as que eu elenquei acima (e outras muito piores), como se o fato de uma mulher gostar de sexo fosse razão suficiente para expô-la e constrangê-la. Sim, porque é bastante claro que esse tipo de cartaz queima o filme da mulherada, enquanto que para os homens, #TrêsPernas sempre valorizam o passe.
Tem horas em que é mesmo muito difícil manter algum tipo de fé na humanidade.
Bode desse assunto do apps que classificam homens e mulheres de acordo com suas performances sexuais. Esses brinquedos pra mim têm tanta credibilidade quanto a vejinha: jamais comeria ou deixaria de comer baseada no que a revista publica.
Vi uma tela de suposta avaliação feminina no tubby esses dias e não entendi patavina: a guria vinha com as hashtags #AnalVoluntário, #MamaMeOlhando #MandaFotoNuaNoWhatsapp e várias outras indicando que ela adora dar e dá faceira. Mas a nota era um 7,5 mixuruca. Pô, um currículo desses e passa por média raspando? Fiquei me perguntando o que precisa fazer pra ganhar um 10. Será que o caminho é ser ainda mais libertina? Ou eles gostam mesmo é das pudicas, que não transam antes do terceiro encontro e gozam rapidinho, sem dar muito trabalho? Fica a dúvida.
Quero acreditar que meus contatos por aqui (homens E mulheres) não darão ibope pra essas ferramentas, que têm muito mais cara de desforra dos recalcados do que serviço de utilidade pública, como a CEO do lulu anda sustentando por aí.
Mas o que a Nigella tem com isso? Pois bem, meses atrás o mundo viu a deusa da cozinha passar por maus bocados nas mãos do próprio marido. Charles Saatchi apertou o pescoço da mulher com violência, à luz do dia e à vista de todos, em um restaurante em Mayfair. Em seguida disse aos jornais que não era um homem violento e abominava agressões contra mulheres (como aquelas pessoas hilárias que se dizem não-homofóbicas, pra em seguida avacalhar a Daniela Mercury por ela ter explicado à netinha que menina com menina pode).
Pegou mal, como sempre pega nesses casos. Mas o agressor conseguiu baixar ainda mais o nível: nos últimos dias, botou a boca no trombone pra dizer que a ex é viciada em cocaína, em uma ação judicial envolvendo antigas empregadas da família. Calculo que ele tenha feito isso esperando que a opinião pública dissesse: "Ah, tá, se é junkie, tem mais é que descer o cacete mesmo!" Calculo também que esteja alcançando relativo sucesso nessa empreitada.
Nigella é uma musa do prazer gastronômico. Linda, sexy, até exagerada nas manifestações de êxtase ao abocanhar colheradas de delícias hipercalóricas e blasterdeliciosas. Faz isso direto das travessas guardadas na geladeira, sozinha na cozinha, às vezes no escuro, sem servir nem dividir, olhem que safada!
Nessa baixaria da coca, admitiu que já cheirou, mas diz que nunca foi viciada. Admitiu a contragosto, por saber que o mundo cairia matando em cima dela depois disso - nosso planeta tá cheio de gente que se ressente da capacidade alheia em aproveitar a vida, e esses seres vivem em busca dos podres de quem sabe viver pra apontar o dedo. São indivíduos assim que se regozijam ao ler "Higella" na imprensa marrom e comentam: "bem feito, afinal merecia apanhar, drogada demônia!".
É o mesmo tipo de ser humano de quinta categoria que se refere - anonimamente e para terceiros - a outros seres humanos com hashtags como as que eu elenquei acima (e outras muito piores), como se o fato de uma mulher gostar de sexo fosse razão suficiente para expô-la e constrangê-la. Sim, porque é bastante claro que esse tipo de cartaz queima o filme da mulherada, enquanto que para os homens, #TrêsPernas sempre valorizam o passe.
Tem horas em que é mesmo muito difícil manter algum tipo de fé na humanidade.
Aquele sobre usar o corpo pra conseguir as coisas
Barganhas dominicais
7:45
Hugo: Por que não dormes?
Eu: Porque não tenho mais sono.
Hugo: Feche os olhos.
Eu: Me deixa, tô quieta.
Hugo: Não consigo dormir se estás de olhos arregalados a me encarar.
Eu: Tô com fome.
Hugo: Se fizeres café, preparo tostas com ovos.
Eu: Não quero fazer nada, só quero curtir. E quero tostas com ovos!
Hugo: Só me levanto daqui se fizeres café.
Eu: Hmpf tá bom.
Hugo: E estenderes a roupa.
Eu: Pra estender a roupa, vou precisar me vestir, tem certeza?*
Hugo: Varres o quarto da Birra, então.
Eu: Vou fazer café.
Eu: filtro, pó, água, botão, sala, sofá, revista. - Done!
Hugo: pão, faca, tábua, ovos, - Lavas a louça, pelo menos?-manteiga, fogo, pratos.
Eu: Não te escuto daqui.
Hugo, indo até a sala e me vendo deitada, relaxando e lendo a tpm: Deixa-te estar quieta, não faças nada, tás descansada. Não, sério, não te mexas, eu trato de tudo.
Eu: Ok.
Hugo varre o quarto da Birra e traz uma bandeja com torradas, omeletes e café.
Eu dou um beijo nele e como tudo, satisfeita com o que uma esposa consegue por andar só de calcinha pela casa.
* O varal fica na escadaria de serviço, que é compartilhada com o edifício inteiro.
7:45
Hugo: Por que não dormes?
Eu: Porque não tenho mais sono.
Hugo: Feche os olhos.
Eu: Me deixa, tô quieta.
Hugo: Não consigo dormir se estás de olhos arregalados a me encarar.
Eu: Tô com fome.
Hugo: Se fizeres café, preparo tostas com ovos.
Eu: Não quero fazer nada, só quero curtir. E quero tostas com ovos!
Hugo: Só me levanto daqui se fizeres café.
Eu: Hmpf tá bom.
Hugo: E estenderes a roupa.
Eu: Pra estender a roupa, vou precisar me vestir, tem certeza?*
Hugo: Varres o quarto da Birra, então.
Eu: Vou fazer café.
Eu: filtro, pó, água, botão, sala, sofá, revista. - Done!
Hugo: pão, faca, tábua, ovos, - Lavas a louça, pelo menos?-manteiga, fogo, pratos.
Eu: Não te escuto daqui.
Hugo, indo até a sala e me vendo deitada, relaxando e lendo a tpm: Deixa-te estar quieta, não faças nada, tás descansada. Não, sério, não te mexas, eu trato de tudo.
Eu: Ok.
Hugo varre o quarto da Birra e traz uma bandeja com torradas, omeletes e café.
Eu dou um beijo nele e como tudo, satisfeita com o que uma esposa consegue por andar só de calcinha pela casa.
* O varal fica na escadaria de serviço, que é compartilhada com o edifício inteiro.
Aquele de resoluções de ano novo
2013
Meu ano foi enorme. Nele couberam algumas de mim. Coube desencanto e coube canto de sereia. Couberam viagens transcontinentais e expedições por dentro da minha cabeça no sofá da sala. Coube (e cabe) sempre mais saudade. Coube desamor e coube reamor. Coube um cachorro. Coube paciência, coube rebeldia. Como coube coisa dentro desse ano! Agora tá gordo, pesado, hipertenso e flatulento. Bendita hora de sair de cena.
2014
Quero ir-me da Bahia, mas sem fechar a porta. Só encostar de leve, ou trocar essa tal porta por uma cortina de miçanga. Quero sempre ter no meu mundo espaço pro tropical, pra malandragem, pra leseira - mas prefiro que isso não me cause transtornos psicológicos e/ou esquizofrenia. Que apenas me relaxe e me muna de perspectiva, me impeça de endurecer e azedar além da conta.
Quero que no meu dia a dia, as coisas funcionem, os amigos se encontrem, o tempo vire, os projetos saiam do papel, as conexões se estabeleçam e existam mais opções de cerveja para além de skol, devassa e nova schin.
Quero que Porto Alegre esteja logo ali, e que de vez em quando eu decida aparecer na casa da minha vó de surpresa, com uma florzinha roubada do canteiro alheio na mão.
Quero voltar a estudar, pra informar melhor essa minha vontade de mudar o mundo.
Quero fazer aulas de alguma coisa completamente inútil, lúdica e bela, como tocar cítara ou saxofone, dançar sapateado ou flamenco, desenho, escultura, slackline. É parte fundamental do meu plano que a tarefa eleita não seja uma aspiração profissional, uma obsessão competitiva, nem represente qualquer possibilidade concreta de se tornar lucrativa.
Quero fazer o bem. Sem demagogias, só um sentimento genuíno de amor ao próximo. É tão fácil aspirar àquilo que a gente não tem, que às vezes cometemos o absurdo de esquecer que a imensa maioria das pessoas neste mundo precisa desesperadamente de muito menos. Do basicão, mesmo. De carinho, atenção, de um olhar mais demorado. De arroz, feijão, fralda e leite em pó.
Quero escrever um livro.
Quero ter um bebê.
E chega de tant
Meu ano foi enorme. Nele couberam algumas de mim. Coube desencanto e coube canto de sereia. Couberam viagens transcontinentais e expedições por dentro da minha cabeça no sofá da sala. Coube (e cabe) sempre mais saudade. Coube desamor e coube reamor. Coube um cachorro. Coube paciência, coube rebeldia. Como coube coisa dentro desse ano! Agora tá gordo, pesado, hipertenso e flatulento. Bendita hora de sair de cena.
2014
Quero ir-me da Bahia, mas sem fechar a porta. Só encostar de leve, ou trocar essa tal porta por uma cortina de miçanga. Quero sempre ter no meu mundo espaço pro tropical, pra malandragem, pra leseira - mas prefiro que isso não me cause transtornos psicológicos e/ou esquizofrenia. Que apenas me relaxe e me muna de perspectiva, me impeça de endurecer e azedar além da conta.
Quero que no meu dia a dia, as coisas funcionem, os amigos se encontrem, o tempo vire, os projetos saiam do papel, as conexões se estabeleçam e existam mais opções de cerveja para além de skol, devassa e nova schin.
Quero que Porto Alegre esteja logo ali, e que de vez em quando eu decida aparecer na casa da minha vó de surpresa, com uma florzinha roubada do canteiro alheio na mão.
Quero voltar a estudar, pra informar melhor essa minha vontade de mudar o mundo.
Quero fazer aulas de alguma coisa completamente inútil, lúdica e bela, como tocar cítara ou saxofone, dançar sapateado ou flamenco, desenho, escultura, slackline. É parte fundamental do meu plano que a tarefa eleita não seja uma aspiração profissional, uma obsessão competitiva, nem represente qualquer possibilidade concreta de se tornar lucrativa.
Quero fazer o bem. Sem demagogias, só um sentimento genuíno de amor ao próximo. É tão fácil aspirar àquilo que a gente não tem, que às vezes cometemos o absurdo de esquecer que a imensa maioria das pessoas neste mundo precisa desesperadamente de muito menos. Do basicão, mesmo. De carinho, atenção, de um olhar mais demorado. De arroz, feijão, fralda e leite em pó.
Quero escrever um livro.
Quero ter um bebê.
E chega de tant
Aquele sobre mi Porto Alegre querida
Porto Alegre é que tem um jeito legal
Aterrisso no Salgado Filho às 7h da manhã. Na chegada, sobrevoando as ilhotas do Guaíba, me espicho toda (sentei no corredor) pra enxergar o Cais do Porto, o Gasômetro, os edifícios claros e baixos iluminados pelo sol de um dia azul anil. O céu só fica nesse tom aqui.
Talvez se eu voltasse todo mês, não sentiria esse deslumbramento todo que sinto quando chego. Parece sempre que tô voltando do exílio, preciso me policiar pra não beijar o chão, nem me enrolar toda na bandeira riograndense. A recepção contribui com o sentimento de "a boa filha à casa torna": meus avós estão lá desde às 6h; minha mãe e minha irmã me dão um mata-leão coletivo de amor e afeto com juros e correção monetária.
Gosto de olhar pras ruas, mesmo as ruas mais opacas que cercam o aeroporto, e sabê-las todas de cor e salteado, sugerir rotas, reparar nas novas fachadas. Porto Alegre muda de paisagem rapidamente: em um instante a gente passa do concreto da perimetral às ruas arborizadas de paralelepípedo da Bela Vista.
Me levam pra tomar café-da-manhã em um lugarzinho charmoso, e me delicio em pensar que minha cidade está cheia desses recantos, novos ou tradicionais, e eu louca pra conhecer ou retornar a cada um deles. Taí um talento portoalegrense: a graça discreta e despretensiosa de barzinhos, cafés e lojas de coisas queridas. É um je ne sais quoi low profile tri legal, da zona sul ao moinhos de vento, passando por centro, bom fim e cidade baixa.
Porto Alegre me dói
Vir nessa época do ano - depois de quase um ano inteiro sem vir - é um pouco mais complexo do que o previsto. Comemorações natalinas e férias de verão são como uma cápsula idílica entre um ano e outro quando a gente tá crescendo. Depois de uma certa idade, estão mais pra um respiro rápido, um breve parêntesis.
Quando eu era piá, vivia o período sempre em contradição: esperava ansiosa por essa época do ano, mas logo que acabava de abrir os presentes de Natal, ficava ansiosa pela possibilidade de ninguém me convidar pra ir à praia no ano novo. Porque Porto Alegre lá pelas tantas expulsa, como se esvaziasse por osmose. O calor é acachapante, e entre dezembro e março, todos os dias a capa da zero hora traz uma foto do verão sendo bem aproveitado no nosso litoral (que vai de Garopaba a Punta del Este).
Agora parece déja vu: cá estou, presenciando o êxodo à medida que os dias ficam mais escaldantes. No ócio, na casa onde moram minha mãe, meus irmãos e a gata deles, revivo meus dias de guria desocupada em um cotidiano atípico, em que as horas passam mais devagar e os dias, mais rapidamente.
Longas pedaladas em pleno horário comercial, maratonas de seriados bobocas, leitura completa e desatenta de todos os cadernos da zh, passeios vespertinos, beijos, cafunés, conversas fiadas, siestas e banhos de piscina. Como se eu nunca tivesse saído desse cenário.
Acontece que eu saí, como pode atestar o marido que eu trago a tiracolo - e que em alguns círculos já é bem mais popular do que eu, diga-se. Só que uma semana não é o bastante pras minhas revoluções pessoais se manifestarem. Pelo menos não esta semana, com tudo em suspensão. O que dói é isso: ao mesmo tempo em que essa mini rotina é parecida demais com ex rotinas minhas, ela é tão atípica e distante da minha realidade atual, que meu desejo de manifestar que tudo mudou é proporcional à minha vontade de fazer esse agora durar o máximo possível. Não tô tentando ser hermética, Porto Alegre que de fato o é pra mim, e ora eu me vejo do lado de dentro, claustrofóbico, ora do lado de fora, impenetrável.
Porto Alegre me tem
Quando eu pedalo pela Duque no fim de tarde e descubro novas cores nos mesmos prédios de sempre, e faço planos secretos de um dia ter um apartamento ali, e paro no viaduto da Borges pra olhar, admirada e com vertigem, como sempre. Às vezes escorre uma que outra lágrima, mas acho que é do vento que bate na cara quando pego embalo nas descidas.
Me tem quando o povo aparece prum churras aqui em casa, todo mundo bem à vontade, comendo, bebendo, fumando, rindo, conversando, abrindo a geladeira e os armários, atrás de copos, talheres, cerveja.
Porto Alegre me tem muito junto do peito quando eu tô longe daqui. E me faz, evidentemente, tão sentimental.
Aterrisso no Salgado Filho às 7h da manhã. Na chegada, sobrevoando as ilhotas do Guaíba, me espicho toda (sentei no corredor) pra enxergar o Cais do Porto, o Gasômetro, os edifícios claros e baixos iluminados pelo sol de um dia azul anil. O céu só fica nesse tom aqui.
Talvez se eu voltasse todo mês, não sentiria esse deslumbramento todo que sinto quando chego. Parece sempre que tô voltando do exílio, preciso me policiar pra não beijar o chão, nem me enrolar toda na bandeira riograndense. A recepção contribui com o sentimento de "a boa filha à casa torna": meus avós estão lá desde às 6h; minha mãe e minha irmã me dão um mata-leão coletivo de amor e afeto com juros e correção monetária.
Gosto de olhar pras ruas, mesmo as ruas mais opacas que cercam o aeroporto, e sabê-las todas de cor e salteado, sugerir rotas, reparar nas novas fachadas. Porto Alegre muda de paisagem rapidamente: em um instante a gente passa do concreto da perimetral às ruas arborizadas de paralelepípedo da Bela Vista.
Me levam pra tomar café-da-manhã em um lugarzinho charmoso, e me delicio em pensar que minha cidade está cheia desses recantos, novos ou tradicionais, e eu louca pra conhecer ou retornar a cada um deles. Taí um talento portoalegrense: a graça discreta e despretensiosa de barzinhos, cafés e lojas de coisas queridas. É um je ne sais quoi low profile tri legal, da zona sul ao moinhos de vento, passando por centro, bom fim e cidade baixa.
Porto Alegre me dói
Vir nessa época do ano - depois de quase um ano inteiro sem vir - é um pouco mais complexo do que o previsto. Comemorações natalinas e férias de verão são como uma cápsula idílica entre um ano e outro quando a gente tá crescendo. Depois de uma certa idade, estão mais pra um respiro rápido, um breve parêntesis.
Quando eu era piá, vivia o período sempre em contradição: esperava ansiosa por essa época do ano, mas logo que acabava de abrir os presentes de Natal, ficava ansiosa pela possibilidade de ninguém me convidar pra ir à praia no ano novo. Porque Porto Alegre lá pelas tantas expulsa, como se esvaziasse por osmose. O calor é acachapante, e entre dezembro e março, todos os dias a capa da zero hora traz uma foto do verão sendo bem aproveitado no nosso litoral (que vai de Garopaba a Punta del Este).
Agora parece déja vu: cá estou, presenciando o êxodo à medida que os dias ficam mais escaldantes. No ócio, na casa onde moram minha mãe, meus irmãos e a gata deles, revivo meus dias de guria desocupada em um cotidiano atípico, em que as horas passam mais devagar e os dias, mais rapidamente.
Longas pedaladas em pleno horário comercial, maratonas de seriados bobocas, leitura completa e desatenta de todos os cadernos da zh, passeios vespertinos, beijos, cafunés, conversas fiadas, siestas e banhos de piscina. Como se eu nunca tivesse saído desse cenário.
Acontece que eu saí, como pode atestar o marido que eu trago a tiracolo - e que em alguns círculos já é bem mais popular do que eu, diga-se. Só que uma semana não é o bastante pras minhas revoluções pessoais se manifestarem. Pelo menos não esta semana, com tudo em suspensão. O que dói é isso: ao mesmo tempo em que essa mini rotina é parecida demais com ex rotinas minhas, ela é tão atípica e distante da minha realidade atual, que meu desejo de manifestar que tudo mudou é proporcional à minha vontade de fazer esse agora durar o máximo possível. Não tô tentando ser hermética, Porto Alegre que de fato o é pra mim, e ora eu me vejo do lado de dentro, claustrofóbico, ora do lado de fora, impenetrável.
Porto Alegre me tem
Quando eu pedalo pela Duque no fim de tarde e descubro novas cores nos mesmos prédios de sempre, e faço planos secretos de um dia ter um apartamento ali, e paro no viaduto da Borges pra olhar, admirada e com vertigem, como sempre. Às vezes escorre uma que outra lágrima, mas acho que é do vento que bate na cara quando pego embalo nas descidas.
Me tem quando o povo aparece prum churras aqui em casa, todo mundo bem à vontade, comendo, bebendo, fumando, rindo, conversando, abrindo a geladeira e os armários, atrás de copos, talheres, cerveja.
Porto Alegre me tem muito junto do peito quando eu tô longe daqui. E me faz, evidentemente, tão sentimental.
Aquele em que eu dei tchau pra Bahia
Aaaand it's a wrap!
Difícil acreditar que chega ao fim meu último dia de trabalho nessa fantástica fábrica de chocolates. O quê, deixar a AMMA? Claro que não, nem pensar em uma insanidade desse quilate. Só mudo de CEP. O trabalho segue, sempre igual, sempre diferente, como tem sido nos últimos 2 anos.
Bahia: eu te amei, eu te odiei, a gente se cuidou e se destratou. (São Paulo, acho que contigo a história vai ser nessa mesma linha - não foi à toa que eu ganhei do Hugo o apelido de quadripolar: nada no meu coração é uma coisa só. Nem duas, nem três.)
Estranho vai ser não ouvir a Katia subindo nas tamancas e rodando a baiana no mínimo 2x por dia, não rir da quantidade de bandalheira que a Vivi fala sem respirar, não partilhar mais com a Ingrid do humor ácido (e por vezes corrosivo), não escutar o falatório do povo da produção, não passar meus dias em um escritório multicolorido, cheio de arte e assunto, não viver minha rotina nesse oásis de cor, sabor, amor e índices saudáveis de loucura, em meio à paisagem cinzenta do Porto Seco Pirajá.
Nem tô pensando na saudade ainda, vou levar uns dias até me acostumar à ideia de que o capítulo soteropolitano da minha vida chegou ao fim. Mas pô, não é fim FIM, é uma nova roupagem, uma arrumação diferente dos móveis, uma sacodida providencial. Vou seguir vindo de quando em vez, de visita, por uma ou outra razão. Sei lá, é aquela coisa de sempre: eu saio dos lugares, mas os lugares nunca saem completamente de mim.
Vou sempre levar comigo daqui muito mais do que a fitinha do Senhor do Bom Fim.
Agradecida, Bahia linda e louca! De coração.
Sampa, here we go!
Difícil acreditar que chega ao fim meu último dia de trabalho nessa fantástica fábrica de chocolates. O quê, deixar a AMMA? Claro que não, nem pensar em uma insanidade desse quilate. Só mudo de CEP. O trabalho segue, sempre igual, sempre diferente, como tem sido nos últimos 2 anos.
Bahia: eu te amei, eu te odiei, a gente se cuidou e se destratou. (São Paulo, acho que contigo a história vai ser nessa mesma linha - não foi à toa que eu ganhei do Hugo o apelido de quadripolar: nada no meu coração é uma coisa só. Nem duas, nem três.)
Estranho vai ser não ouvir a Katia subindo nas tamancas e rodando a baiana no mínimo 2x por dia, não rir da quantidade de bandalheira que a Vivi fala sem respirar, não partilhar mais com a Ingrid do humor ácido (e por vezes corrosivo), não escutar o falatório do povo da produção, não passar meus dias em um escritório multicolorido, cheio de arte e assunto, não viver minha rotina nesse oásis de cor, sabor, amor e índices saudáveis de loucura, em meio à paisagem cinzenta do Porto Seco Pirajá.
Nem tô pensando na saudade ainda, vou levar uns dias até me acostumar à ideia de que o capítulo soteropolitano da minha vida chegou ao fim. Mas pô, não é fim FIM, é uma nova roupagem, uma arrumação diferente dos móveis, uma sacodida providencial. Vou seguir vindo de quando em vez, de visita, por uma ou outra razão. Sei lá, é aquela coisa de sempre: eu saio dos lugares, mas os lugares nunca saem completamente de mim.
Vou sempre levar comigo daqui muito mais do que a fitinha do Senhor do Bom Fim.
Agradecida, Bahia linda e louca! De coração.
Sampa, here we go!
Aquele sobre quando eu comecei a decidir - ainda inconscientemente - ligar o foda-se
Escapismo
Faça o que ama (X) Ame o que faz. - O importante é ter estabilidade. - Trabalhe com o que lhe dá prazer e você nunca ansiará pelo fim de semana. - Das 9h às 18h, a gente ganha dinheiro. Depois, a gente se diverte. - Sucesso é ser feliz. - Transforme seu hobby em atividade lucrativa.
Fiz de mim um hamster de laboratório e apliquei à minha vida boa parte dos conselhos que hoje abundam nos livros de auto ajuda. Não por ler livros de auto ajuda, e sim por ter vivido coisas que me fizeram ávida por ter o máximo possível de experiências.
Com 17 anos tive pânico. Síndrome, crises, faniquitos, o nome que quiser dar. Me apavorava, ficava sem ar, jurava que ia morrer, por medo do futuro. Medo de não passar no vestibular. Medo de passar e ficar presa para o resto da minha vida à carreira do curso em que eu fosse aprovada. Direito, no caso. Com 18, na faculdade, tive colegas de menos de 22 que sabiam claramente o que queriam da vida: um cargo público estável e bem remunerado. Com 19, tive um namorado advogado que tinha a convicção de que casaríamos e seríamos felizes para sempre. Com 20 fugi correndo pra Australia e tive uma trombose cerebral que por pouco não me mata de verdade.
O mais legal de quase morrer com 20 anos (escapando com saúde e nada além de uma leve assimetria física e psicológica como seqüela) é que a gente percebe muitas daquelas coisas que pessoas mais velhas percebem quando têm um enfarto lá pelos 50, depois de já terem a vida toda feita, com filhos, responsabilidades, casa própria. No mais das vezes, também com conseqüências para a saúde que tornam a vida um tédio dali pra frente (aka sem álcool ou gordura saturada). Eu não: saí zerada, nova em folha, os médicos só me mandaram não lutar boxe (pra evitar pancadas na cabeça) e jamais virar fumante (cigarro de nicotina nunca foi a minha praia mesmo). Eu tive a chance de aprender, ainda muito novinha, e sem sombra de dúvida, que se morre num piscar de olhos, então o melhor que se pode fazer é viver bem. Mas não é da minha saúde neurológica que este texto quer falar. Ainda bem. Quero dizer dos caminhos que eu decidi trilhar desde aquele momento.
Primeiro: de posse de meu diploma em direito, concedido por uma das melhores faculdades do Brasil, fui a Londres estudar na Le Cordon Bleu. Até hoje, escrevo isso e me lembro do professor de filosofia do direito Claudio Michelon, que em aula se referiu com desdém e certa indignação a uma antiga aluna, que havia engavetado seu diploma conquistado pela nossa mesma universidade federal, em curso pago com dinheiro público, para ser, vejam só: chef. Lembro também como eu partilhei do sentimento expressado por ele nessa aula, para pouco depois agir exatamente como a tal aluna.
Eu queria ser cozinheira, ué. Entrei numas de acreditar que de nada adiantaria fazer o que a sociedade (ou o professor Michelon, equivalem-se) esperava de mim. Se eu não estivesse feliz, jamais faria um bom trabalho. E lá me fui, viver na cidade mais extraordinária do mundo, queimar todos os meus dedos e antebraços, pedalar na chuva de madrugada e tomar esporro de chef sádico. Sim, pessoal, porque quem decide "seguir o seu coração e viver da gastronomia" não é automaticamente transportado para um charmoso bistrô francês, cercado por pessoas sorridentes e remexendo panelas perfumadas, ao som de Charles Aznavour. Ou se é, esteja certo de que a comida vai ser uma merda. Os anos de sacrifício e abnegação são indispensáveis a um bom profissional de cozinha. E os bons de verdade são loucos o suficiente pra jamais quererem largar esse universo frenético, hostil e superaquecido que é a cozinha profissional. Eu vi logo que não era pra mim.
Tive sorte em cavar, cavar, e encontrar um caminho alternativo, um trabalho que envolvesse alimentação e outras potencialidades minhas que corriam o risco de se perder entre facas e panelas. Muita sorte. O que não me impediu de achar que às vezes não valia tanto a pena assim morar longe de todo mundo que eu amava, mesmo se fosse pra trabalhar com uma coisa que me fascinava.
Ao longo de toda a vida, escrevi muito e li mais ainda. Quando entrei no curso de direito, todo mundo falava que era perfeito pra mim justamente por isso. Mas como, se com as leituras e trabalhos que a faculdade impunha, não sobrava tempo pra ler e escrever o que eu tivesse vontade?
Quando comecei a postar textos aqui e ali, algumas pessoas falaram em transformar isso em ofício. Olhando pra trás e constatando que eu sempre gostei de escrever, que fui alfabetizada precocemente, que escrevia acrósticos pra me divertir aos 8 anos de idade, que foi essa a única atividade que eu exerci com constância e entusiasmo ao longo de toda a minha existência, e considerando que no início da vida adulta eu fiz esse movimento de mudança, de ligar o foda-se e apostar no desconhecido, até eu me pergunto: por que não fui ser escritora? Por que nunca cogitei fazer o curso de letras, manter um blog, lançar um romance? Eu mesma me respondo, no ato: não fiz por proteção e cuidado. Pra não transformar um hábito que me serve como escape e exercício de liberdade em uma fonte de renda, com todas as pressões e inconveniências que vez por outra cercam a palavra trabalho, inevitavelmente. Nunca quis impor método e disciplina a essa área da minha vida. Quis poder ler Balzac e Kerouac ao mesmo tempo, e escrever qualquer besteira no facebook mesmo, sem requisitos formais e estilísticos.
Trabalho é trabalho. Por mais que se faça o que se gosta, haverá sempre chatices, stress, angústias. Hobby e prazer são sagrados, e transformá-los em labuta é tão perigoso quanto atraente. Felicidade é estado de espírito sem garantia, porque a vida muda o tempo todo e a gente também
Faça o que ama (X) Ame o que faz. - O importante é ter estabilidade. - Trabalhe com o que lhe dá prazer e você nunca ansiará pelo fim de semana. - Das 9h às 18h, a gente ganha dinheiro. Depois, a gente se diverte. - Sucesso é ser feliz. - Transforme seu hobby em atividade lucrativa.
Fiz de mim um hamster de laboratório e apliquei à minha vida boa parte dos conselhos que hoje abundam nos livros de auto ajuda. Não por ler livros de auto ajuda, e sim por ter vivido coisas que me fizeram ávida por ter o máximo possível de experiências.
Com 17 anos tive pânico. Síndrome, crises, faniquitos, o nome que quiser dar. Me apavorava, ficava sem ar, jurava que ia morrer, por medo do futuro. Medo de não passar no vestibular. Medo de passar e ficar presa para o resto da minha vida à carreira do curso em que eu fosse aprovada. Direito, no caso. Com 18, na faculdade, tive colegas de menos de 22 que sabiam claramente o que queriam da vida: um cargo público estável e bem remunerado. Com 19, tive um namorado advogado que tinha a convicção de que casaríamos e seríamos felizes para sempre. Com 20 fugi correndo pra Australia e tive uma trombose cerebral que por pouco não me mata de verdade.
O mais legal de quase morrer com 20 anos (escapando com saúde e nada além de uma leve assimetria física e psicológica como seqüela) é que a gente percebe muitas daquelas coisas que pessoas mais velhas percebem quando têm um enfarto lá pelos 50, depois de já terem a vida toda feita, com filhos, responsabilidades, casa própria. No mais das vezes, também com conseqüências para a saúde que tornam a vida um tédio dali pra frente (aka sem álcool ou gordura saturada). Eu não: saí zerada, nova em folha, os médicos só me mandaram não lutar boxe (pra evitar pancadas na cabeça) e jamais virar fumante (cigarro de nicotina nunca foi a minha praia mesmo). Eu tive a chance de aprender, ainda muito novinha, e sem sombra de dúvida, que se morre num piscar de olhos, então o melhor que se pode fazer é viver bem. Mas não é da minha saúde neurológica que este texto quer falar. Ainda bem. Quero dizer dos caminhos que eu decidi trilhar desde aquele momento.
Primeiro: de posse de meu diploma em direito, concedido por uma das melhores faculdades do Brasil, fui a Londres estudar na Le Cordon Bleu. Até hoje, escrevo isso e me lembro do professor de filosofia do direito Claudio Michelon, que em aula se referiu com desdém e certa indignação a uma antiga aluna, que havia engavetado seu diploma conquistado pela nossa mesma universidade federal, em curso pago com dinheiro público, para ser, vejam só: chef. Lembro também como eu partilhei do sentimento expressado por ele nessa aula, para pouco depois agir exatamente como a tal aluna.
Eu queria ser cozinheira, ué. Entrei numas de acreditar que de nada adiantaria fazer o que a sociedade (ou o professor Michelon, equivalem-se) esperava de mim. Se eu não estivesse feliz, jamais faria um bom trabalho. E lá me fui, viver na cidade mais extraordinária do mundo, queimar todos os meus dedos e antebraços, pedalar na chuva de madrugada e tomar esporro de chef sádico. Sim, pessoal, porque quem decide "seguir o seu coração e viver da gastronomia" não é automaticamente transportado para um charmoso bistrô francês, cercado por pessoas sorridentes e remexendo panelas perfumadas, ao som de Charles Aznavour. Ou se é, esteja certo de que a comida vai ser uma merda. Os anos de sacrifício e abnegação são indispensáveis a um bom profissional de cozinha. E os bons de verdade são loucos o suficiente pra jamais quererem largar esse universo frenético, hostil e superaquecido que é a cozinha profissional. Eu vi logo que não era pra mim.
Tive sorte em cavar, cavar, e encontrar um caminho alternativo, um trabalho que envolvesse alimentação e outras potencialidades minhas que corriam o risco de se perder entre facas e panelas. Muita sorte. O que não me impediu de achar que às vezes não valia tanto a pena assim morar longe de todo mundo que eu amava, mesmo se fosse pra trabalhar com uma coisa que me fascinava.
Ao longo de toda a vida, escrevi muito e li mais ainda. Quando entrei no curso de direito, todo mundo falava que era perfeito pra mim justamente por isso. Mas como, se com as leituras e trabalhos que a faculdade impunha, não sobrava tempo pra ler e escrever o que eu tivesse vontade?
Quando comecei a postar textos aqui e ali, algumas pessoas falaram em transformar isso em ofício. Olhando pra trás e constatando que eu sempre gostei de escrever, que fui alfabetizada precocemente, que escrevia acrósticos pra me divertir aos 8 anos de idade, que foi essa a única atividade que eu exerci com constância e entusiasmo ao longo de toda a minha existência, e considerando que no início da vida adulta eu fiz esse movimento de mudança, de ligar o foda-se e apostar no desconhecido, até eu me pergunto: por que não fui ser escritora? Por que nunca cogitei fazer o curso de letras, manter um blog, lançar um romance? Eu mesma me respondo, no ato: não fiz por proteção e cuidado. Pra não transformar um hábito que me serve como escape e exercício de liberdade em uma fonte de renda, com todas as pressões e inconveniências que vez por outra cercam a palavra trabalho, inevitavelmente. Nunca quis impor método e disciplina a essa área da minha vida. Quis poder ler Balzac e Kerouac ao mesmo tempo, e escrever qualquer besteira no facebook mesmo, sem requisitos formais e estilísticos.
Trabalho é trabalho. Por mais que se faça o que se gosta, haverá sempre chatices, stress, angústias. Hobby e prazer são sagrados, e transformá-los em labuta é tão perigoso quanto atraente. Felicidade é estado de espírito sem garantia, porque a vida muda o tempo todo e a gente também
Aquele sobre o airbnb
A
copa é linda. Estamos hospedando um italiano e um inglês via airbnb. São
amigos, não namorados, mas levaram numa boa o fato de o quarto ter cama
de casal. Ontem ao sair, o Hugo
encontrou uma lata de cerveja na porta do elevador. Será que foram
eles?, eu perguntei. Não, devem ter sido os outros hooligans que estão a
dormir nos vizinhos, ele me respondeu. Justo. Agora há pouco levantei e
vim fazer café. Na sala, me deparei com
um deles desfalecido no sofá. Espero que tenha só cansado de dormir de
conchinha com outro barbado, mas sei que existe a possibilidade de haver
uma terceira pessoa lá dentro. Vai ter cópula, afinal de contas. Ao
lado do que dormia, uma garrafa squeeze (minha) parcialmente derretida.
No mínimo, ele acendeu uma vela na garrafa e pegou no sono. Porque sim,
me esqueci de mencionar que estamos sem luz há dias. Eletropaulo veio
aqui, tirou o relógio e nunca mais voltou. Não devemos nada, tá tudo
certo, há 10 dias ficaram de religar em 2, mas com a copa, eles estão
meio enrolados, sacumé. Dias atrás o Hugo ligou uma extensão na tomada
do corredor do nosso andar pra carregar o iPad. O síndico prontamente
cortou a energia dali também. Tenho pavor dessa raça. Só não tenho mais
ódio da Eletropaulo porque toda vez que leio Eletropaulo, penso no meu
vô Paulo Boeira Marshall
enfiando o dedo na tomada, e aí me dá dó misturado com vontade de rir.
Mas é isso, se minha casa não incendiar e eu não for despejada do prédio
até segunda, amo a copa, a vida e o airbnb.
Aquele sobre o meu irmão caçula
Das
61 horas que acabo de passar em Porto Alegre, dentre todos os encontros,
beijos, abraços e parênteses abertos nas saudades de sempre, a manhã de
sábado foi o pedaço mais bonito.
O B me convidou pra pedalar com ele, ir encontrar o vô e a vó no Parcão.
Fomos até o porão pegar as bicicletas, vi ali o monte de tralhas e ferramentas de que ele se apossou, a parede pichada com spray, a oficina que hoje é domínio do guri.
Tempos atrás eu fui pra PoA num fim de semana e passei no café da Célia, amiga da minha mãe. Lá vi umas luminárias lindas, feitas com garrafas de vidro e arame. Quando elogiei, soube que eram obras do meu irmão caçula, agora artesão e negociante.
Nesse sábado, ele levou as bicis e umas chaves de fenda pro pátio, ajustou bancos, tirou pedaleiras, íntimo das peças e ferramentas. Me entregou um capacete que eu, besta, não quis usar. Desci a Plínio com ele, vento na cara, a adrenalina por estar solta na ladeira e já ter sido atropelada bem ali, na esquina com a Marcelo Gama, mais de uma década atrás. Ele na minha frente, ao meu lado, parecia paradoxalmente mais porraloca e mais prudente do que a irmã velha aqui.
Quando a gente atravessava a passarela da Goethe, surge o vô Paulo, pilotando sua magrela de grife com destreza e elegância do alto dos seus 75 anos. Ele me levava pra pedalar quando eu era piá, quase sempre no Marinha. Foi lá que um dia eu aprendi com ele a andar sem as mãos, e nesse mesmo dia cheguei em casa com queixo, cotovelos e joelhos ralados, toda faceira por ter sido um pouco destemida e radical (era uma criança que pecava pela cautela excessiva, e por isso me alegrava quando tombos e machucados acabavam não doendo tanto assim).
Mas voltando ao Parcão, a vó Ana apareceu caminhando e fomos os quatro tomar café na Padre Chagas.
Na hora de ir embora, já sobre a bici, B me pergunta: Ô Mari, tu chegou a comprar material pra gente fazer o cartão da mãe? (Nossa mãe fez aniversário no domingo, e ela gosta de ganhar cartões feitos com as nossas próprias mãos, nunca comprados prontos com frases pré fabricadas.) Demos meia volta e fomos à Casa do Papel, onde ele ajudou a escolher a cartolina amarelo queimado e o papel laminado rosa schocking. Fica legal o contraste, disse o guri. E completou: eu escrevo o texto na máquina de escrever, recorto e aplico as linhas no papel.
Meu irmão é um tipo absolutamente singular que não faz muito caso disso. Só é. Gosta de ferramenta, de bicicleta, de arte e de fazer esculturas com sorvete e balas coloridas, datilografa suas missivas e usa suspensórios por baixo da camiseta, pra segurar as calças sem tirar onda de hipster. Não se faz de excêntrico, alternativo ou moderninho, é um guri na dele. Um amor de guri. Um homem, na real. Um homem raro, inda ontem um bebê gordo, babão e de voz grossa, que insistia em apontar o telefone sem fio pra tv toda vez que resolvia trocar de canal.
O B me convidou pra pedalar com ele, ir encontrar o vô e a vó no Parcão.
Fomos até o porão pegar as bicicletas, vi ali o monte de tralhas e ferramentas de que ele se apossou, a parede pichada com spray, a oficina que hoje é domínio do guri.
Tempos atrás eu fui pra PoA num fim de semana e passei no café da Célia, amiga da minha mãe. Lá vi umas luminárias lindas, feitas com garrafas de vidro e arame. Quando elogiei, soube que eram obras do meu irmão caçula, agora artesão e negociante.
Nesse sábado, ele levou as bicis e umas chaves de fenda pro pátio, ajustou bancos, tirou pedaleiras, íntimo das peças e ferramentas. Me entregou um capacete que eu, besta, não quis usar. Desci a Plínio com ele, vento na cara, a adrenalina por estar solta na ladeira e já ter sido atropelada bem ali, na esquina com a Marcelo Gama, mais de uma década atrás. Ele na minha frente, ao meu lado, parecia paradoxalmente mais porraloca e mais prudente do que a irmã velha aqui.
Quando a gente atravessava a passarela da Goethe, surge o vô Paulo, pilotando sua magrela de grife com destreza e elegância do alto dos seus 75 anos. Ele me levava pra pedalar quando eu era piá, quase sempre no Marinha. Foi lá que um dia eu aprendi com ele a andar sem as mãos, e nesse mesmo dia cheguei em casa com queixo, cotovelos e joelhos ralados, toda faceira por ter sido um pouco destemida e radical (era uma criança que pecava pela cautela excessiva, e por isso me alegrava quando tombos e machucados acabavam não doendo tanto assim).
Mas voltando ao Parcão, a vó Ana apareceu caminhando e fomos os quatro tomar café na Padre Chagas.
Na hora de ir embora, já sobre a bici, B me pergunta: Ô Mari, tu chegou a comprar material pra gente fazer o cartão da mãe? (Nossa mãe fez aniversário no domingo, e ela gosta de ganhar cartões feitos com as nossas próprias mãos, nunca comprados prontos com frases pré fabricadas.) Demos meia volta e fomos à Casa do Papel, onde ele ajudou a escolher a cartolina amarelo queimado e o papel laminado rosa schocking. Fica legal o contraste, disse o guri. E completou: eu escrevo o texto na máquina de escrever, recorto e aplico as linhas no papel.
Meu irmão é um tipo absolutamente singular que não faz muito caso disso. Só é. Gosta de ferramenta, de bicicleta, de arte e de fazer esculturas com sorvete e balas coloridas, datilografa suas missivas e usa suspensórios por baixo da camiseta, pra segurar as calças sem tirar onda de hipster. Não se faz de excêntrico, alternativo ou moderninho, é um guri na dele. Um amor de guri. Um homem, na real. Um homem raro, inda ontem um bebê gordo, babão e de voz grossa, que insistia em apontar o telefone sem fio pra tv toda vez que resolvia trocar de canal.
Aquele de quando eu fiquei trancada
BAH, preciso compartilhar a experiência de quase morte que eu acabo de viver.
Agora sou do lar, né. Fico sozinha em casa o dia todo, estudo, lavo, passo, cozinho e resolvo as treta tudo. Tipo hoje: veio o encanador aqui consertar meu banheiro porque aparentemente, sempre que se toma banho no meu lar, uma torrente desaba sobre o apartamento do meu vizinho de baixo. Beleza, seu Milton arrumou e mandou eu não tomar banho ali por algumas horas. Fui tomar banho no micro banheiro da área de serviço, porque eu tinha acabado de correr às 10h da manhã (coisa que nós, vidas mansas, fazemos amiúde). O banheirinho só tem trinco do lado de fora. Entrei, comecei a pendurar minha toalha bem tranquila - cantarolava, até - quando BUM!: um vendaval repentino bateu a porta e fez cair o trinco. Fiquei ali, trancada numa peça de um metro quadrado, sem ter ninguém pra quem eu pudesse gritar e pedir socorro. Pânico, terror e desespero, dada minha claustrofobia e dado o skype que eu tinha marcado pra dali a 20 minutos. Skype de trabalho, uma coisa que agora aparece de forma esparsa e secundária nessa minha vida de estudos.
Tentei enfiar o dedo no buraco do trinco, mas isso só serviu pra me avacalhar o esmalte do minguinho. Olhei em volta, pros lados, pra cima, pra baixo, à procura de um milagre ou de uma bazooka pra arrombar a maldita porta.
Ali comigo havia uma toalha, um par de havaianas, um xampu, um sabonete e uma vassoura. Pensei: o que McGyver faria no meu lugar? Veio a luz: desatarrachei o cabo da vassoura; usei a saia plástica das cerdas pra quebrar a vidraça que fica na parte de cima da porta (uma pequena vidraça, pela qual eu não passaria do quadril pra baixo nem se estivesse toda besuntada de azeite); arranquei um fiapo da minha toalha, amarrei na ponta do cabo da vassoura; subi na privada e, com a minha nova e improvisada vara de pescar, pesquei o trinco lá de fora, o que exigiu equilíbrio e olho bom, ou seja, precisei controlar a tremedeira do medo, como um karatê kid resoluto.
Saí pra liberdade e pra uma nova vida fora do cativeiro! Me abri pro meu engenhoso instinto de sobrevivência! Agora ninguém me segura!
Pronto, era isso, agora vou tratar do almoço.
Agora sou do lar, né. Fico sozinha em casa o dia todo, estudo, lavo, passo, cozinho e resolvo as treta tudo. Tipo hoje: veio o encanador aqui consertar meu banheiro porque aparentemente, sempre que se toma banho no meu lar, uma torrente desaba sobre o apartamento do meu vizinho de baixo. Beleza, seu Milton arrumou e mandou eu não tomar banho ali por algumas horas. Fui tomar banho no micro banheiro da área de serviço, porque eu tinha acabado de correr às 10h da manhã (coisa que nós, vidas mansas, fazemos amiúde). O banheirinho só tem trinco do lado de fora. Entrei, comecei a pendurar minha toalha bem tranquila - cantarolava, até - quando BUM!: um vendaval repentino bateu a porta e fez cair o trinco. Fiquei ali, trancada numa peça de um metro quadrado, sem ter ninguém pra quem eu pudesse gritar e pedir socorro. Pânico, terror e desespero, dada minha claustrofobia e dado o skype que eu tinha marcado pra dali a 20 minutos. Skype de trabalho, uma coisa que agora aparece de forma esparsa e secundária nessa minha vida de estudos.
Tentei enfiar o dedo no buraco do trinco, mas isso só serviu pra me avacalhar o esmalte do minguinho. Olhei em volta, pros lados, pra cima, pra baixo, à procura de um milagre ou de uma bazooka pra arrombar a maldita porta.
Ali comigo havia uma toalha, um par de havaianas, um xampu, um sabonete e uma vassoura. Pensei: o que McGyver faria no meu lugar? Veio a luz: desatarrachei o cabo da vassoura; usei a saia plástica das cerdas pra quebrar a vidraça que fica na parte de cima da porta (uma pequena vidraça, pela qual eu não passaria do quadril pra baixo nem se estivesse toda besuntada de azeite); arranquei um fiapo da minha toalha, amarrei na ponta do cabo da vassoura; subi na privada e, com a minha nova e improvisada vara de pescar, pesquei o trinco lá de fora, o que exigiu equilíbrio e olho bom, ou seja, precisei controlar a tremedeira do medo, como um karatê kid resoluto.
Saí pra liberdade e pra uma nova vida fora do cativeiro! Me abri pro meu engenhoso instinto de sobrevivência! Agora ninguém me segura!
Pronto, era isso, agora vou tratar do almoço.
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